<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-3979598438513650907</id><updated>2012-01-02T06:34:15.890-08:00</updated><title type='text'>Fronteirices</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://fronteirices.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Desbra Vando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02847300063164608569</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>47</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3979598438513650907.post-4718572158033126963</id><published>2012-01-01T20:18:00.000-08:00</published><updated>2012-01-01T21:23:14.910-08:00</updated><title type='text'>De paetês e dragões</title><content type='html'>Chegou trazendo seu peculiar ar de renovação que amorna corações ao redor do mundo. O Ano Novo é assim, o caçula de três irmãos, criança ingênua e risonha que seduz multidões e reina por alguns dias até ser substituído pelo amadurecido e pragmático Resto do Ano. Adormece num canto oculto da memória apenas para reaparecer com seu esplendor de fênix e mandar o atarefado Fim de Ano tirar merecidas férias.  Ano Novo carrega uma sacola dourada onde  os planos, os sonhos, os  desejos e as resoluções dos mortais são devidamente acomodados. Mas então chega Resto do Ano, mais racional, menos emotivo, um soldado da norma e da realidade que toma a sacola do seu irmão mais novo e a acomoda no Grande Baú Universal das Belas Coisas Esquecidas ou Eternamente Postergadas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante minha existência minha contribuição ao Baú tem sido tão intensa que comecei a ganhar multas por excessos de listagem. No réveillon de 2010 para 2011 eu estava à beira da praia, sob a brisa de Tamandaré, litoral Pernambucano, me re-energizando com o amor da família após um agitado e confuso ano. No meu Moleskine de capa vermelha que carrego diariamente na bolsa (idéias e inspirações são entes saltitantes e fugazes; é preciso estar preparada para capturá-las), fiz minha listinha. Corrijo-me: minha listona. Foram tantos itens, praticamente um para cada mês do ano, que a lista já era praticamente um aborto. De 11 resoluções, várias delas emprestadas da lista de 2010, que por sua vez incluía trechos de 2009, apenas uma de fato aconteceu. Cinco eu considero parcialmente completas (começaram muito tarde no ano ou ficaram estacionados no meio do caminho) e outras cinco nem saíram do papel. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesta virada não teve nem coqueiro nem mar, mas levei o mesmo Moleskine para o Houstonian, um tradicional hotel de luxo, ícone da cidade, onde eu receberia 2012 com brilho, música e muita festa. Reli a lista do ano anterior.  Mentalmente fiz uma penitência equivalente a 30 açoitadas nas costas com chicote de rabo de boi adornado com afiadas lâminas de gilete (por que é sempre tão mais fácil se martirizar do que se parabenizar pelas metas conquistadas?).  Há dias eu já havia mentalmente escrito a lista do ano que estava por entrar. Mas era final de tarde e eu não havia dormido quase nada na noite passada. Eu precisava me conectar ao espírito de 2012, mas primeiramente eu precisava descansar meu corpo exausto de 2011. A réstia de luz que entrava na janela do quarto pedia que eu encostasse minha cabeça naquele travesseiro enorme. Obedeci as vozes do meu corpo. Ironia: não preguei os olhos por culpa das vozes da minha cabeça. Superstições e ansiedades dominavam meu cérebro nas ultimas horas do reinado de Fim de Ano. Tipo, comprei uma calcinha de paetês pretos para combinar com o meu vestido. Calcinha preta no ano novo, como assim? Não fiz banho de sal grosso com ervas. Será que 2012 já está malfadado antes mesmo da sua entrada? Por que não gastei os U$ 5.000 com passagens áreas para mim e meu marido passarmos o final do ano no Brasil com minha família? Poderia ter economizado aqui, guardado mais ali. E será que um dia eu consigo terminar o roteiro de um filme? E se os Maias estiverem certos e o mundo acabar em 2012? E os livros que comecei a ler e não terminei? E aquele projeto que preciso entregar no trabalho? Tentava controlar os pensamentos sem direção. Onde estavam os ensinamentos da meditação quando eu mais necessitava deles? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Decidi então, em apenas alguns minutos, que 2012 seria o ano de quebrar com tradições, a começar pelo próprio reveillon. 2012 seria sua coisa própria, algo de original em meio à minha mesmice. À meia-noite eu não me equilibraria no meu pé direito, não beijaria a boca do meu marido nem invocaria oração para São Jorge. Fiz apenas ligeiras listas mentais focadas não em objetivos práticos e mundanos, como “voltar a fazer aulas de violão”, mas em transformações mais profundas e espiritualizadas, como prestar atenção à minha linguagem corporal e nas reações que elas provocam nos meus interlocutores. Ouvir mais e falar menos. Desbloquear as correntes que me auto-imponho para subconscientemente me boicotar e não levar as listas de resoluções adiante. Não mais do que três e pronto. Ponto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrei no banho morno, sem sal nem ervas. Caprichei na maquiagem. Fiz o cabelo. Vesti o virgem vestido de paetês prata selecionado especialmente para a ocasião. Uma ceia saborosa, champanhe inesgotável, muitas risadas com os recentes amigos Houstonianos e uma saudade inevitável da minha família situada entre o sertão e o litoral pernambucano. A banda tocava clássicos de Sinatra. Senhores de ternos bem aprumados bailavam com suas elegantes senhoras.  &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Ten, nine, eight, seven, six, five, four, three, two, one...HAPPY NEW YEAR&lt;/span&gt;! Confeti e serpentina disputavam o espaço com centenas de balões de gás hélio.  Ano Novo triunfante subia ao palco, criança linda e risonha carregando sua sacola de humanas resoluções e desejos, espalhando mais esperança do que todas as luzes e lantejoulas daquele salão de baile.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como dei uma trégua às tradições, não vi o dia raiar em 2012. Porém confesso que hoje, ao entrar num mercadinho ao lado de casa para comprar um sanduíche neste preguiçoso final de tarde de 01 de janeiro, senti algo acolhedor e especial.  A tradição veio a mim. Ao lado dos vinhos, um Lampião em preto e branco. Acima do freezer de pizzas, um enorme painel a óleo de São Jorge matando o dragão. Imagens indecifráveis para americanos fora do contexto, mas totalmente inseridas na minha brasilianidade. Descubro que os quadros são de um artista plástico baiano que transita entre Houston e Austin.  Há exatamente um ano na virada de 2011, eu vestia uma camiseta de São Jorge. Dois dias depois eu comprava no ateliê de Calazans no Alto da Sé de Olinda um quadro do casamento de Lampião e Maria Bonita. Não acredito em coincidências. É preciso entender os avisos. Que em 2012 eu seja promovida a cangaceira dominadora dos dragões que aparecerem no reinado de Resto do Ano.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3979598438513650907-4718572158033126963?l=fronteirices.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fronteirices.blogspot.com/feeds/4718572158033126963/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2012/01/de-paetes-e-dragoes.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/4718572158033126963'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/4718572158033126963'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2012/01/de-paetes-e-dragoes.html' title='De paetês e dragões'/><author><name>Desbra Vando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02847300063164608569</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3979598438513650907.post-1396926084104653859</id><published>2011-12-27T19:39:00.000-08:00</published><updated>2011-12-27T19:41:19.107-08:00</updated><title type='text'>Descongelando</title><content type='html'>Está descongelando. Hoje, a poucos dias do final de 2011, o Fronteirices renasce. Foram 17 meses hibernando. Corrijo-me. Hibernando é palavra errada.  Segundo a Wikipedia &lt;span style="font-style:italic;"&gt;en español&lt;/span&gt;, “hibernar é um estado de hipotermia regulada, durante alguns dias, semanas ou meses, que permite aos animais conservar sua energia durante o inverno.” No meu caso, eu andei gastando muita energia num inverno pessoal longuíssimo de 17 meses onde meu mundo era um emaranhado incompreensível de decepções, descobertas, desilusões e belos momentos extraordinários. Entendo que não podemos contar com uma linearidade de bênçãos nas nossas vidas. Elas tem vontade própria, pernas longuíssimas que as vezes se cansam e por sua vez também hibernam, criando verdadeiros órfãos da esperança. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Permita-me justificar minha ausência deste cyberespaço. Vim para estas terras texanas cheia de vontade. Desejo de abraçar o mundo, explorar os meus limites, me reinventar. Durante os meses em Laredo o Fronteirices foi uma ferramenta valiosíssima de tradução das minhas descobertas e da manutenção da minha sanidade num momento de tantas transitoriedades. Ali estava eu me readaptando à vida em terras americanas, ali estava eu aprendendo a me casar e a conviver com todos os altos e baixos de um casamento. Tudo ao mesmo tempo agora, tudo sem bula exata, apenas as prescrições daquilo que se aprende da vida (linhas tortas cheias de incompletude). Mas quando minha vida pessoal realmente fugiu do meu controle, eu estacionei o carro numa esquina escura e saí perambulando atrás de respostas. Tive medo de me expor demais. Minha escrita é passional. Como negar a tempestade que havia transformado meu sangue em água fervente? O meu último post, &lt;a href="http://fronteirices.blogspot.com/2010/05/imensidao.html"&gt;“Imensidão,”&lt;/a&gt; já anunciava a areia movediça que só começava a subir pelas canelas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O bom do tempo é sua capacidade de colocar a vida em perspectiva. Passaram-se 17 meses (quase uma gestação de elefante!), e hoje já consigo agarrar os espaços azuis entre as densas nuvens.  Transito neste momento entre a fronteira do caos e do novo de novo. Este novo sendo eu após a tempestade.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3979598438513650907-1396926084104653859?l=fronteirices.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fronteirices.blogspot.com/feeds/1396926084104653859/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2011/12/descongelando.html#comment-form' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/1396926084104653859'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/1396926084104653859'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2011/12/descongelando.html' title='Descongelando'/><author><name>Desbra Vando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02847300063164608569</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3979598438513650907.post-4448678359771577397</id><published>2010-05-04T05:57:00.000-07:00</published><updated>2010-05-19T19:26:45.971-07:00</updated><title type='text'>Imensidão</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/S98kwiqmzkI/AAAAAAAAAvI/Z8xI7o6f-0A/s1600/SEA.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 236px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/S98kwiqmzkI/AAAAAAAAAvI/Z8xI7o6f-0A/s320/SEA.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5467128889008901698" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Precisava me perder. Precisava me entregar para horizontes distantes, desprender-me da verticalidade da vida (crescer, ambicionar, ter rumo, ter planos, ser alguém). Nem que fosse por apenas uma tarde de um domingo preguiçoso. Precisava de brisa de sal para lavar desilusões e curar suspiros suspeitos em esquinas escuras. Todos carregamos ao menos um par deles na garganta ou debaixo do couro grosso. Um grito de gaivotas me chamava. Começou pequeno, delicado e cresceu a ponto de rasgar meus tímpanos. Entrei no carro. Ah, a estrada. A estrada rumo ao mar, um mar tão perto de mim, um mar a apenas uma hora de mim e eu, querendo fincar os pés no cimento da cidade, ia me esquecendo da minha metade peixe. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A viagem fluiu com canções de andarilhos na voz de Elis. As curvas da estrada de Santos eram agora a reta de 60 milhas da trilha Houston-Galveston. &lt;br /&gt;Esperava uma Galveston feia e cinza, ainda semi-destruída com a passagem do furacão Ike há um ano e meio. Ninguém nunca me falou nada belo a respeito das suas praias. Temia ver a &lt;a href="http://www.inovacaotecnologica.com.br/noticias/noticia.php?artigo=derramamento-petroleo-golfo-mexico-visto-espaco&amp;id=020175100429"&gt;infame mancha de óleo que se alastra pelas águas do Golfo do México&lt;/a&gt;. Como representante da raça humana, morri de vergonha perante a natureza. Então, ao me deparar com uma Galveston reluzindo baixo um calor quase tropical; uma Galveston de brisa refrescante e mar agitado abrigando uma coleção de ondas curtas porém frenéticas que procriavam espumas brancas; uma Galveston fênix totalmente reconstruída, sem resquícios de vendavais ou furacões e sem manchas de óleo pelo menos até onde a vista alcançava; ao me ver frente a frente a um horizonte de águas turvas que ensaiava tímidos tons de verde e azul, eu agradeci a todos os comentários denigrentes sobre aquela pequena cidade litorânea da costa texana. Nada melhor que se deliciar com a realidade vista a olhos nus após experimentar o mantra dos superlativos negativos advindos das experiências alheias. A minha primeira experiência em Galveston foi assim, de choque. Um choque bom o suficiente para acender meus receptores de sorrisos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De cara eu não quis reparar nos detalhes. Quis olhar o todo, me perder no todo, enxergar a água e cada formação ondular até onde não se consegue mais distinguir o horizonte do céu. Quis ver de longe, observar do alto como um satélite-espião, mas eu não conseguia ser tão soviética e me entregava à minha humanidade comendo bolinhos de carangueijo e tomando um chardonnay do outro lado da rua. Sobre meu crânio reinavam as esculturas do camarão-monstro e do carangueijo-monstro de três metros. Como gostam de Disneylândias estes americanos. Eu, tomada por apetites, degustava e contemplava. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca consegui meditar no sentido clássico de meditação, de fechar os olhos ou fazer ommmmm. Sempre tive medo. Medo de perder o controle. Medo de me deixar levar e nunca mais voltar. Eu que sempre quis me descontrolar e por vezes até quase cheguei a me permitir. Na maioria das vezes, porém, até mesmo os quase-descontroles foram calculados, salvo um punhado ou dois de passionalidade em situações extremas. Lembro de ter lido algo sobre "meditação contemplativa" e agora, olhando para trás, creio que aquele exercício de simplesmente observar as ondas e a praia se enquadra nesta categoria. De olhos abertos e observando a realidade que se debruçava pertante minha vista, minha pele, meus ouvidos, meus sentidos, não consegui pensar em nada a não ser no vaivém da espuma, no cheiro de maresia, na interação de homem, mulher e criança com água, pássaros e pedras. Minha mente estava focada somente naquele instante. Não havia nem antes nem depois, nem ápices de alegria ou de ira. Somente o agora e sua exatitude. Havia uma sensação de purificação naquela simplicidade. Não buscava respostas para nada, não vislumbrava mensagens em garrafas ou nenhuma forma de apoderamento divino. Cada inspirada de ar fresco e eu trazia um pouco daquela natureza para dentro de mim. Cada expirada, um pequeno ritual de exorcismo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caminhei. Passei a observar os detalhes. As conchinhas esmagadas na areia escura, o muro da orla com grafitis de peixes e baleias, a água quebrando nas pedras, o pescador tatuado arrumando a vara de pescar, o surfista parafinando a prancha, o casal de mãos dadas nas suas cadeirinhas de naylon. Tirei as sandálias, caminhei até o mar. A areia era dura e a água mais fria que o esperado naquele dia de sol forte e amarelo. Me arrependi de não ter levado o biquíni. Em outras épocas eu teria me jogado na água de roupa e tudo (para determinadas situações os anos adicionam um certo enfrescalhamento na tomada de decisões). O ritual de lava-pés não substituiu um banho completo de sal grosso, mas já ajudava a diluir o cimento que a cidade tem depositado na minha sola. Não deu para criar escamas, mas enquanto a semana se desenrola, sinto uma pontada de barbatanas começando a coçar na coluna lombar. É preciso voltar ao mar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3979598438513650907-4448678359771577397?l=fronteirices.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fronteirices.blogspot.com/feeds/4448678359771577397/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2010/05/imensidao.html#comment-form' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/4448678359771577397'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/4448678359771577397'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2010/05/imensidao.html' title='Imensidão'/><author><name>Desbra Vando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02847300063164608569</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/S98kwiqmzkI/AAAAAAAAAvI/Z8xI7o6f-0A/s72-c/SEA.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3979598438513650907.post-5314733403943733227</id><published>2010-04-30T14:18:00.000-07:00</published><updated>2010-04-30T14:23:44.204-07:00</updated><title type='text'>A debutante e a noiva</title><content type='html'>Há um conjunto de três fontes no bairro de Montrose em Houston que me faz lembrar um trio de pudim, manjar e quindin. Água que flui com uma leve lembrança visual e degustativa de recordações infantis. Fazia um friozinho de arrepiar os pêlos do antebraço naquele final de tarde de março, mas as moças que visitavam as fontes para eternizar momentos em incontáveis fotografias digitais faziam questão de deixar os ombros desnudos apesar da opulência dos seus vestidos-fantasia. Ombros delicados, como delicados são os ritos de passagem. Num lado da rua, uma debutante &lt;em&gt;quinceañera&lt;/em&gt;. Do outro, uma noiva. Ambas em seu dia de glória, ambas inundadas em fontes e sonhos e suspiros. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A debutante de vestido azul-quase-neon era o retrato fiel de uma princesa Disney em versão latina. Um vestido de gosto duvidoso para padrões alta-costura, mas que lhe caía bem. A menina que cresceu com Internet, celular e acesso a tantos estilos mas que ainda preferia tradição. Eram tantos os arames das suas anquinhas que ela mal conseguia se sentar sobre a grama do parque. Eram tantos os falso-brilhantes do seu vestido que eles desputavam a atenção dos transeuntes com a luz dourada daquele final de tarde. Mas a &lt;em&gt;quinceañera &lt;/em&gt;era de fato encantadora, feminina, delicada nos gestos e reinava confortável no seu lado da rua entre os flashes fotográficos e os olhares que recebia. Sabia sorrir para a câmera em posada naturalidade. Duas mulheres a acompanhavam o tempo inteiro enquanto cobriam-lhe de fotografias. Uma delas, possivelmente sua mãe, sua versão caseira de fada-madrinha.  Seu príncipe, se é que ele existia, cavalgava em outros reinos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A poucos metros a noiva levantava o vestido branco e exibia as suas também muito brancas pernas até o joelho. A longa cauda do traje arrastava a réstia de luz do pôr-do-sol e as lembranças da cerimônia de seu casamento que deveria ter ocorrido aquela tarde. Já não havia mais buquê em suas mãos – àquela altura, ele já pertencia a outra dona que ainda aguardava seu rito de passagem. Agora era chegada a hora de se entregar para a brisa levemente gelada, de manchar o vestido de terra, de descalçar os sapatos vermelhos e enfiar o pé na grama macia. Era hora de se deixar abraçar pelo seu homem que a rodopiava pelos ares enquanto os flashes do fotógrafo contratado eternizavam cada segundo de movimento e os carros que faziam o contorno das fontes-pudim buzinavam em celebração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eram duas moças-borboletas batendo suas asas na tarde de sábado. A vida é repleta de momentos-casulo. Uma menininha que virou mocinha. Uma mocinha que virou mulher. O que a vida lhes ensinou sobre a condição feminina era impossível de ser desvendado. Sabe-se apenas que elas oficializavam seu novo status junto a suas famílias, seus amigos e sua comunidade. Velhos hábitos ficaram para trás. Uma delas possivelmente já assinava um novo nome. Era a hora de novos rituais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Houve um momento de encontro. Caminhando em direções opostas, a &lt;em&gt;quinceañera &lt;/em&gt;e a noiva cruzaram-se. Prestaram atenção numa mulher que tomava nota daquele momento em seu Moleskine e num mendigo de jaqueta de couro e adereços punk que se deixava notar. Entreolharam-se, sorriram e parabenizaram-se em pouco menos de três segundos. Cada uma seguiu para seu reino, soberanas princesas texanas de uma babilônica cidade.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3979598438513650907-5314733403943733227?l=fronteirices.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fronteirices.blogspot.com/feeds/5314733403943733227/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2010/04/debutante-e-noiva.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/5314733403943733227'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/5314733403943733227'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2010/04/debutante-e-noiva.html' title='A debutante e a noiva'/><author><name>Desbra Vando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02847300063164608569</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3979598438513650907.post-3822495090470495122</id><published>2010-04-01T19:47:00.001-07:00</published><updated>2010-04-11T12:42:53.268-07:00</updated><title type='text'>Aportando em Houston</title><content type='html'>Cheguei em Houston numa sexta-feira de um inverno frio e úmido. Dirigia um carro com uma gata em pânico que havia se cagado por inteira na gaiolinha no banco dianteiro, uma cachorrinha surpreendentemente comportada no banco traseiro, um porta-malas cheio de mudanças e um arrepio na boca do estômago inerente a quem está adentrando mais uma etapa de vida. Num intervalo de menos de um ano começava-se mais um capítulo de tudo novo novamente. Já deveria estar acostumada e tranquila, marinheira de longas estradas, mas há sempre um misto de animação, ansiedade, euforia e pânico nas beiradas do incerto. Na minha frente, meu marido pilotava o caminhão da mudança. Tudo &lt;em&gt;self-service&lt;/em&gt;, mordomia zero. Nossa vida cabia numa carreta de caminhão de 6m x 2m. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu finalmente deixava Laredo, bem mais cedo que o plano original do casal de ficar por lá por pelo menos dois anos. Durante meses minha cabeça foi uma placa de trânsito apontando para Houston, aquela metrópole tão distante dos estereótipos texanos que havia me surpreendido nas duas únicas vezes em que a havia visitado. Mas agora, justo agora, obviamente agora que Laredo ficava para trás, era o momento das humanas contradições. Eu sentia a pontada doce-azeda da saudade. Saudades dos amigos, da mexicanidade, da vida bilíngue, do tempero de taco em cada esquina, da sua feiúra, do seu papel grandioso em minha vida. Laredo que foi meu tempo de vida limbo, das "energias de renovação", termo que tenho lido com frequência em e-mails de amigos. Só agora, à distância, é que me dou conta dos elementos contidos em seu nome. Nunca consegui sentir o LAR em LARedo, mas ela se fez inesquecível e marcante. Laredo que carrega três notas musicais em sua composição. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;xxxxxxxxxxxxx&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Achei que fosse desmaiar ao me ver dirigindo em pleno engarrafamento colossal de sexta-feira na hora do &lt;em&gt;rush &lt;/em&gt;do intrincado sistema de rodovias que cruzam a cidade. Ao passar em frente ao centro, com o carro preso no meio de uma &lt;em&gt;highway &lt;/em&gt;de seis pistas, senti a cabeça ficar leve. Leve como quem vai desmaiar. Uma futurística &lt;em&gt;downtown &lt;/em&gt;Houston se abria perante meus olhos: prédios gigantes, Robocops espelhados prontos para me devorarem, um céu com cores de dilúvio. Eu quase conseguia escutar o &lt;a href="http://letras.terra.com.br/dominguinhos/45558/"&gt;Lamento Sertanejo, de Dominguinhos,&lt;/a&gt; em versão &lt;em&gt;hillbilly rock&lt;/em&gt;. Tive que encarnar meu alter-ego que tiro da manga em momentos de apavoramento gerenciáveis, como turbulências em avião ou grandes multidões. Já não estava mais acostumada àquela loucura metropolitana. A última vez que dirigi num trânsito louco foi no Rio de Janeiro há quase oito anos. Minha existência naquela cidade foi sempre marcada pelo transporte público. Em Laredo as distâncias eram curtas e o trânsito era "palpável". Em Houston eu temi jamais me acostumar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegamos no apartamento escolhido no único final de semana que tivemos para procurar casa. Apesar de ter morado em apartamento nos últimos 12 anos, voltar a morar em casa foi facinho facinho. Mas a vida inicial em Houston implicaria em mudanças. Não se pode ter tudo. Então adeus privacidade, espaço, jardim e quintal. O prédio é simpático, mas parece um dormitório de universidade. Mas eu agora moro num &lt;em&gt;loft&lt;/em&gt; de pé direito alto, chão de cimento batido, cozinha integrada ao resto da casa, janelão, parede da sala sem acabamento, canos e pipas de ventilação aparentes pelo teto. Um &lt;em&gt;loft &lt;/em&gt; pequeno e charmoso, mas convenhamos, de mentirinha. Porque na verdade não é um &lt;em&gt;loft loft&lt;/em&gt;, e sim um apartamento &lt;em&gt;em estilo&lt;/em&gt; &lt;em&gt;loft&lt;/em&gt;, habitado por médicos, estudantes, eu, meu marido e um exército de cachorros, todos sedentos por consumir a atmosfera loftiniana que nos faz sentir tão urbanos e modernos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobre a bancada da cozinha havia uma caixa com tulipas coloridas que eu havia encomendado para o aniversário de W., que completava 39 anos naquele exato dia. Brindamos com vinho turco e &lt;em&gt;kebabs &lt;/em&gt;num aconchegante restaurante de mesma nacionalidade encontrado por acaso a duas milhas de casa. Ao lado dele, um bistrôzinho francês. Do outro lado da rua, o estádio da Rice University. Eu já estava apaixonada por aquela Babilônia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;xxxxxxxxxxxxx&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já passaram-se dois meses e neste intervalo tantas histórias. Ainda estou em estado de enamoramento com a cidade, mas prossigo sem entender sua alma. Houston continua sendo um mistério para mim. Há cidades que não se deixam descobrir com tanta facilidade. Outras, como o Rio de Janeiro ou mesmo Austin, aqui no Texas, são escancaradas. "Eu sou assim" e o "assim" é tão fácil de identificar.  Houston é um caldeirão de culturas, idiomas, raças, etnias e temperos. Ainda não conheci nenhum Houstoniano e talvez por isto esta dificuldade em decifrar meus arredores. Tudo ainda é muito estrangeiro, literalmente. Houston exala uma certa frieza, mas há algo nela que me acolhe. É asfalto e é verde. Muita grama, árvores, flores, fontes e parques. É verdade também que ainda não parei para entrar a fundo em suas esquinas, nos seus recantos escondidos atrás das atrações turísticas. Não tenho sentido pressa. Mas gosto das descobertas feitas aos poucos: das esculturas escondidas no Hermann Park; do restaurante paquistanês para onde costumo fugir na hora do almoço e ser confundida com indiana ou paquistanesa; das 19 tartarugas tomando banho de sol no laguinho do campo de golfe do outro lado da rua onde moro; do taxista senegalês que já ficou nosso amigo; do café Bósnio simplérrimo e delicioso que lota ao meio-dia de sábado; do bar louge-chic do Hotel Sorella; da hospitalidade do meu primo e sua esposa que nos receberam tão bem desde sempre. Meu marido também descobriu uma prima que não via há mais de 20 anos. Bom ter família por perto. Bom ainda não conhecer tudo. Bom me sentir já tão à vontade dirigindo sozinha nas suas &lt;em&gt;highways &lt;/em&gt;e avenidas de tráfego volumoso. Não há qualquer resquício de pânico.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3979598438513650907-3822495090470495122?l=fronteirices.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fronteirices.blogspot.com/feeds/3822495090470495122/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2010/04/aportando-em-houston.html#comment-form' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/3822495090470495122'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/3822495090470495122'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2010/04/aportando-em-houston.html' title='Aportando em Houston'/><author><name>Desbra Vando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02847300063164608569</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3979598438513650907.post-8767482829759206215</id><published>2010-03-21T08:02:00.001-07:00</published><updated>2010-04-01T19:44:57.810-07:00</updated><title type='text'>Novas fronteiras</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/S6Y-7lHfrAI/AAAAAAAAAu4/wH5qbaGjPk0/s1600-h/SUNRISE+SPRING+DAY.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 240px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/S6Y-7lHfrAI/AAAAAAAAAu4/wH5qbaGjPk0/s320/SUNRISE+SPRING+DAY.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5451113592275315714" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/S6Y-8Op1mfI/AAAAAAAAAvA/Wyh7FOsFqMI/s1600-h/SPRING+AT+THE+LOFTS.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 240px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/S6Y-8Op1mfI/AAAAAAAAAvA/Wyh7FOsFqMI/s320/SPRING+AT+THE+LOFTS.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5451113603425212914" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Raiar da primavera do meu apartamento em Houston&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É primavera + 1. Do dia para a noite as flores voltam a resplandecer suas cores na frente do meu prédio. A grama verde reluz orvalhos. O sol invade sem medo a janela da minha sala no 7o andar. As cachorrinhas sangram e se encarcam. A gata se contorce e geme sobre os móveis. A natureza em cio. Um dia após o início da primavera e meus dedos e minha mente e meu espírito e minha fala começam novamente a florir. Foi um inverno de algumas hibernações e outros tantos desbravamentos. Em dois meses de silêncio nestas Fronteirices eletrônicas, habitei uma nova cidade, adentrei uma nova casa, retornei ao mundo corporativo, vi os desbalanços que grandes mudanças podem trazer a um casamento e os desafios hercúleos para deixar a harmonia predominar. Nada que um nascer do sol vermelho e incandescente do tamanho do Texas no primeiro dia de primavera, acompanhado de uma chuva e vento gélido que em minutos levaram embora o hálito quente daquela fronteira entre escuridão e luz, não servissem de metáfora absoluta para esta vida yin yang. É exatamente por isto que, neste capítulo Houston da minha vida, decidi manter o título Fronteirices deste diário virtual. Fronteiras são e vão muito além que um mero marco geográfico. Vivemos entre o deixar de ser o que éramos ontem para ser o que somos hoje carregando sempre o que já fomos. Há sempre um desafio, um obstáculo, um rio ou um oceano para cruzar, nadar e nos afogar de vez em quando. A possibilidade de resgate é 50/50.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3979598438513650907-8767482829759206215?l=fronteirices.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fronteirices.blogspot.com/feeds/8767482829759206215/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2010/03/novas-fronteiras.html#comment-form' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/8767482829759206215'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/8767482829759206215'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2010/03/novas-fronteiras.html' title='Novas fronteiras'/><author><name>Desbra Vando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02847300063164608569</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/S6Y-7lHfrAI/AAAAAAAAAu4/wH5qbaGjPk0/s72-c/SUNRISE+SPRING+DAY.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3979598438513650907.post-8202636908249930426</id><published>2010-01-24T21:49:00.000-08:00</published><updated>2010-01-24T23:22:23.267-08:00</updated><title type='text'>Saudade</title><content type='html'>Chega sem aviso. Não há alarme ressonando alto, não há placa no meio da estrada, não tem e-mail na caixa de entrada, nem carta selada no correio indicando sua vinda. Uma hora você está em paz, coloca aqueles sambas antigos na voz de Clara Nunes, "é água no mar/ é maré cheia ooooh", "morena de angola que leva o chocalho amarrado na canela", aí, de repente, peim. Está empossada. Possuída. Incubada. Vai percorrendo o sangue, apertando a carne, fazendo arder os olhos até enturvar a vista e o mundo ficar líquido. Sai uma, saem duas, saem três lágrimas grossas mas ainda dá pra cantar um "ninguém ouviu/um soluçar de dor/no canto do Brasil". Ferrou. A voz afina. A garganta é quase um túnel sem saída. A entoada é um soluçar de saudades num canto do Texas. Um choro em falsete. O coração cavado com colher (é possível sentir o músculo atrofiar). A mente momentaneamente (momentânea mente) conectada com o passado, com o bom do passado, aquelas rodas de samba, aquele Clube dos Democráticos, aquela Lapa carioca de tantas sensações. Não há tristeza, não há melancolia. Apenas saudade de algo que não volta mais e juro pelo São José enterrado de cabeça pra baixo no jardim na minha casa que eu não trocaria um dia desta vida nova por uma noite de samba com o meu mais fino suor derramando liras de Cartola. Foi-se o tempo, agora são novas trilhas sonoras, é preciso sempre viver novas canções, mas deixa eu aumentar o volume deste samba porque meu pranto é alto e eu quero este choro só para mim esta noite, para mim, para Clara e para Chico. E confesso que também para...bem, para Amelinha, meu segredo que só Cecília sabia e ela jurou que não contaria para ninguém nem sob tortura, mas &lt;a href="http://letras.terra.com.br/amelinha/128259/"&gt;Amelinha cantando Gemedeira&lt;/a&gt; é bonito demais da conta, "ai, ai, ai, é bom que dói, ui, ui, ui, chega a sangrar". E assim eu me entrego, valha-me Deus, tenho que ensinar meu gringo a dançar forró, a dançar &lt;em&gt;for all&lt;/em&gt;. A dançar &lt;em&gt;for me&lt;/em&gt;. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PS: Lágrimas são banhos de descarrego. Meu corpo é agora mais leve que o ar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3979598438513650907-8202636908249930426?l=fronteirices.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fronteirices.blogspot.com/feeds/8202636908249930426/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2010/01/saudade.html#comment-form' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/8202636908249930426'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/8202636908249930426'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2010/01/saudade.html' title='Saudade'/><author><name>Desbra Vando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02847300063164608569</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3979598438513650907.post-171596635323310102</id><published>2010-01-19T11:35:00.000-08:00</published><updated>2010-01-20T17:24:42.366-08:00</updated><title type='text'>Notas sobre o México</title><content type='html'>Desde quando visitei o país pela primeira vez em 1998, em Ciudad Juarez, fronteira com El Paso no lado texano-americano, o México exerceu um fascínio anormal sobre mim. Desde então estive duas vezes na Cidade do México e mais recentemente duas vezes em Nuevo Laredo, na fronteira mais ao sul. Caí de quatro por sua riqueza cultural, sua culinária original e curiosa, sua ancestralidade azteca, seu caos sem ordem, suas cores abertas, sua religiosidade latina, sua música mestiça, seu povo ao mesmo tempo encantador, submisso, explorado e bravo. O México é um país que sangra e não falo da violência que lhe toma almas diariamente na guerra do narcotráfico ou na pobreza das suas sarjetas. Sangra no sentido de levar alimento para meus órgãos, meus músculos, meus olhos, meu tato, meu paladar e meu cérebro, saciando minha fome vampiresca por cultura estrangeira. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje, a menos de suas semanas de me distanciar fisicamente desta fronteira geográfica, edito aqui o relato que fiz para amigos e familiares quando visitei Nuevo Laredo pela primeira em 13 de maio de 2009:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/S1YxZWwxTyI/AAAAAAAAAuE/Al_pVCmCexk/s1600-h/Imagem+064.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 240px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/S1YxZWwxTyI/AAAAAAAAAuE/Al_pVCmCexk/s320/Imagem+064.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5428580712518340386" /&gt;&lt;/a&gt; Na quarta-feira cruzamos a fronteira para Nuevo Laredo. Por pouco não fui, pois de uns três anos pra cá brasileiros precisam tirar visto para entrar no México, devido à quantidade de brasileiros ilegais que entram nos Estados Unidos via o país latino. W. tem amigos no consulado mexicano, então pela manhã paramos por lá para checar os pormenores da minha documentação. O cara do consulado me perguntou o que eu queria fazer no México. Expliquei que queria comprar tequila e ele achou aquilo engraçadíssimo. Então esclareceu que eu poderia cruzar a fronteira sem problemas, só não poderia sair dos limites da cidade. Aproximadamente a partir do marco 26km ao sul de Nuevo Laredo há um &lt;em&gt;checkpoint &lt;/em&gt;de imigração e o visto a partir dali torna-se obrigatório. Assim, no final da tarde, após ter parado num bar bem furreco em Laredo para tomar um trago gelado de Don Julio (uma excelente tequila para os não familiarizados), cruzamos o Rio Grande através da Ponte Internacional número 1. São duas as pontes que fazem a travessia Laredo-Nuevo Laredo. Preferimos ir a pé, para evitar o trânsito denso da ponte no nosso retorno. Um frio na minha barriga por voltar a pisar em solo sagrado. &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Descobri que a melhor coisa de Laredo é Nuevo Laredo. O México sempre teve este poder alucinante sobre a minha pessoa. Me sinto viva, numa sensação de embriaguez que é muito maior do que a tequila que sempre me acompanha nas minhas idas pra lá. As pessoas daqui morrem de medo de cruzar a ponte, pois houve um aumento muito grande de violência na fronteira por conta dos cartéis do narcotráfico. Coisas tipo tacar fogo nos inimigos, sequestros, cortar cabecas e outras gentilezas. Devem ter aprendido com os &lt;em&gt;hermanos &lt;/em&gt;cariocas. Logo que cruzamos a ponte, havia um tanque do exército mexicano cercado por soldados. Depois de oito anos de Rio de Janeiro, já tenho um PhD em violência urbana, então eu estava tranquila. &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Quem nos acompanhou aquele tarde foi Tom, um grande amigo de W., um senhor de sessenta e tantos anos, cara de Papai Noel, lobista político, ex-executivo de empresas texanas de gás e petróleo que ja morou na Bolívia e no Peru, democrata liberal que trabalhou com W. na campanha presidencial de Obama, figuraça que nos anos 60 foi &lt;em&gt;host &lt;/em&gt; por mais de uma vez de ninguém menos que Jorge Luis Borges quando ele visitou a Universidade do Texas em Austin. Descobri que o Texas inspirou Borges, levando-o inclusive a escrever um belo poema:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Texas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquí también. Aquí como en el otro&lt;br /&gt;Confín del continente, el infinito&lt;br /&gt;Campo en que muere solitario el grito;&lt;br /&gt;Aquí también el indio, el lazo, el potro.&lt;br /&gt;Aquí también el pájaro secreto&lt;br /&gt;Que sobre los fragores de la historia&lt;br /&gt;Canta para una tarde y su memoria;&lt;br /&gt;Aquí también el místico alfabeto&lt;br /&gt;De los astros, que hoy dictan a mi cálamo&lt;br /&gt;Nombres que el incesante laberinto&lt;br /&gt;De los días no arrastra: San Jacinto&lt;br /&gt;Y esas otras Termópilas, el Álamo.&lt;br /&gt;Aquí también esa desconocida&lt;br /&gt;Y anciana y breve cosa que es la vida. &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/S1YzpITSzlI/AAAAAAAAAus/0M26EEYlR7Q/s1600-h/Imagem+077.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 240px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/S1YzpITSzlI/AAAAAAAAAus/0M26EEYlR7Q/s320/Imagem+077.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5428583182537772626" /&gt;&lt;/a&gt; A primeira vista de Nuevo Laredo traz ruas apertadas, barraquinhas de comida por todos os lados, cabritos assados enfiados num pau na vitrine de um restaurante, lojas com letreiros pintados à mão com caligrafia bem amadora. Fiquei sabendo depois que homens falando baixinho ofereceram algumas ilegalidades a Tom e W.: Viagra, cocaína, marijuana. &lt;em&gt;No, gracias.&lt;/em&gt; Circulamos rapidamente por algumas lojas do mercado de dois andares a poucas quadras da ponte à procura de vestidos mexicanos. Muitas cores, bordados, máscaras de luta livre, &lt;em&gt;piñatas&lt;/em&gt;, crianças vendendo doces, pedintes...nossa América Latina em seu normal estado mas com cheiro forte de pimenta &lt;em&gt;jalapeño&lt;/em&gt;. Paramos em vários bares bem &lt;em&gt;hole in the wall&lt;/em&gt; (tradução literal: buraco na parede, ou em bom português, boteco fuleiro). Imediatamente cantores vinham atrás de nós, cobrando nada menos que cinco dólares por canção. Que iTunes que nada: a indústria musical deveria seguir o exemplo do México para fazer dinheiro! Mas eu quis nos dar aquele pequeno luxo e paguei um senhor de cara afilada para tocar "Las Golondrinas" no seu violino. Era lindo e ao mesmo tempo triste. Tentei me concentrar apenas na arte deste senhor, mas a verdade é que a sua cara de pobreza me desconcertava.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/S1YyBMBvMzI/AAAAAAAAAuU/Zt-s6xTrfkc/s1600-h/Imagem+071.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 240px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/S1YyBMBvMzI/AAAAAAAAAuU/Zt-s6xTrfkc/s320/Imagem+071.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5428581396831482674" /&gt;&lt;/a&gt;Um dos bares que paramos foi o Santa Helena, que não tem placa com nome do lado de fora por proibição da prefeitura e para desgosto do gerente do bar. Está cravado ali no centro de Nuevo Laredo há mais de 100 anos. Não chega a ser um botequim de quinta. Super escuro por dentro, com paredes repletas de garrafas de bebidas e retratos de Zapata, de uma loira gostosona estilo Baywatch, uma Maja e Los Tres Reyes, "&lt;em&gt;los mejores cantantes de México&lt;/em&gt;", segundo o gerente do bar. Nas mesas, bigodudos mal encarados que não esboçavam sorriso algum. Pouquíssimas mulheres, apenas eu e mais duas. Os olhares voltados para nós, os únicos gringos, degustando as cervejas locais Tecate, Indio, Negra Modelo. Não sou cervejeira, mas como são deliciosas as cervejas mexicanas. &lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/S1YyWjjz4wI/AAAAAAAAAuc/9k72MMUMSVo/s1600-h/Imagem+078.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 240px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/S1YyWjjz4wI/AAAAAAAAAuc/9k72MMUMSVo/s320/Imagem+078.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5428581763925664514" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/S1Yyq6-rhzI/AAAAAAAAAuk/55Hv1VxgWgc/s1600-h/Imagem+079.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 240px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/S1Yyq6-rhzI/AAAAAAAAAuk/55Hv1VxgWgc/s320/Imagem+079.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5428582113809762098" /&gt;&lt;/a&gt; Nos fundos do bar, ao lado do banheiro mínimo, um altar com várias oferendas de pão, maçã e tequila para la &lt;em&gt;Santa Muerte&lt;/em&gt;. Descobri depois que ela -- sim, a própria Morte com cara de caveira e cajado --é a padroeira dos narcotraficantes. Tom não me recomendou tirar fotos ali, mas W. explicou que eu era brasileira e imediatamente um rapaz novinho me acompanhou para tirar fotos da oferenda. O gerente do bar, quando soube que eu era brasileira, acionou a radiola de ficha que começou a tocar Roberto Carlos em espanhol "Amada amante/amada amante". E a vida pulsando, exatamente como deve ser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este mês de janeiro de 2010, logo após receber minha permissão para sair do país, fiz minha segunda incursão a Nuevo Laredo. Era um sábado frio de sair fumacinha da boca, diferentemente daquela primavera de derreter miolos de oito meses atrás. Cruzar a ponte era excitante, mas eu sentia o desconforto do medo. É uma coceira na boca do estômago. Eu já havia comido do fruto proibido, assistido ao noticiário local e nacional que intimida qualquer pessoa a querer passar para o outro lado. Nuevo Laredo é retratada como um sanguinolento palco de guerra onde sua vida pode ir embora na primeira esquina. Desta vez éramos apenas eu e W. e estávamos de carro. Eu consigo me mesclar bem com a população local, mas W., com sua pela muito branca, seu cabelo loiro e seus olhos verdes é o gringo no seu mais comum estereótipo. Eu amava estar novamente em solo mexicano, mas uma eu medrosa queria que as horas passassem rapidamente para que eu já estivesse de volta na "segurança" da minha casa texana. Eu queria ser um pouco mais ignorante naquela ocasião. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltamos ao mercado. Nada de calefação nas lojas. Minhas mãos e pés congelavam. Compramos alguns vestidos e objetos de decoração: uns lustres em forma de estrela e lindos bichinhos de madeira de Oaxaca para o apartamento novo. Paguei 30 centavos de dólar para fazer xixi. Um senhor fazia montinhos de papel higiênico e recolhia o dinheiro. O banheiro era limpinho. Na América Latina é possível fazer dinheiro com o gerenciamento de banheiros. Minha mente sob o efeito do medo imaginava que um tiroteio começaria naquele mercado a qualquer minuto, eu e W. nos escondendo atrás dos vestidos, pânico generalizado. Mas não havia vestígios de nada daquilo. Apenas uma calma reinante, vendedores cordiais, nem mesmo um pedinte sequer. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas ruas as barraquinhas de mariscos anunciavam sopa de polvo. Já fui mais corajosa: dispensei. W. me levou para almoçar no El Rincón de Veracruz, um restaurante pequenininho e super simples mais para dentro da cidade. Como lembrava Juazeiro da Bahia aquela Nuevo Laredo de ruas apertadas. A comida do Rincón era deliciosa. Pedi umas &lt;em&gt;tortillas &lt;/em&gt;de milho macias cobertas com creme de feijão, linguiça defumada picadinha e queijo fresco. E claro, um creme de pimenta verde por cima para esquentar o corpo naquele dia frio. Sou devota do gosto confortante das &lt;em&gt;tortillas &lt;/em&gt;de milho. W. estava inseguro em deixar o carro longe da nossa vista. Eu também. Mas dentro do restaurante só chegavam famílias e crianças. De perturbadas ali, apenas as nossas mentes americanizadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aguardamos mais de uma hora na fila da ponte para entrar no Texas. Ao meu lado, uma gigantesca bandeira mexicana flemulava com sua águia segurando uma serpente pelo bico. Espero ter esta destreza para enfrentar minhas paranóias e pensamentos peçonhentos. Não sei quando retornarei àquele país, mas tomara que não tarde. Há sempre um fôlego renovado que emerge daquela terra que tempera meu juízo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3979598438513650907-171596635323310102?l=fronteirices.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fronteirices.blogspot.com/feeds/171596635323310102/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2010/01/notas-sobre-o-mexico.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/171596635323310102'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/171596635323310102'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2010/01/notas-sobre-o-mexico.html' title='Notas sobre o México'/><author><name>Desbra Vando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02847300063164608569</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/S1YxZWwxTyI/AAAAAAAAAuE/Al_pVCmCexk/s72-c/Imagem+064.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3979598438513650907.post-5990297107948041792</id><published>2010-01-16T07:18:00.000-08:00</published><updated>2010-01-16T12:47:50.233-08:00</updated><title type='text'>Garage sale</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/S1H2EDbeFXI/AAAAAAAAAt8/SyekxFi_Nbw/s1600-h/laredo+out+nov+09+007.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 240px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/S1H2EDbeFXI/AAAAAAAAAt8/SyekxFi_Nbw/s320/laredo+out+nov+09+007.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5427389575458592114" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Neste instante minha casa é um mercado de pulgas em final de feira. A escuridão ainda esconde a alvorada mas chegam dezenas de compradores para levar aquilo que já foi útil ou apreciado um dia. Tenho virado expert em bazares, ou &lt;em&gt;garage sales&lt;/em&gt; como são conhecidos por estas bandas. Algum sangue de comerciante turco deve correr nas minhas veias. Alguma cigana negociadora fugindo da inquisição em séculos distantes. O passado do meu marido indo embora a 70% de desconto. Seus quadros comprados na lua-de-mel com a primeira esposa. A faca que cortou o bolo do seu primeiro casamento hoje valeu 25 centavos de dólar. Mesa e cadeiras que servirão outras refeições, panelas que cozinharão outros temperos. A sala de jantar agora emana eco. A casa esvaziada. Um regozijo misturado com culpa dentro do meu coração e da minha carteira. Somos tão Madalenas nós mulheres. Mini-infartos em meu peito mais por ver seu passado indo parar em mãos alheias do que por ciúmes necessariamente. Me dou conta que ainda que meu marido tenha voluntariamente separado objetos para venda, a mesma não teria ocorrido não fosse por mim. Não fosse por nós. Não fosse pelos novos planos. Há sete meses também vendi meu passado em nome da nossa causa. Mas não adianta: frito ovos mexidos com linguiça defumada e lhe sirvo com voz doce sobre torradas como parte da minha sentença de réu culpada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando nos casamos e me mudei para sua casa me perguntava se um dia conseguiria me livrar dos objetos que eu não gostava. Quase todos. Minha mãe, do alto da sabedoria das suas quatro décadas de casamento, me ensinava a ter cuidado. "Estas coisas são delicadas, minha filha." Porém me perturbavam os móveis antiquados com pés de leão, os arranjos de plantas artificiais, os quadros onde concordávamos apenas com o colorido das cores. Com os meses aprendi a ignorar os objetos que me doíam a vista. Percebi que a estratégia era não confrontar o gosto do meu marido. Aos poucos fui mostrando outros estilos, outros projetos. Sempre que havia uma chance eu fazia questão de entrar numa loja de móveis, mostrar outros conceitos de arte nas galerias que visitamos. Percebi que concordávamos em quase tudo e não em quase nada. Cabia apenas a mim conduzir a situação e trazer outros olhares. A chave era delicadeza. Cabia a mim saber ser mais esposa. A velha cigana negociadora abrindo fronteiras. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há três grupos de compradores nas &lt;em&gt;garage sales&lt;/em&gt;. Aqueles que têm condições de comprar coisas novas mas estão à procura de uma boa oferta, os que compram para revender e os que compram objetos de segunda-mão por total necessidade. Nesta cidade o segundo e terceiro grupo são maioria. Há profissionais de &lt;em&gt;garage sale&lt;/em&gt; que acordam às 4h da manhã atrás de objetos que podem depois ser revendidos no México por três vezes o preço da compra. E há aqueles em busca de migalhas que lhes garantam um mínimo de dignidade, como a menina de uns 12 anos e olhar desesperado que me perguntava se eu tinha algum resto de perfume para lhe vender. Por que não lembrei de lhe dar o resto daquela fragrância que raramente uso? Eu poderia ter lhe dado, menininha. De graça. Jamais lhe venderia um resto de glamour. Qualquer coisa para diminuir a inquietude das suas pupilas. Não entendo porque minha compaixão só apareceu quando você partiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aprendi a exercitar o desapego a objetos neste país, mais precisamente no ano 2000. Meu apartamento incendiou e perdi quase tudo. Entre as cinzas, com leves chamuscadas mas praticamente intactos, estavam as fotos e diários dos quatro anos anteriores que eu havia vivido aqui. Percebi que no fim das contas as memórias são tudo o que levamos da vida. E eu não queria perder as memórias exatamente da forma em que foram vivenciadas. O tempo nos modifica, mas retém as palavras. Palavras são imortais quando registradas e até mais reais que as fotografias. Por vezes não me reconheço em antigos cadernos redigidos a mão. Fotos, por outro lado, quase sempre carregam a superficialidade da nossa vaidade. Sorrimos mesmo quando a dor é dilacerante. Mas as fotografias não deixam de ser um mergulho no passado, uma lembrança de quem fomos, uma saudade de quem pretendíamos ser. Uma bola de cristal ao avesso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muito já foi falado sobre a alma dos objetos. Objetos que carregam a energia dos seus donos. Quando fiz um bazar para deixar o Brasil antes de me casar, algumas pessoas me confidenciaram que nunca compravam objetos de segunda-mão, mas que abririam exceção para os meus porque eu emanava energia positiva. Verdade. A felicidade em vendê-los era maior do que a dor de perdê-los. Algo muito especial estava em jogo na minha vida. Caso fosse por necessidade grave, como problemas financeiros ou de saúde, um pouco da minha dor iria junto na transação. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O dia raiou e o pouco que sobrou será doado. Um balde de silicone, um contador de moedas, uma guirlanda outonal, duas camisas surradas, um par de muletas. Já fechamos as portas, já contamos o apurado. Há o suficiente para pagar o caminhão da mudança. Os objetos já circulam por aí com seus novos donos, outros aguardam adoção. Há o projeto de um apartamento na cidade nova com decoração a quatro mãos. Há o prelúdio de uma casa que se parecerá mais com nós do que apenas com ele. Em breve chegará a nossa vez de varar a alvorada atrás de boas barganhas. Há um certo charme nesta busca quando integramos a categoria dos não-necessitados. Pago um bom preço por objetos com almas leves e passados passado a limpo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3979598438513650907-5990297107948041792?l=fronteirices.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fronteirices.blogspot.com/feeds/5990297107948041792/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2010/01/garage-sale.html#comment-form' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/5990297107948041792'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/5990297107948041792'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2010/01/garage-sale.html' title='Garage sale'/><author><name>Desbra Vando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02847300063164608569</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/S1H2EDbeFXI/AAAAAAAAAt8/SyekxFi_Nbw/s72-c/laredo+out+nov+09+007.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3979598438513650907.post-3284909287267187134</id><published>2010-01-06T09:08:00.000-08:00</published><updated>2010-01-07T07:27:58.467-08:00</updated><title type='text'>Tábula rasa</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/S0T4Q36ndBI/AAAAAAAAAt0/HNhkhDl9uwE/s1600-h/new+year+2010+houston+002.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 240px; height: 320px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/S0T4Q36ndBI/AAAAAAAAAt0/HNhkhDl9uwE/s320/new+year+2010+houston+002.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5423732820032320530" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;O ano novo chegou há uma semana, mas aquela sensação de poder recomeçar ainda persiste. Acredito que a palavra que mais expressa o significado de um novo ano é esperança. Esperamos colocar em prática os planos, esperamos não mais procrastinar, esperamos nos dar primeiras e segundas chances. Ainda que nada mude de fato -- apenas uma folhinha nova no calendário -- o que seria de nós sem a contagem do tempo, sem o tiquetaquear do relógio, sem a noção exata de que há 365 dias, às vezes 366? E se um ano tivesse 1000 dias, ou se o dia fosse a contagem de três sóis e três luas, postergaríamos menos os nossos planos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiz os meus para 2010, não sem antes examinar os que havia listado para 2009. Sim, listados em &lt;em&gt;bullet points&lt;/em&gt; no meu Moleskine e consultados ao longo dos meses do que ano que se foi. Pode parecer psicótico, mas ajuda a manter a mente em perspectiva. Mas atenção: faz-se extremamente necessário saber adaptar-se à realidade e às mudanças inesperadas que a vida nos traz. Na minha lista havia o plano de ganhar pelo menos R$ 1000 a mais de salário mensal e batalhar uma promoção para ser transferida para a Europa. Ainda arrasada com o final de um relacionamento super problemático, não havia nada sobre encontrar um cara legal. Até porque é o tipo da coisa que não se encontra em prateleira de supermercado, mas pelo menos dá para tentar fugir dos padrões passados que sempre acabam em encrenca. Já no primeiro semestre acabei reencontrando um grande amigo que eu não via há uma década, me apaixonando, aceitando me casar com ele e me mudando para os Estados Unidos onde fiquei sem emprego durante todo o segundo semestre aguardando a autorização para trabalhar. E só fiz gastar dinheiro (investir numa mudança de vida talvez seja a colocação mais exata para aliviar qualquer sinal de culpa). Também havia indicado que queria ficar 100% fluente em francês. Acabei vindo parar na fronteira com o México, onde desenferrujei o espanhol e acabei falando este idioma quase tanto quanto o inglês. Consegui fazer massagens semanalmente e ler um livro a cada dois meses somente enquanto morava no Brasil, não fui a sessões de Reiki, não comecei o roteiro de um argumento de filme que eu havia criado em 2008, nem assisti a todos os filmes clássicos que sempre quis assistir na vida mas sempre tive preguiça. Por outro lado, os planos listados no caderninho que se tornaram reais incluem ter voltado a fazer esporte no mínimo três vezes por semana, ter tomado classes de violão e me recuperado totalmente da cirurgia da coluna realizada em janeiro de 2008.  Desde o último outubro, após beber por três dias consecutivos um potente chá de sucupira com sementes contrabandeadas receitado por meu pai, me casar, deixar passar o embaralhamento de sensações quando se faz uma mudança radical de vida, entender porque eu ficava sempre tão ansiosa no trabalho e ter tempo para relaxar, não senti mais dor nenhuma. Até o meu pé direito, que ainda apresentava uma quase imperceptível paralisia, está curado. Em paralelo à construção da lista do ano que acabou de entrar, também fiz a lista dos agradecimentos ao ano que passou. É calmante, cicatrizante e confortante poder compreender as bênçãos que nos chegam e agradecer às forças além desta vida que nos protegem e encorajam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para 2010, diminuí bastante os objetivos, visando manter o foco e minimizar minha ansiedade. Reescrevi alguns planos não concretizados em 2009 e adicionei novos, como fazer voluntariado. Acredito que tenha listado metas alcancáveis, mas novamente aguardo as surpresas do caminho. É bem provável que "o inesperado faça uma surpresa" como diz a canção de velhos festivais. Mas sou daquelas que leu Paulo Coelho aos 16 anos e, por mais que hoje eu não tenha a menor paciência para abraçar sua obra, retive a mensagem &lt;em&gt;New Age&lt;/em&gt; (&lt;em&gt;New &lt;/em&gt;Piegas?) de que "quando você realmente quer algo, o universo conspira ao seu favor". &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O reveillon 2009/2010 foi o mais calmo dos últimos tempos. Este ano não teve banho de ervas de descarrego do pescoço pra baixo nem banho de ervas para abrir os caminhos. E olha que fui atrás: rodei Laredo por umas duas horas procurando uma &lt;em&gt;hierbaria&lt;/em&gt;, ou casa que vende ervas e artigos religiosos, e quando finalmente a encontrei não tive coragem de entrar. Era um barraco caindo aos pedaços numa área gueto da cidade. Liguei para o número indicado na placa e uma senhora falando em espanhol com voz de bruxa de cara verde e pinta na ponta do nariz atendeu. Amarelei. Então me dei conta que quando em Roma, faça como os romanos, ou adapte-se com o que tiver ao seu alcance. Não houve festão porque deu preguiça de sair de casa, mas houve a incorporação estilizada de alguns rituais: da sacada do apartamento dos meus primos em Houston, que estavam de férias no Brasil, eu e meu marido brindamos o ano usando roupões que encontramos no banheiro de hóspedes e quebraram o galho quanto ao quesito roupa branca. Eu até havia comprado uma calcinha verde para chamar dinheiro, mas a esqueci em Laredo. Usei uma calcinha multicolor não-virgem. Bateu um medinho, confesso; é difícil se libertar de algumas tradições. À meia-noite apenas nosso pé direito tocava o chão. O champanhe congelou e eu jamais faria idéia que espumante virava gelo. Medinho voltou. Ficamos no vinho tinto de rótulo &lt;em&gt;Mènage à Trois&lt;/em&gt;. Só rindo mesmo. Em vez do banquete, um prato de queijos, hummus e salame -- afinal, o porco fuça pra frente e não cisca pra trás, e este ano o slogan é "em frente e avante". Vi as últimas luzes do ano no hemisfério norte. Uma brisa fria soprava na cidade. Ao longe, fogos de artifício em alguma casa animada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amanheceu 2010 e o ano já começou cheio de recomeços: no dia 02 achamos um apartamento para alugar em Houston, para onde nos mudamos no final deste mês. Estilo &lt;em&gt;loft&lt;/em&gt;, charmoso, numa área gostosa da cidade. No dia 04 uma carta da Imigração indicava que já estou autorizada a entrar e sair do país (México, melhor preparar uma piscina de margaritas para me receber!). No natal eu já havia recebido um presentão da Imigração: um e-mail indicando que minha permissão para trabalhar foi autorizada e que eu deveria recebê-la até o final do mês. Ontem chegou a dita cuja, recepcionada por cinco minutos de puros berros de alegria e empolgação. Engraçado que logo em seguida a trilha sonora foi "lerê lerê, lererê lererê". A vida de dona de casa em tempo integral em breve acabará. Os currículos estão aos poucos sendo enviados. Uma outra etapa se inicia, seguida de um inerente frio na barriga. A vontade é de mudar completamente de carreira (e por que não recomeçar MESMO?), mas estou optando pelo caminho mais fácil, que é trabalhar na minha área. Os salários são descentes e neste momento dinheiro é meu plano de curto prazo: dinheiro para decorar a casa nova, comprar roupas, supérfluos necessários e viajar. Deixar o marido focar nos empréstimos dele adquiridos antes do nosso casamento para em até um ano podermos respirar tranquilamente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os planos estão na trilha certa, a vida está se ajeitando. Vez por outra bate uma insegurança, um receio de um inesperado de natureza negativa chegar e acabar com a festa. Mas xô, xô. Faço banhos mentais de descarrego. Tique-taque, tique-taque e já é Dia de Reis. As casas começam a retirar a decoração natalina. Qualquer vestígio de 2009 já ficou para trás. Em frente e avante.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3979598438513650907-3284909287267187134?l=fronteirices.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fronteirices.blogspot.com/feeds/3284909287267187134/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2010/01/tabula-rasa.html#comment-form' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/3284909287267187134'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/3284909287267187134'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2010/01/tabula-rasa.html' title='Tábula rasa'/><author><name>Desbra Vando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02847300063164608569</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/S0T4Q36ndBI/AAAAAAAAAt0/HNhkhDl9uwE/s72-c/new+year+2010+houston+002.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3979598438513650907.post-2079749806614241277</id><published>2009-12-24T07:00:00.001-08:00</published><updated>2009-12-24T08:03:01.739-08:00</updated><title type='text'>Natal</title><content type='html'>Então é véspera de Natal e os ventos mudaram a partir da meia-noite trazendo um friozinho de estalar a espinha. O meio-oeste é um tapete branco mas não há sinal de neve por aqui. Há um sol dourado, um céu muito azul e um vento que derruba cadeiras no quintal. Na fronteira os mexicanos preparam seus tamales, deliciosas iguarias à base de milho, semelhante a uma pequena pamonha salgada, para celebrar a &lt;em&gt;Noche Buena&lt;/em&gt;. Dona Amélia, minha diarista, me trouxe uma dúzia feitos por ela na mais autêntica tradição, com pimenta boa e brava. Os mais fincados no lado texano do Rio Grande celebram a data no dia 25. O trânsito durante a semana na divisa dos dois países esteve intenso, com a leva de mexicanos cruzando a ponte para festejar a data ao lado da família. Se existe recessão, a impressão que se tem é que ela acabou por aqui. Prateleiras estão vazias nas lojas e desde o final de novembro as filas estão enormes -- talvez porque os estabelecimentos tenham deixado de contratar trabalhadores temporários. Papai Noel fala espanhol e vende queijos com geléias no supermercado onde eu deixo para comprar tudo de última hora. Um presunto defumado para a noite de 24, um peru para o almoço do 25. O chutney de manga já está pronto desde a noite passada. A casa cheira a gengibre e especiarias. Gelatina colorida de sobremesa. Eu, a segunda geração, já incorporo as tradições da primeira. E crio novas, como um escondidinho de linguiça. Roberto Carlos não toca na TV, mas não sinto a menor falta. Os hinos natalinos ganham nova roupagem em forma de jazz, rock e R&amp;B no Starbucks local, onde bebo meu Caramel Brulé Latte no mais puro estilo &lt;em&gt;new yuppie&lt;/em&gt;. Me reúno com os amigos recentes para organizar uma grande festa para 80 pessoas na noite do 25 numa charmosa galeria de arte no centro da cidade. Escolhemos os panos para enfeitar o local. Seleciono as cores: verde, roxo e prata, uma intensidade de contrastes. Tento sentir o mesmo frio da barriga de anos atrás quando a data de hoje chegava, mas meu termômetro está em temperatura natural. Este ano não há árvore. A mudança iminente para a nova cidade pediu prudência nos gastos com decoração. Apenas uma meia vermelha e outra verde na janela da sala, aguardando um Papai Noel que que terá que entrar pelo buraco da coifa da cozinha na falta de uma chaminé. Será um natal de duas pessoas, um primeiro natal de casados, ao lado de uma gatinha e duas cachorrinhas. Um bebê e seria quase um presépio. Passo a semana tentando me lembrar porque é que celebramos o natal. O sentido religioso há muito tempo se foi, hoje é tudo comércio, mas também família. Ainda assim à noite vou ler em voz alta um trecho da Bíblia, voltar às origens, celebrar um hippie 2000 anos à frente do seu tempo que veio à Terra com uma mensagem de paz, só não ficou tão pop como Buda ou o Dalai Lama. Um pouco de incenso faria bem a este mundo. Assim como algumas doses cavalares de boa vontade. Mas celebremos. Feliz Noche Buena, Merry Christmas, Feliz Natal a todos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3979598438513650907-2079749806614241277?l=fronteirices.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fronteirices.blogspot.com/feeds/2079749806614241277/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/12/natal.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/2079749806614241277'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/2079749806614241277'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/12/natal.html' title='Natal'/><author><name>Desbra Vando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02847300063164608569</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3979598438513650907.post-7761518037257447499</id><published>2009-12-22T16:06:00.000-08:00</published><updated>2009-12-22T19:31:03.817-08:00</updated><title type='text'>Ritos fúnebres nos EUA e Brasil (e algumas notas sobre a vida, a morte e o que fica de tudo isto)</title><content type='html'>É apropriado falar de vida e morte num sentido figurativo quando o mundo está prestes a celebrar o nascimento de um dos seus maiores ícones religiosos e o fim de mais um ano é iminente. Contudo, atentemos ao sentido mais literal de vida e morte, da chegada e da partida deste mundo, do pó que viemos ao pó que voltamos, e aos acontecimentos entre estas duas etapas. Há uma semana estive no velório da mãe da chefe do meu marido. Eu não a conhecia, portanto foi mais fácil me distanciar da intensa carga emocional de assistir à perda de alguém querido. Nem por isto a sensação de fragilidade perante a vida, ou ainda, perante a morte, se fez menor. Observando o cerimonial fúnebre americano, que tem diferenças marcantes em relação ao brasileiro, me vi novamente refletindo sobre o maior de todos os mistérios, pois tudo o que sabemos a respeito da morte está carregado de superstições, crenças, suposições e dúvidas. A morte que, para alguns grupos aqui da fronteira, também é Santa Morte e venerada. Não existe ciência que prove nada, apenas que um dia tudo se vai. Cabe a cada um acreditar no que se sucederá, de acordo com suas convicções ou fé, e de que forma viverá até o momento do suspiro derradeiro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando morei neste país pela primeira vez, aos 17 anos como intercambista, o meu "avô" americano faleceu (era o pai do meu "pai" americano). À primeira vista, tudo relacionado à maneira como a morte dele foi conduzida me chocou. Para mim havia um excesso de profissionalismo, frieza e distanciamento incompatíveis com um momento tão delicado, marcantemente diferente de como eu havia presenciado a morte no Brasil. O contraste com o primeiro velório que atendi na vida era gritante, na ocasião do falecimento do meu avô paterno em Juazeiro, Bahia, aos meus nove anos de idade, em meados dos anos 1980. Como a maioria dos cerimoniais fúnebres brasileiros, a velação do corpo ocorreu no mesmo dia do falecimento. Meu avô morreu de madrugada e à tarde já havia dezenas de pessoas ao redor do seu caixão. Naquele tempo e cidade, ainda havia a tradição de se usar preto em sinal de luto. As mulheres, sobretudo as mais idosas, também cobriam o rosto com um lenço de renda preto. Lembro-me da minha avó vestindo uma roupa preta. A maioria das pessoas trajava suas roupas do dia-a-dia, bastante informais. Mulheres rezavam o terço e entoavam cantilenas religiosas em vozes arrastadas. Alguns membros da família choravam  desesperadamente sobre o caixão. Minha tia beijou o rosto do meu avô, e até então eu nunca poderia imaginar que era possível beijar um corpo sem vida. Do lado de fora da casa, um carro de som circulava pelas ruas da cidade anunciando seu falecimento. Lembro-me, sobretudo, de coisas extremamente gráficas e demasiadamente orgânicas que me chocaram intensamente, como alguém dizendo que o corpo deveria prosseguir ao cemitério antes que começasse a cheirar mal. Havia secreções descendo do corpo do meu avô: de hora em hora alguém tinha que trocar o algodão que lhe tapava as narinas e seus olhos se abriam.  No cemitério, sua cova foi cavada na frente de todos os que ali estavam presentes. Um coveiro, uma pá e uma terra vermelha de onde saíram uma caveira, um fêmur e uma tíbia. Descobrimos ali que duas outras pessoas já haviam sido enterradas no mesmo local. Vi a terra ser jogada novamente por cima da cova. Era o meu primeiro contato com a morte e ela me pareceu extremamente crua e impiedosa. Nas duas semanas consecutivas eu tive pesadelos frequentes.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Fast foward&lt;/em&gt; no tempo e, infelizmente, em 2009 eu sofri a perda de um amigo querido, Marcelo, que se foi literalmente num piscar de olhos. Tinha minha idade, nenhuma enfermidade aparente e vivia uma vida não muito diferente da minha.  Um baque enorme que até hoje não consegui processar. Uma partida sem explicação racional, pois não foi causada por acidente, crime, doença ou idade avançada. Num suspiro seu coração sucumbiu. É possível aceitar, mas é muito, muito difícil entender que aos 33 anos de idade era a hora de alguém tão cheio de planos, tão cheio de amigos e tão amado ir embora. Não há um dia em que eu não pense nele, na sua mulher ou nos seus amigos mais próximos que para sempre sentirão sua falta. Seu velório foi um dia após o seu falecimento, na capela de um cemitério da zona sul carioca. A quantidade de elementos gráficos que me chocaram na infância não foi tão notória, mas ainda assim estavam lá: um atendente do IML falando coisas muito explícitas sobre a liberação do corpo, um cemitério claustrofóbico, uma sala de velório encardida. Contudo, o choque maior desta vez foi mesmo o emocional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o meu "avô" americano se foi, o meu espanto foi causado pelo excesso de zelo. Tudo ficou aos cuidados de uma funerária, uma casa bonita com carpete, perfumada e limpa, onde um atendente sorridente nos conduzia à nossa capela. Aquele sorriso me causou grande desconforto, afinal para mim o momento de dor e perda não condizia em nada com tal expressão. Para mim, ele era um homem de negócios fazendo dinheiro, nada mais. O velório durou três dias, um deles sendo na igreja que &lt;a href="http://translate.google.com/#en|pt|grandpa"&gt;&lt;em&gt;grandpa &lt;/em&gt;&lt;/a&gt;frequentava. &lt;em&gt;Grandpa &lt;/em&gt;estava extremamente branco, maquiado com base e pó. Os homens, incluindo os meninos, usavam terno e as mulheres trajavam seus vestidos mais formais em cores sóbrias. No cemitério, havia uma tenda branca ornamentada com flores, e à sua sombra cadeiras para a família. A cova já estava pronta e não havia sinais de terra. Pelo contrário, havia um tapete de grama sintética ao redor do buraco. As pessoas partiram antes de verem o túmulo ser fechado. O caixão era baixado à terra através de um mecanismo automatizado. Tudo muito higienizado, desinfetado, maquiado, polido. Durante aqueles três dias, carregamentos de comidas e bebidas chegaram à casa de &lt;a href="http://translate.google.com/#en|pt|grandma%0D%0A"&gt;&lt;em&gt;grandma &lt;/em&gt;&lt;/a&gt;, enviado por parentes e amigos. Eram pilhas de pães, salgadinhos, donuts, doces, pastas, sucos, refrigerantes. Também havia sacos de pratos e talheres descartáveis. Não conseguia entender aquela fixação por comida. Após o enterro, houve um grande almoço na casa dela, numa recepção semelhante às que vemos nos filmes americanos e que até então sempre haviam me causado espanto pela dose visível de descontração. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No velório que atendi neste dezembro em Laredo, nada muito diferente do que presenciei há 16 anos: homens de terno e mulheres com roupas formais; uma &lt;em&gt;funeral home&lt;/em&gt;, ou casa especializada em velórios, muito limpa, organizada e decorada como uma casa de família; um sorridente atendente de terno conduzindo todos à capela. Mas havia novos recursos. Nos alto-falantes, música clássica com ênfase nos noturnos de Chopin. Numa grande TV de plasma, logo acima do caixão, um vídeo mostrava diversas fotos da senhora que partiu. Uma vida de mais de 80 anos resumida em momentos alegres, como aniversários de família, o abraço dos netos, um dia na praia em preto e branco, uma bela moça de 18 anos num estupendo vestido de baile. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje compreendo que estas tradições americanas que me impressionaram tanto quanto a visceralidade das tradições brasileiras na verdade servem de pára-choque para um momento tão pesaroso. Ainda que um velório de três dias possa parecer demasiadamente longo, possibilita à família e aos amigos ganharem um pouco mais de tempo para processarem a partida da pessoa querida. Mesmo racionalmente sabendo que a pessoa de fato já não está mais ali, são algumas horas a mais ao lado dela. O envio de comida para a casa da família mostra não apenas consideração, mas praticidade mesmo: ninguém tem cabeça para pensar em cozinhar, ou mesmo pedir comida, durante aqueles primeiros momentos de perda. E como bem sabemos praticidade é uma característica forte do americano. Planejamento de longo prazo também. Falar sobre os planos para a morte, por mais chocante que pareça, é encarado com bastante naturalidade. Se bem que não há prazo com a morte. Na cidadezinha de Iowa onde morei na década de 1990, as minhas &lt;em&gt;host families&lt;/em&gt; já tinham tudo esquematizado através do seguro funeral para o caso da morte prematura de algum dos pais ou mães. Umas senhoras que estavam no enterro diziam que já tinham inclusive escolhido seu próprio caixão. Eu mal havia começado a namorar o meu marido e ele já perguntava onde seríamos enterrados, uma vez que sou brasileira e ele é americano. Ele quer que sejamos enterrados lado a lado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recentemente aqui na fronteira tomei conhecimento da &lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Santa_Muerte"&gt;Santa Morte&lt;/a&gt;, uma entidade venerada no México e que já adentrou as populações imigrantes nos Estados Unidos. Ainda estou devendo um post exclusivo sobre o tema, pois é fascinante. Mas em resumo ela é venerada, entre outros aspectos, por representar não o fim, mas o começo de uma nova vida. Para haver vida, é necessário haver a morte, e de fato não há verdade maior. Sua longa manta representa a nossa carne e as riquezas materiais, que não duram e podem ser retiradas de nós. Numa das mãos carrega uma foice, símbolo da colheita, representando esperança e prosperidade. Na outra traz um globo, simbolizando a imensidão do seu domínio e o túmulo para onde todos retornaremos. Uma coruja sempre lhe acompanha, representando sabedoria e lhe servindo de luz na escuridão. Muitas vezes ela também carrega uma ampulheta, que indica o tempo da nossa vida na Terra, assim como paciência. Só consigo encontrar bom senso nestes símbolos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sabemos que um dia nos vamos, que as pessoas que amamos também partirão --apenas fisicamente, já que elas sempre existirão enquanto forem lembradas. Exige-se força hercúlea arcar com a perda de alguém que se foi antes de nós. Mas entender ou aceitar a verdade de que "se morre a partir do momento em que se nasce", como alguém já proferiu, e que "a morte é a única certeza que de fato temos" pode nos ensinar a vivermos de forma mais sábia e plena.  Não sou de ficar pensando na minha morte, mas claro que já cogitei ter as cinzas jogadas no Rio São Francisco a partir da ponte que liga Petrolina-PE a Juazeiro-BA. Honestamente, quando a minha vez chegar, que seja onde der menos trabalho para quem ficar responsável pela tarefa. Sei também que provavelmente ninguém vai acreditar ou fazer isto acontecer, mas eu preferia, inclusive, que o formato fosse de festa. Uns sambas de Chico Buarque, umas caipirinhas e umas comidas gostosas. E um batom bem bonito nos meus lábios, por favor. Sei que soa mórbido, mas entre tantas lembranças acabamos também recordando do rosto da pessoa querida no seu leito final. Pelo menos lembrem-se de mim com rímel, gloss e um pouco de sombra dourada. Por alguma razão, desde meus tempos imemoriais, sempre tive a sensação de que a vida é mesmo muito frágil e pode acabar a qualquer minuto. Por isto uma vontade louca de tudo viver, de a todos conhecer, de viajar, de não postergar tanto os planos, de sorrir mais e, mais recentemente, sobretudo após a partida do meu amigo, de deixar claro o quanto amo e admiro as pessoas que amo e admiro. Ainda não me sinto pronta para partir -- pelo contrário, tenho planos para décadas e mais décadas por vir -- mas se a minha hora chegar, posso dizer que vivi uma vida plena e feliz. Cada fase intensamente vivida com todas as suas conquistas, dúvidas, dores, alegrias, encontros e desencontros. Algumas fotos de carnavais purpurinados e outras de noites em claro chorando as pitangas. O saldo, porém, é bem positivo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3979598438513650907-7761518037257447499?l=fronteirices.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fronteirices.blogspot.com/feeds/7761518037257447499/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/12/ritos-funebres-nos-eua-e-brasil-e.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/7761518037257447499'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/7761518037257447499'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/12/ritos-funebres-nos-eua-e-brasil-e.html' title='Ritos fúnebres nos EUA e Brasil (e algumas notas sobre a vida, a morte e o que fica de tudo isto)'/><author><name>Desbra Vando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02847300063164608569</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3979598438513650907.post-9213071262253018824</id><published>2009-12-21T12:22:00.001-08:00</published><updated>2009-12-22T13:18:43.566-08:00</updated><title type='text'>Considerações sobre o trabalho e uma vida ordinária: parte 2</title><content type='html'>Neste ato solitário que é escrever, mesmo um blog que considero tão inofensivo quanto o meu, com pensamentos de alguém que não é especialista em nada e generalista em quase tudo, me dou conta do quanto é saudável poder trocar idéias a respeito dos assuntos que aqui publico. Na solidão da escrita rápida de crônicas corriqueiras é muito comum faltar um &lt;em&gt;checklist &lt;/em&gt;aprofundado dos temas em destaque. Ao reler o que escrevi dias após a publicação, tenho vontade de reescrever algumas mal traçadas linhas. A auto-crítica faz-se constantemente necessária. Recentemente uma amiga deixou um comentário no &lt;a href="http://fronteirices.blogspot.com/2009/12/dia-da-carreira-na-high-school-e.html"&gt;post em que eu fazia algumas considerações sobre o trabalho e uma vida ordinária&lt;/a&gt;. Ao reler o texto, me dei conta da quantidade de outros pensamentos relevantes ao tema que deixei de expressar. Este post, portanto, é um &lt;em&gt;addendum &lt;/em&gt;aos pensamentos aqui escritos em 02 de dezembro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficou um hiato no meu texto sobre a opção de ser mãe e viver uma vida dedicada ao lar. Algo que considero totalmente nobre se, tendo a mulher a opção de trabalhar dentro ou fora de casa, for feito de maneira consciente, por livre e espontânea vontade. Nada como as liberdades. Cuidar da educação de uma pessoa, fazê-la crescer saudável e plena é um dos atos mais nobres que conheço. E dá um trabalho da porra! Tenho várias amigas que fizeram esta opção. Um ponto importante: todas americanas ou brasileiras vivendo nos Estados Unidos, onde as facilidades econômicas propiciam esta escolha. O custo de colocar o filho numa creche ou contratar uma babá é tão alto que muitos casais optam para que um dos cônjugues fique em casa na função integral de mãe ou pai. Obviamente que em 99,9% dos casos quem assume o papel é a mulher. Com a recessão, porém, algumas amigas ou voltaram ao batente ou estão trabalhando meio-período. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acredito veemente, porém, que ainda que se escolha ficar em casa, é importante para a mulher dedicar um pouco a mais do seu tempo a outras atividades que não sejam apenas a criação dos filhos ou a organização do lar, pois a vida é bem mais plural do que isto. Faça um curso de fotografia, aprenda a desenhar, vá a academia, comece um clube do livro. Produza, insira-se num meio criativo, esteja sempre a expandir seus horizontes, pois trará imensos benefícios para si mesma e consequentemente para o resto da família. O que acontecerá no dia em que os filhos forem embora? Fazendo outras atividades focadas no seu bem-estar, exercita-se, entre tantos itens de uma vasta lista, a independência, o desapego e o estar em contato consigo versus anular-se por completo dentro de uma relação ou no papel de mãe, que é, em grande parte, o papel de servir. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre os meus planos de vida está o de ser mãe, ainda sem data definida. Mas aos 33 anos já não se dá mais para esperar tanto assim, portanto algumas reflexões começam a surgir com mais frequência, entre elas a de se optarei por ficar em casa durante uma temporada cuidando dos filhos ou se tentarei me dividir entre o trabalhar &lt;strong&gt;fora &lt;/strong&gt;de casa e o trabalhar &lt;strong&gt;dentro &lt;/strong&gt;de casa. Como bem colocou minha amiga Genoveva, "cá entre nós, à mulher moderna restam estas duas opções!" Por mais que os homens que minhas amigas elegeram para se casar sejam, na sua maioria, bem mais flexíveis que a geração dos seus pais, estou por conhecer um casal realmente moderno no qual o trabalho doméstico seja dividido meio a meio entre homem e mulher. Talvez exista lá no reino da Dinamarca, onde tudo é perfeito, mas no Brasil ou aqui nos Estados Unidos eu ainda não vi. Em geral o homem simplesmente se abstrai de tomar a iniciativa para certas funções. Meu marido é um bom exemplo: é bastante compreensivo no que toca as responsabilidades do lar, ajudando sempre que peço, porém se eu não pedir, assume-se que eu, por não estar trabalhando fora, tenho a responsabilidade de fazê-lo. Ou então faz pela metade: leva o lixo para fora, mas não coloca um novo saco plástico na lixeira. Como se a lixeira fosse robótica e automaticamente acionasse o refil. Eu, buscando sempre a modernidade, já devo estar na trigésima-quarta repetição de "amor, por favor, não se esqueça de colocar um novo saco plástico." Sabe aquela história de entrar por um ouvido e sair pelo outro? E apois. Mas existe também o caso da mulher tomar para ela a maior parte das responsabilidades. Um dia uma amiga, exausta física e emocionalmente, me confidenciou que o marido nunca havia trocado a fralda dos filhos. Eu perguntei se ela já havia deixado que ele o fizesse. Ela se deu conta que ele tentou uma vez, mas por fazê-lo tão mal ela tomou para si a totalidade da função. A verdade é que nós, mulheres, com nosso perfeccionismo e alto grau de exigência, podemos ser tão controladoras a ponto de dificultarmos nossa própria vida sem nos darmos conta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trabalhar no lar dá um trabalho danado e é uma ocupação que nunca acaba -- sempre há uma louça para lavar, uma roupa para passar, uma lâmpada para trocar, um banheiro para limpar. Não há remuneração e muito menos reconhecimento, além de ser um trabalho repetitivo e criativamente limitado. Ainda que seja possível ter uma empregada, caberá quase sempre à mulher a função de organizar a casa: efetuar o pagamento da diarista, fazer a lista do supermercado, decidir qual será a ceia de natal, lembrar o marido do aniversário do pai dele, mudar as cortinas da sala, chamar a empresa que limpa carpetes, organizar o batizado da filha, pregar os botões do casaco do filho, marcar consultas médicas para família. Novamente, pelas razões que mencionei acima: abstração do cônjugue ou pelo fato da mulher tomar como sendo dela estas responsabilidades. Alguém me diga se há outras razões. Tendo-se, pois, opções de escolha entre trabalhar dentro ou fora-dentro de casa, acredito que eu opte pela segunda. Lembro muito bem das minhas colegas de trabalho no Rio de Janeiro que enchiam os olhos de lágrimas ao falar que já era a terceira noite consecutiva que não conseguiam ver o filho porque, ao chegarem em casa, ele já estava dormindo. Espero não ter que passar por esta constante sensação de frustração e culpa, mas pelo que pude observar é inerente ao ser mulher-mãe-profissional. Mas no fim das contas, dá para balancear as multi-funções e conviver com as nóias sem apelar para Prozac ou meia garrafa de vinho por dia. Espero, quem sabe, conseguir um trabalho com horário flexível ou &lt;em&gt;home-office&lt;/em&gt;. Ser mãe e cuidar do lar é um trabalho nobre, mas o trabalho fora de casa também e honrável e enobrece. Acredito que quando tanto o marido quanto a esposa ganham seu próprio dinheiro, a relação do casal se torna mais equilibrada. Porque convenhamos, por mais maravilhoso que seja o parceiro, há uma relação de poder advinda de quem está trazendo o pão pra dentro de casa. Primeiro, porque ganha-se mais força na barganha da delegação das atividades domésticas.  Segundo porque ninguém merece ter que ouvir o marido dizer que está sem poder comprar camisas novas porque, em vez disto, o dinheiro foi para a depilação com cera quente da esposa. Lógico que, neste caso, a mulher tem o total direito de chantagear o marido dizendo que passará a adotar um penteado vintage no seu pólo sul.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3979598438513650907-9213071262253018824?l=fronteirices.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fronteirices.blogspot.com/feeds/9213071262253018824/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/12/consideracoes-sobre-o-trabalho-e-uma_21.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/9213071262253018824'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/9213071262253018824'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/12/consideracoes-sobre-o-trabalho-e-uma_21.html' title='Considerações sobre o trabalho e uma vida ordinária: parte 2'/><author><name>Desbra Vando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02847300063164608569</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3979598438513650907.post-2503031934143980325</id><published>2009-12-14T05:59:00.001-08:00</published><updated>2010-01-06T09:08:01.016-08:00</updated><title type='text'>Estereótipos e caricaturas de um certo Brazil</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SyVcXq8weVI/AAAAAAAAAtM/VW9ufb9TMcg/s1600-h/carmen_miranda.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 220px; height: 320px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SyVcXq8weVI/AAAAAAAAAtM/VW9ufb9TMcg/s320/carmen_miranda.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5414835688718760274" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Sábado à tarde, irritada com o fato de o Presidente Barack Obama ter recebido na última quinta-feira o Nobel da Paz -- considerando que apenas uma semana antes ele havia anunciado o envio de mais 30.000 tropas para o Afeganistão, numa campanha em que até mesmo alguns de seus generais prevêem o que se tornará uma guerra ainda mais caótica que a do Iraque -- eu zapeava canais de televisão até encontrar algo totalmente leve, divertido e à prova de irritação. Parei no canal Bravo, onde mais um episódio de &lt;em&gt;America's Next Top Model&lt;/em&gt; se desenrolava. Este &lt;em&gt;reality show&lt;/em&gt;, no qual meninas esqueléticas tentam ser a próxima Gisele Bündchen, é uma daquelas frivolidades que rende boas gargalhadas sem exigir fosfato algum do cérebro. Como toda mulher, carrego a mulherzinha interior que sempre teve um desejo oculto de ser modelete. Às vezes nem tão oculto assim. Tanto que --- e aqui revelo aspectos do meu negro passado -- aos 11 anos ganhei o concurso de Rainha de Milho do colégio e aos 12 anos conquistei o título de Miss Jardim Paulo Afonso, o nome do meu bairro. Parei por aí. Alguém me disse que é a beleza interior que conta, mas depois de crescer e ficar um pouco mais cínica acho que deve ter sido alguém bem feio. Mas voltando ao programa: sábado não era o meu dia, pois não apenas aquele foi o episódio mais irritante que poderia ser veiculado, como também uma força maior me impedia de  desligar o vídeo. Eu precisava assistir até o final aquele conteúdo medonho que trazia à tela mais uma caricatura de um estereotipado país chamado &lt;em&gt;Brazil&lt;/em&gt;, só para ter certeza de que a sua imagem no exterior continua tão igual à que sempre foi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SyZVYpAZoII/AAAAAAAAAtk/DZo8DeTi64Q/s1600-h/maracas.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 200px; height: 200px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SyZVYpAZoII/AAAAAAAAAtk/DZo8DeTi64Q/s200/maracas.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5415109483772354690" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;O tom de "originalidade" foi dado no momento em que as modelos souberam onde se passaria a próxima prova: uma chuva de papéis verde-amarela, samba como fundo musical e jurados dançando desengonçadamente com caribenhas maracas coloridas nas mãos. Afinal, tudo ao sul do Texas é praticamente a mesma coisa para a maior parte do (ignorante) público nestas bandas do norte. Ou seriam as maracas representativas de Carmem Miranda, o estereótipo-mor da brasileira que desde a década de 1940 permeia o imaginário norte-americano? Meu marido, às gargalhadas com minha fúria no olhar, trazia bananas e maçãs da cozinha e as colocava na minha cabeça. O que mais dói é que aquele programa não foi preparado por pessoas ignorantes. Refaço: ignorância é algo relativo. Tenho certeza que quem escreveu, dirigiu e/ou produziu o show estudou, viajou e saiu dos Estados Unidos pelo menos uma vez na vida. Mas é mesmo muito mais fácil e cômodo nivelar por baixo.   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O episódio se passava em São Paulo, onde as modelos enfrentavam diversos desafios que culminariam na eliminação de uma delas. A recepção das moçoilas foi no Jardim Botânico, onde -- e como não? -- um grupo de mulatas em roupas minúsculas e estandartes na cabeça rebolavam o burugundum. Na primeira prova, as modelos tinham que comprar flores para levar para ninguém menos que a &lt;em&gt;Girl from Ipanema&lt;/em&gt;. Pelo menos nesta parte eu vibrei -- não pela Garota de Ipanema, mas por ver minha amiga Verônica fazendo o papel de florista. Foi bom ter assim, tão dentro de casa e a milhares de quilômetros um rosto familiar e querido. Mas eis que a própria Garota de Ipanema, Helô Pinheiro, em carne e osso (e total falta de bom senso) desce as escadarias requebrando as cadeiras e remexendo os bracinhos bem ao estilo Carmem. Não satisfeita, ainda ensina às participantes que elas precisam saber se mover "com graça", pois foi por esta razão que se tornou musa daquela música. A esta altura, eu já estava com a cara totalmente enterrada na almofada, morrendo uma trágica morte de VPP (Vergonha Pela Pessoa, genial termo que aprendi durante minha estada carioca). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Helô Pinheiro aparece no vídeo abaixo a partir da marca de 1 minuto. &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;object width="425" height="344"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/adhjWRt9aok&amp;hl=en_US&amp;fs=1&amp;"&gt;&lt;/param&gt;&lt;param name="allowFullScreen" value="true"&gt;&lt;/param&gt;&lt;param name="allowscriptaccess" value="always"&gt;&lt;/param&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/v/adhjWRt9aok&amp;hl=en_US&amp;fs=1&amp;" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="425" height="344"&gt;&lt;/embed&gt;&lt;/object&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como todo bolo que se preze tem uma cereja no topo, o programa ainda adicionou esta mega cereja de desafio: as garotas iam a uma favela para uma sessão de fotos fantasiadas de quem? De quem? Ninguém menos que Carmem Miranda! Façamos justiça: foi interessante o programa trazer a favela tão para dentro do &lt;em&gt;&lt;a href="http://translate.google.com/?hl=en#en|pt|mainstream"&gt;mainstream&lt;/a&gt;&lt;/em&gt;. Neste ponto, ajuda a quebrar o preconceito de violência sempre associado a estas comunidades. Mas havia algo de bizarro e cruel naquele gritante contraste de pobreza com o luxo de belas fotos em modelos gringas e (quase todas) muito brancas. Era a miséria sendo tomada como exótica e apresentada a um público que não conhece nada ou praticamente nada daquele universo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;object width="425" height="344"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/p7rVBziM0SY&amp;hl=en_US&amp;fs=1&amp;"&gt;&lt;/param&gt;&lt;param name="allowFullScreen" value="true"&gt;&lt;/param&gt;&lt;param name="allowscriptaccess" value="always"&gt;&lt;/param&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/v/p7rVBziM0SY&amp;hl=en_US&amp;fs=1&amp;" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="425" height="344"&gt;&lt;/embed&gt;&lt;/object&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A falta de aprofundamento deste olhar estrangeiro sobre o país registrava (novamente) em foto e vídeo um Brasil simplificado, paradisíaco, pobre, selvagem, tropical e sensual. Um olhar estrangeiro formador de opinião que repassava para mais uma geração uma versão lugar-comum de Brasil, batida por séculos desde os tempos de &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Hans_Staden"&gt;Hans Staden&lt;/a&gt;. Não que o estereótipo não traga traços da realidade, mas por fazê-lo de maneira tão simplista e superficial acaba por se tornar nocivo, carregado de preconceitos, reduzindo a realidade a um olhar repetitivo e carregado de clichés. O próprio Brasil tem em parte culpa por este olhar reducionista, pois durante décadas vendeu em campanhas turísticas no exterior um Brasil de mulatas, samba, futebol e floresta Amazônica. Até mesmo recentemente a própria campanha pelas Olimpíadas no Rio esteve carregada com estes mesmos símbolos tão profundamente cimentados no imaginário universal. Pior ainda é quando vejo ou escuto que brasileiros continuam a propagar os mesmos velhos conceitos. Outro dia num restaurante mexicano o dono, quando soube minha nacionalidade, veio me dizer que conheceu uma brasileira em San Antonio, Texas, que vendia biquínis "muy, muy pequeños" e que de acordo com ela era o que as compatriotas usavam nas nossas belas e tropicais praias. Há mentira nisto? Não. Mas este tipo de situação só enfatiza o aspecto "Brasil-terra-de-mulher-sensual-diga-se-de-passagem-puta" que permeia o imaginário da gringolândia. Está na hora desta gente bronzeada dar novos exemplos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.revistas.univerciencia.org/index.php/rumores/article/viewFile/6474/5882"&gt;Conforme dissertação acadêmica do jornalista Ivan Paganotti&lt;/a&gt;, "os estereótipos são cruciais para a assimilação e reprodução de conceitos complexos, e tem um efeito positivo (...): oferecem um denominador comum a partir dos quais ( as pessoas) podem construir suas narrativas mais aprofundadas. Mas a armadilha simplificadora dos estereótipos persiste: quando não mais condizem com a situação que representam, eles precisam ser discutidos, transformados e, quando necessário, negados. (...) É cômodo basear a cobertura (jornalística) em pressupostos, alimentando as pré-concepções com dados, histórias e interpretações que reafirmam o que o público já sabe sobre a realidade ou, no pior cenário, repetir conceitos ideologicamente enviesados que simplesmente não condizem com a verdade." Porque sabemos (ou não?), que o Brasil é um país diverso e complexo, muitas vezes incompreensível até mesmo para nós brasileiros, que vai muito além destas representações batidas. Um país que tem pobreza sim, mas também progresso. Um país que produz e exporta aviões, possuidor de belas cidades, caatinga e serrado -- e não apenas praia e floresta amazônica--, e dono de uma produção cultural de alto nível em cinema, teatro, literatura, artes plásticas e dança (muito além do puro samba e rebolado). Um país empreendedor, com espaço para erudição, ciência e tecnologia. Para ser levado a sério, o Brasil precisa vender estes conceitos. Senão, corre o risco de ser eternamente um enlatado &lt;em&gt;Brazil&lt;/em&gt; com prazo de validade vencido.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3979598438513650907-2503031934143980325?l=fronteirices.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fronteirices.blogspot.com/feeds/2503031934143980325/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/12/estereotipos-e-caricaturas-de-um-certo.html#comment-form' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/2503031934143980325'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/2503031934143980325'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/12/estereotipos-e-caricaturas-de-um-certo.html' title='Estereótipos e caricaturas de um certo &lt;em&gt;Brazil&lt;/em&gt;'/><author><name>Desbra Vando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02847300063164608569</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SyVcXq8weVI/AAAAAAAAAtM/VW9ufb9TMcg/s72-c/carmen_miranda.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3979598438513650907.post-7463016251709933087</id><published>2009-12-02T14:08:00.001-08:00</published><updated>2009-12-02T14:12:34.066-08:00</updated><title type='text'>Dia da Carreira na high school (e algumas considerações sobre o trabalho e uma vida ordinária)</title><content type='html'>Na semana passada fui convidada para contar as delícias de uma carreira em marketing para cinco turmas de formandos no Dia da Carreira da United High School em Laredo. O convite chegou como um suco concentrado de açaí com gengibre na veia que trafega diretamente ao meu ego, levantando meu ânimo de dona de casa ao me fazer voltar à minha personagem eu-profissional. Já estava até esquecendo a temperatura daquele friozinho na barriga antes de uma apresentação -- e olha que já fiz tantas, quase sempre de sucesso, mas também já fiquei à beira de levar tomates da platéia. Naquela manhã fria e molhada de um outono que chegou tarde, diante de estudantes adolescentes que ainda têm a vida inteira pela frente, eu refleti em silêncio sobre minhas escolhas profissionais, meu atual momento de desemprego enquanto aguardo uma licença para trabalhar e o que é que eu farei com o resto da vida inteira que também tenho pela frente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O convite partiu de uma amiga brasileira que é professora desta escola pública, situada num prédio recém-construído que custou US$ 57 milhões. Só a estátua de um &lt;em&gt;longhorn&lt;/em&gt;, o boizão de mega-chifres símbolo do Texas e da escola, custou US$ 110 mil. Com uma estrutura física de fazer cair o queixo -- salas altamente equipadas com computadores e audiovisual, biblioteca gigantesca repleta de desktops, academia física de primeira linha, aulas de culinária com cozinha industrial, entre outras amenidades -- era certamente melhor do que a maioria das universidades públicas que já visitei no Brasil. Certamente melhor do que a UFPE quando lá estudei em 1996, onde mal havia máquinas fotográficas para as aulas de fotografia. Mas como em terra de cego quem tem um olho é cego também, minha amiga professora da United High School conta que a hipocrisa local não permite, por exemplo, que os estudantes tenham aulas de educação sexual -- a pedido dos pais, a propósito. Em pelo menos uma das suas turmas há três garotas de menos de 17 anos que já têm filhos. Os professores são instruídos a não tocarem no assunto. Aulas sobre drogas são permitidas, inclusive há um senhor autorizado a andar com uma maleta cheia de exemplares das drogas mais consumidas instruíndo os estudantes a manterem-se longe delas. Vá entender.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como grande perfeccionista que sou, preparei apresentação de PowerPoint, busquei exemplos de produtos e ações com os quais os estudantes se identificassem e treinei minha fala por diversas vezes, mentalizando uma sala repleta de alunos interessadíssimos no que eu tinha a lhes dizer. Meu marido tirou o maior sarro de mim, me chamando de &lt;em&gt;teacher's pet&lt;/em&gt;, ou "bichinho de estimação do professor", apelido muito comum por aqui para quem é estudante certinho e faz amizade com professores. Reconheço, sou bem &lt;em&gt;geek &lt;/em&gt;mesmo, vulgo CDF, e até hoje mantenho contato com alguns professores da universidade onde me formei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havia vários profissionais naquela manhã fazendo visitas de sala em sala: advogados, policiais, bombeiros, pastores de igreja, médicos e até onde sei, apenas eu de marketing. Também apenas eu utilizando PowerPoint, mas e daí? Tenho certeza que me diverti mais do que qualquer outro palestrante convidado e os estudantes mostraram-se super interessados, fazendo várias perguntas. Exceto por uma aluna que queria cursar faculdade de marketing, nenhum estudante tinha noção da disciplina. Gostei de me ver exercendo aquele papel professoral, passando adiante um pouco do conhecimento que adquiri ao longo de 10 anos de carreira. Me fez até repensar que tipo de emprego vou procurar quando for chegada a hora. Se eu pelo menos consegui motivar um aluno que seja -- nem falo necessariamente para a profissão de marketing, mas para ingressar na universidade, já que o índice de alunos que completam o &lt;em&gt;high school&lt;/em&gt; em Laredo é de apenas 50% -- eu serei eternamente grata por ter tido aquela chance de conversar com as turmas. É calmante e acalorada a sensação de ajudar alguém que precisa de orientação. Um garoto perguntou se eu gostava do que faço. Respondi que sim e tentei ser o mais convincente possível (acho que consegui), sem o cinismo de quem já viu muito ao longo dos anos, exaltando o dinamismo de uma área que está sempre se modificando para melhor atender às necessidades e desejos dos consumidores que todos somos. Mas aquela simples pergunta me trouxe algumas reflexões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aprendemos que o trabalho enaltece o ser humano. Até aí, verdade. Os aprendizados da jornada profissional de fato contribuem para o nosso crescimento pessoal. Precisamos produzir, criar, e o trabalho nos traz esta possibilidade. Nasci num meio proletário-classe-média, ainda que um proletariado intelectual que usava o cérebro para trazer para casa o arroz e feijão de cada dia. Entre os valores aprendidos na infância estavam o de que o trabalho é honrado e que deve-se trabalhar para ganhar o seu. Eu e meus irmãos fomos ensinadas a termos ambições e a sermos financeiramente (além de emocionalmente) independentes. Eu e minha irmã fomos doutrinadas especificamente a jamais dependermos de homem algum. Valores que certamente passarei adiante para meus descendentes. Ao mesmo tempo, cresci com aquele desejo nutrido por 99,99% dos humanóides de quem sabe um dia eu ganharia tanto dinheiro a ponto de não precisar mais trabalhar, ou de apenas fazer projetos quando me desse vontade, sem que minha existência física neste mundo dependesse deles. Porque convenhamos, para a maioria de nós que trabalha para sobreviver, por mais que se goste da profissão e do trabalho que se escolhe a verdade é que no fundo é trabalho. Trabalho oposto a lazer e descanso. Trabalho para onde temos que nos deslocar de segunda a sexta, enfrentando ônibus, metrô e trânsito e passando mais tempo com seus colegas de trabalho do que com sua família e amigos. Como a maioria das pessoas do meu círculo de amizades, escolhi até quatro meses atrás labutar pegando no batente em horário comercial, mas quase sempre passando da hora sem ganhar hora-extra por isto. Ironias a parte, eu deveria inclusive ficar feliz por ter ganhado uma promoção para gerente e, portanto, deveria fazer hora extra quando possível sem ganhar um centavo a mais por isto, pois era "cargo de confiança". Doei corpo e alma para trabalhar em empresas onde, com o salário que eu recebia -- ainda que considerado um bom salário para padrões brasileiros -- não teria condições de ser compradora dos produtos que eu mesmo vendia. No passado isto já rendeu revoluções, mas hoje calamos a boca devivo às outras amenidades que conseguimos com o fruto das nossas noites mal-dormidas e das poucas horas diárias dedicadas ao lazer (simplesmente pela total impossibilidade de se ter tempo livre com frequência, uma vez que da hora que se levanta pela manhã em função do trabalho até o momento de se chegar em casa à noite já se passaram entre 13 e 14 horas; reserva-se duas ou três horas para descomprimir e torna-se necessário encostar a cabeça no travesseiro para começar tudo novamente na manhã seguinte). Claro, há um batalhão de pessoas na pior e eu aqui reclamando do meu risoto de camarão. Apenas um porém: isto não chega a ser uma reclamação, apenas uma constatação do óbvio, das coisas como elas são. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora me encontro num momento particular em que estou sem emprego porque ainda não tenho permissão para trabalhar neste país. E dependendo do meu marido para o frango-com-macarrão de todos os dias. Há cinco meses não trabalho fora de casa: ganhei o nobre título de rainha do lar. Virei pilota de fogão, algo que também pode ser extremamente cansativo e enfadonho, mas que neste momento não chega a me incomodar. Divido o meu dia entre a cozinha, o computador, as aulas de violão, a academia, a cuidar dos animais de estimação e o supermercado. Diariamente alguém dos Estados Unidos ou do Brasil me pergunta quando voltarei a pegar no batente. Ainda que minha permissão de trabalho só saia daqui a três ou seis meses, semanalmente meu marido me pergunta se já andei pesquisando empresas em Houston, para onde nos mudaremos em breve. E cada vez mais percebo novamente o óbvio: que somos julgados pelo trabalho que temos ou que não temos, e que há uma pressão enorme em ter que se trabalhar. Ou em ter que produzir algo, qualquer coisa que não seja tão ordinário como esta vida doméstica que atualmente vivo. Como já sabemos, os &lt;em&gt;playboys &lt;/em&gt;de antigamente, que passavam a vida entre festas e iates sem jamais bater ponto, já não têm o mesmo status dos &lt;em&gt;playboys &lt;/em&gt;de agora que trabalham pela ambição de fazer mais dinheiro, por poder, ou quem sabe até por prazer. A tônica da modernidade dita que se você não precisa trabalhar, então tem que ser patrão. Agora, uma heresia: não sou &lt;em&gt;playgirl &lt;/em&gt;e a verdade -- e preciso gritar -- é que não estou sentindo a menor falta do trabalho. Daquele trabalho que me trouxe tanto e me fez chegar até onde estou hoje (olhando por um lado bem simplista, fui eu quem comprei minha passagem e fiz toda a minha mudança para os Estados Unidos; tudo com os reais contados do meu suor). Nem estou com pressa de produzir nada além deste blog, nem de inventar outros projetos, outros hobbies, enfim. Tem horas que a gente tem que ser ordinário mesmo, até porque no meu caso sei que isto não será para sempre. Tem horas que a gente tem que apertar o botão de &lt;em&gt;pause &lt;/em&gt;pessoal para poder digerir tudo o que não tivemos tempo de fazê-lo porque não tínhamos tempo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não ganhei na loteria nem me casei com um homem rico. O dinheiro está contado e para mantermos o padrão que tínhamos antes do casamento eu terei que voltar às origens muito em breve. O que farei com gosto quando a hora chegar, dando o melhor de mim para a empresa que me contratar. Já tenho um plano traçado, e o desejo de ser patrão também está lá, me servindo de cenourinha nesta corrida chamada vida. Mas tudo dentro do seu tempo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3979598438513650907-7463016251709933087?l=fronteirices.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fronteirices.blogspot.com/feeds/7463016251709933087/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/12/dia-da-carreira-na-high-school-e.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/7463016251709933087'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/7463016251709933087'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/12/dia-da-carreira-na-high-school-e.html' title='Dia da Carreira na high school (e algumas considerações sobre o trabalho e uma vida ordinária)'/><author><name>Desbra Vando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02847300063164608569</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3979598438513650907.post-4212932298774488918</id><published>2009-11-29T21:58:00.001-08:00</published><updated>2009-11-29T22:36:19.017-08:00</updated><title type='text'>As viradas do tempo</title><content type='html'>Há um tanto de ironia nestas viradas de tempo. Vai-se embora o calor de um verão impiedoso na recepção que me derretia por dentro enquanto eu tentava compreender tantas mudanças numa só vida. Chega, por fim, uma brisa fria para a cobrir a noite destas planícies texanas, mas continuo a botar lenha no meu coração. O inverno iminente igualmente traz previsões acaloradas. Em dois meses ou menos deixarei Laredo rumo à cosmopolitanidade de Houston e às milhares de urbanas oportunidades. São tantos processos: vender a casa, organizar bazar para se livrar dos descartáveis que o marido acumulou com o tempo, procurar uma nova casa na cidade que não se conhece e entender as pequenas grandes contradições inerentes à vida. Como a de se despedir tentando se enraigar. O adeus traz sempre consigo a possibilidade do nunca mais, portanto é preciso viver para se lembrar daquilo que nunca mais será. É preciso conhecer as pessoas que você nunca mais verá, é preciso rir com elas, dançar com elas, brindar com elas, comungar das suas alegrias e oferecer ambos os ombros para seus lamentos. As pessoas que chegam até você quando você não as procura. Ao menos conscientemente. No querer-ir há sempre um querer-ficar, mesmo quando a escolha é clara. Porque ali fomos nós um dia e agora somos outra coisa em movimento. Olho para frente. Daqui a dois meses ou menos tudo muda. Nova casa, nova cidade, novos amigos, novo emprego. Tudo ainda a se procurar, não há nada certo além da certeza de que estarei lá. Tudo de novo outra vez. Aprende-se a dominar a saudade. Escolhi viver todas as estações. Dormirei pensando em primaveras.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3979598438513650907-4212932298774488918?l=fronteirices.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fronteirices.blogspot.com/feeds/4212932298774488918/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/11/as-viradas-do-tempo.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/4212932298774488918'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/4212932298774488918'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/11/as-viradas-do-tempo.html' title='As viradas do tempo'/><author><name>Desbra Vando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02847300063164608569</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3979598438513650907.post-9120884601027635075</id><published>2009-11-21T12:14:00.001-08:00</published><updated>2009-12-14T09:07:08.446-08:00</updated><title type='text'>Mulheres unidas jamais serão vencidas</title><content type='html'>Para me tirar do tédio da vasta agenda social deste momento doméstico da minha vida  (preparar o almoço diariamente, ir à aula de violão onde descubro que tenho talento zero, brincar com a gatinha que apareceu no jardim há cerca de três semanas, lavar a louça que não se cansa de sujar, trocar a comida das cadelinhas, ir a hidroginástica, retocar a pintura do cabelo em casa e fazer compras no supermercado), esta semana uma amiga advogada me convidou para ir a um evento da &lt;em&gt;Laredo Women's Bar Association&lt;/em&gt;, ou Associação das Advogadas de Laredo (não, não é associação das mulheres dos bares, mas se fosse eu iria &lt;em&gt;con mucho gusto&lt;/em&gt;). Apesar de eu não ser advogada, e mesmo temendo que fosse ser algo extremamente enfadonho, não recusei nem que me oferecessem um lavada completa de louça do almoço do dia seguinte. Ainda por cima, o evento era na Galeria 201, um dos meus lugares preferidos de Laredo, e tinha degustação de vinhos (&lt;a href="http://fronteirices.blogspot.com/2009/08/galeria-201.html"&gt;ver post prévio sobre a Galeria aqui neste blog&lt;/a&gt;). Juntou a fome com a inanição, portanto não tinha como eu negar minha presença. Ainda bem que eu fui, pois a noite acabou se transformando num palco para uma reflexão sobre a força da união feminina. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A razão principal do evento era a arrecadação de fundos para uma organização que cuida de crianças em espera de adoção porque a justiça as afastou de seus pais devido a abuso e/ou negligência destes. Americanos adoram eventos para arrecadar dinheiro -- e sabem fazer isto muito bem, por sinal. Por valores que variavam de US$ 10-30, comprava-se uma rifa para o sorteio de até quatro lindas bolsas -- quase todas beeeem peruais, mas lindas -- da renomada designer americana &lt;a href="http://www.meliebianco.com"&gt;Melie Blanco&lt;/a&gt;, que por sinal é irmã de uma das advogadas. Prêmio totalmente condizente com o público-alvo. Óbvio que apesar de eu ser uma semi-perua (aquela que adora um acessório e maquiagem, mas sabe ser discreta no uso), sucumbi e comprei minha rifa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto as doações iam sendo arrecadadas, enchíamos pratinhos com aperitivos e copinhos plásticos com vinhos diversos -- o que aconteceu com vidro, &lt;em&gt;oh my God&lt;/em&gt;? Uma elegante convidada enóloga, responsável pelo departamento de vinhos dos Supermercados HEB, nos dava uma pequena aula sobre como degustar a bebida além de dicas importantes: "se você for convidada para um jantar e não souber qual será a comida servida, leve um Pinot Noir." A platéia de aproximadamente 40 mulheres foi bastante participativa. Quase todas estávamos sentadas à uma grande mesa no meio do salão principal da pequena galeria de paredes centenárias e quadros coloridos de artistas locais. Um cantor com seu infalível órgão cantava músicas derramadamente românticas em espanhol. A advogada que estava ao meu lado me confidenciou o quanto amava este tipo de música. As mulheres conversavam, riam e interagiam. Várias vieram se apresentar para mim. "Oi, meu nome é Fulana de Tal, sou advogada particular/promotora federal/advogada criminalista". No que eu respondia: "oi, sou Desbra Vando, convidada de Fabiola Flores". Fabi, então, adicionava mais um capítulo à minha apresentação: "ela é a esposa de WB". E ali estava eu, sendo não mais eu, mas a esposa de alguém, em meio a um grupo de profissionais. Vez por outra uma se aproximava e fazia algum comentário: "você é brasileira, certo? uau, o que acha de Laredo?", ou "gosto muito do seu marido, diga 'oi' para ele por mim". O que mais que chamou atenção foi que naquele evento, na minha função de convidada de alguém, apresentada como a esposa de alguém mais, eu não me senti em nenhum momento como peixe fora d'água. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havia um sentimento de união naquele grupo. Mulheres seguras de si, mulheres elegantes sem afetação, mulheres interessadas umas nas outras. Mulheres que sabiam ser profissionais e sabiam ser mulheres também, em todo o sentido mais feminino da palavra: comentavam como a roupa da outra estava bonita, como a torta de banana com doce de leite estava saborosa, suspiravam ao dizer o quanto gostavam da música romântica, aplaudiam com vibração quando a diretoria da Associação foi apresentada. Mulheres que se emocionavam ao colocar suas vidas pessoais em pauta para vender a idéia de ajudar a associação que cuida de crianças, como a juíza que perdeu uma gravidez há alguns meses e que pegou o microfone para contar que está em processo de adotar um filho. Mulheres que, como mulheres, também adoram dar umas alfinetadas nos homens: três delas comentavam como o juiz Fulano de Tal e o promotor Sicrano de Val não liam os novos códigos de leis e estavam totalmente defasados nas novas legislações. Todas diziam que em geral as mulheres rapidamente aprendiam as novas leis, enquanto que os homens eram mais passivos. Mulheres seguras de si e de suas convicções. Mulheres que sabem delegar e dividir os louros do sucesso com o grupo do qual fazem parte. Mulheres que não precisam provar nada para ninguém, apenas para si mesmas. Aquelas mulheres de quarta-feira à noite em Laredo pareciam felizes por estar ali, em poder trabalhar e interagir umas com as outras. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi inevitával não relacionar aquele evento com o contato retomado com uma amiga de colégio primário, que continua tão bonita quanto como eu me lembro dela na primeira série. Ela me escreveu coisas lindas e me falou que gostava de poesia. Eu a incentivei a criar o seu blog de poemas, pois percebi na maneira que ela me escrevia em prosa que era talentosa. Ela me respondeu que a princípio ficou com receio de criar um blog e eu achar que ela estava me invejando, já que eu tenho o meu, mas logo viu que isto era tolice, coisa de quem mora em cidade pequena e já é "gato escaldado" em inveja de interior. Óbvio que eu achei que não havia nada de invejoso nisto, e que bom que ela também, pois logo em seguida criou seu blog. Juntando este acontecimento com o evento em Laredo, pensei: somos mulheres e temos que nos unir. Sempre. Temos que nos ajudar, nos incentivar, nos motivar, sermos modelos umas para as outras. Temos que saber ser mulheres, sendo mulheres -- que falam, que riem, que se emocionam e que sabem ser firmes também. Parafraseando Che, endurecer mas sem perder a doçura. E se a inveja surgir, porque inveja é coisa de humano -- eu sinto, tu sentes, ela sente, ele sente, nós sentimos -- que esta inveja seja direcionada para superar nossas limitações, nossas tristezas e mágoas. Se eu não tivesse sentido inveja em alguns momentos da minha vida, não teria andado para frente. Gerações passadas já conseguiram tantos avanços na luta da emancipação feminina; gerações presentes seguem lutando; mas este ainda é um mundo masculino na sua maior parte, mesmo aqui na superpotência americana. O comportamento feminino é julgado tendo como base o comportamento masculino, sobretudo no âmbito profissional: em público não podemos chorar, não podemos falar alto, não podemos abrir o coração, não podemos imitar algo que nos agrada. São gestos e atitudes vistos como fracos, pois sabemos que historicamente estão associados ao comportamento feminino. Mas o bom é que a Terra gira todos os dias e nós mudamos também. Que bom que as mulheres vão se fazendo cada vez mais vozes fortes no mundo, usando o que lhes é mais feminino a seu favor. Portanto mulheres, sejam amigas, inspirem e deixem-se inspirar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquela noite eu não ganhei uma bolsa bonita na rifa, mas ganhei uma lufada de ar fresco cor-de-rosa-choque.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3979598438513650907-9120884601027635075?l=fronteirices.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fronteirices.blogspot.com/feeds/9120884601027635075/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/11/mulheres-unidas-jamais-serao-vencidas.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/9120884601027635075'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/9120884601027635075'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/11/mulheres-unidas-jamais-serao-vencidas.html' title='Mulheres unidas jamais serão vencidas'/><author><name>Desbra Vando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02847300063164608569</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3979598438513650907.post-5509466330829069555</id><published>2009-11-15T19:12:00.000-08:00</published><updated>2009-11-15T20:52:56.494-08:00</updated><title type='text'>La vida guacamole</title><content type='html'>Fez um domingo quente. Um domingo quente de guacamole. Domingo verde-abacate pra recomeçar novinha e esquecer que em uma semana a gente pode amadurecer até passar do ponto. Abacate com sal, azeite e limão pra lembrar que é bom ser azeda. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fez um sol de rachar lábios e pingar suor grosso. Cada poro do tamanho de uma América Latina num coração balançando ao atlas musical que tocou Grécia e Portugal, tocou Espanha e as Arábias. Me tocou orelhas, pés, pescoço e uma coluna biônica eternamente em recuperação que sacudia tudo. O corpo subiu no sofá, ignorou o cheiro de mijo de gato que o tira-odores &lt;em&gt;superpower &lt;/em&gt;não tirou e dançou sem parar até a exaustão, caindo em gargalhadas, lambido pelas cadelas roucas de tanto latir com a louca do sofá que gargalhava e rodopiava sozinha. Não ficou nenhuma costela no lugar, foi tudo defumado em suor. Este corpo que se recusou a tomar banho por horas depois do suadouro daria uma suculenta feijoada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A perda de auto-controle é tão libertadora.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3979598438513650907-5509466330829069555?l=fronteirices.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fronteirices.blogspot.com/feeds/5509466330829069555/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/11/la-vida-guacamole.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/5509466330829069555'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/5509466330829069555'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/11/la-vida-guacamole.html' title='La vida guacamole'/><author><name>Desbra Vando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02847300063164608569</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3979598438513650907.post-2485835100757668828</id><published>2009-11-11T15:42:00.001-08:00</published><updated>2009-11-12T09:09:55.569-08:00</updated><title type='text'>Das coisas enterradas no jardim</title><content type='html'>O ser humano não é apenas matéria, é também espírito. Ou assim tentamos crer.  Entendemos os eclipses, a virada das marés, o conceito de &lt;em&gt;Big Bang&lt;/em&gt;, a evolução de primatas a &lt;em&gt;homo sapiens&lt;/em&gt; a &lt;em&gt;homo informaciones&lt;/em&gt; nesta época de blogs, Twitter e Facebook. Entendemos que somos carne, mas prosseguimos na busca do entendimento do que há por trás dela, ou dentro dela ou além dela. Tem algo a mais além de átomos e células e mitocôndrias que dá a ignição para nos mantermos alertas e que nos faz seres conscientes da própria consciência. Chame de Deus, de Deusa, de Força Universal. Viver a vida racionalmente é um caminho, mas viver com elementos de misticismo e fé atrelados, certamente faz desta uma jornada mais rica. E como pode ser mística a vida aqui na fronteira! Há três semanas um causo curioso me ocorreu fazendo reativar minha dormente fé. Um causo que envolve caveira de porco, chifres de veado, vela de pimenta forte, ovos de galinha de capoeira, um bruxo travesti e um santo enterrado no jardim de casa. Eu, que vivo na fronteira entre o crer e o não crer, sempre pendendo para a primeira alternativa, por via das dúvidas saí em busca de auxílio para reverter um feitiço que havia sido lançado contra meu matrimônio. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SvtLJRyxodI/AAAAAAAAAsw/uiwb7fNqgeU/s1600-h/Honeymoon+Bandera+Oct09+066.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 240px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SvtLJRyxodI/AAAAAAAAAsw/uiwb7fNqgeU/s320/Honeymoon+Bandera+Oct09+066.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5402994800728318418" /&gt;&lt;/a&gt;Há um jardim plantado na frente de casa. Arbustos verdes bem cortados com pequenas flores roxas que proliferam no verão. Nunca fui de saber o nome das flores, mas sempre soube apreciá-las. No princípio do outono plantamos uma roseira que aos poucos está vingando. Naquela tarde de outubro, três dias após o meu casamento, descobrimos que haviam plantado à nossa revelia algo um pouco mais medonho: uma caveira de porco selvagem e três chifres de veado. Tudo enfiado num balde semi-enterrado no canteiro e que com certeza absoluta não estava lá pelo menos duas semanas antes. Minha mãe descobriu a "encomenda" por acaso enquanto esmiuçava o jardim. Achou a caveira perturbadora, mas os chifres tão lindos que chegou a limpá-los para decorarem a casa. W. pediu para não mexermos em nada, e temendo que pudesse ser algum tipo de ameaça, chamou amigos policiais para investigarem. A investigação não chegou a conclusão alguma, mas eu não tive dúvidas: é despacho, mandinga, macumba e é coisa de mulher! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As expressões "corno", "chifrar" ou "cornear alguém" não fazem o menor sentido para o americano comum, mas no México carregam o mesmo significado que para nós brasileiros. Conversando com locais mexicanos e descendentes descobrimos que eu não estava enganada: era feitiço e tinha a intenção de separar o casal através de infidelidade, representada pelos três chifres.  E para trazer ainda mais dramaticidade à esta insólita história, ainda havia uma conexão satânica, simbolizada pela caveira de porco. Valei-me, meu Oxóssi!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jamais imaginei que quando saí do Brasil para vir ao Texas eu fosse ter contato com este tipo de misticismo. Eu sempre fui muito medrosa em relação a espíritos, demônios, capetas e etc, certamente influência da educação em colégio católico que deixou alguns traumas na minha psique. Como eu morava perto de uma encruzilhada, de vez em quando apareciam umas galinhas pretas com farofa na esquina. Eu morria de pavor e passava longe. Quando morei em Iowa e no Kansas há mais de uma década, raramente meus medievais medos passavam pela cabeça, pois tudo lá era tão material. Por mais que vez por outra eu fosse à igreja (como parte de uma aventura cultural e sempre acompanhando alguém), a vida naquelas terras transpirava a matéria pura e simplesmente. A própria natureza dos cultos protestantes que eu atendia, exceto os da Igreja Batista, não dava tanta margem ao misticismo quanto as missas católicas. Meu medo naqueles tempos era de solidão, algo que já não sinto mais (a vida me ensinou que sozinhos sempre fomos e sempre seremos, mas que ser solitário ou não cabe a cada um). Mais tarde na vida entendi melhor as manifestações religiosas e passei a respeitar as oferendas. No Rio de Janeiro eu sempre pedia licença quando topava com uma -- e se você fizer uma trilha pela Floresta da Tijuca, encontrará várias. Mas diferentemente do meio-oeste americano, aqui nesta fronteira de Estados Unidos e México matéria e espírito se entrelaçam. O catolicismo é fervoroso, ainda que todos pratiquem os habituais pecados, e os elementos de sincretismo religioso são fortes e visíveis, como o culto de adoração à &lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Santa_Muerte"&gt;Santa Morte&lt;/a&gt;, que merece um texto só para ela. Vísivel também, como acabei de conhecer, é mandinga das bravas. Não cheguei a sentir medo do despacho no meu jardim. Senti mais foi indignação em saber que alguma alma-viva sebosa se deu ao trabalho de catar aqueles ossos e despejar negatividade para minha família.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como não posso sair do país até meu &lt;em&gt;greencard &lt;/em&gt;chegar, minha amiga M., a quem relatei a história, tomou o assunto com urgência e tratou de levar minha mãe a uma &lt;em&gt;hierbería&lt;/em&gt; (casa de artigos religiosos e de &lt;em&gt;&lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Santeria"&gt;santería&lt;/a&gt;&lt;/em&gt;) em Nuevo Laredo, México. M. é mexicana e conhecedora da alma deste lugar, com PhD da vida em homens inescrupulosos, inveja feminina, feitiçarias e mandingagens. Afirma que era uma pessoa descrente até quando passaram a lançar despachos contra ela e sua casa foi tomada por demônios que infernizaram sua vida e a dos seus filhos, arranhando as paredes, batendo portas e fazendo toda sorte de demonices. Desde então, M. nunca deixou de tomar todas as precauções possíveis para se defender da negatividade alheia, como andar com santinhos na bolsa, no carro e rezar muito. Naquela noite, M. e minha mãe voltaram do México com um pequeno arsenal de proteção contra o mundo dos espíritos ruins: três velas regressoras de feitiço (instrução: acender de cabeça para baixo e em seguida colocá-las no chão formando um triângulo; dentro dele eu deveria escrever o meu nome e o do meu marido); uma vela para o anjo da guarda (instrução: enfiar na cera papeizinhos com os nomes das pessoas por quem peço proteção, com o cuidado de acendar a vela de cabeça para baixo); uma vela de chili (pimenta forte) para levar embora a inveja e o olho grande (instrução: enfiar na cera papeizinhos com os nomes das pessoas que possivelmente poderiam sentir inveja minha e do meu marido, com o mesmo cuidado de acender a vela de cabeça para baixo); um incenso para limpar o ambiente; e dois ovos de galinha de capoeira que fariam parte de uma sessão de desfaz-feitiço organizada por uma senhorinha do lado de cá da fronteira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SvtLVSskBYI/AAAAAAAAAs4/6UirqpD3nNs/s1600-h/_santa_muerte_.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 211px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SvtLVSskBYI/AAAAAAAAAs4/6UirqpD3nNs/s320/_santa_muerte_.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5402995007129126274" /&gt;&lt;/a&gt;Como a tal senhorinha desmarcou de última hora a nossa pajelança, M. nos levou para uma consulta com Luis, que atende numa &lt;em&gt;hierberia &lt;/em&gt;no lado sul de Laredo, Estados Unidos, área notadamente mais pobre e com estigma de gueto. Era uma loja semelhante às de artigos para candomblé e umbanda comuns no Brasil, exceto que em vez de imagens de Iemanjás e São Jorges proliferavam imagens da Santa Muerte. Não me prolongarei sobre este fascinante culto, mas posso dizer que depois daquele dia a Morte representada por aquela cadavérica senhora vestida de preto deixou de ser algo amedrontador. Mas até eu conhecer os fatos sobre a Senhora-do-Além, sentia um desconforto seguido de frio na base da espinha naquele lugar repleto de imagens, fumaça de incenso, cheiro de velas queimando e oferendas de maçãs, tequila e flores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luis chegou e se dirigiu a uma salinha onde fazia suas consultas de tarô em frente a um altar repleto de oferendas e velas para uma Santa Muerte do meu tamanho. Luis tinha uma cara enorme com uma papada sobressaltante, cabelo castanho-acaju com cachos duros de laquê descendo até os ombros, olhos pequeninos pintados com sombra escura e várias camadas de rímel. Vestia saia curta e uma camiseta colada no corpo grande e inchado, deixando aparecer o decote nos pequenos seios. Sua pele marrom-escura estava coberta por vários colares, pulseiras e anéis de ouro. Se apresentou como Fer, seu alter-ego travestido, e exibia um ar de mistério e sedução. Fui direto ao ponto e expliquei a razão da minha presença. Ao mostrar a foto da caveira com os chifres, Luis/Fer começou a indagar sobre o passado amoroso do meu marido até apontar precisamente que foi uma ex quem preparou o despacho, dando praticamente nome aos bois. "Não porque ela seja apaixonada por ele, mas ela não quer vê-lo feliz." A mesma ex que meu marido, embora incrédulo, disse dias antes ser a única pessoa que poderia se dar ao trabalho de fazer, bem, um trabalho. Luis/Fer garantiu que tudo ficaria bem, mas que para quebrar o despacho eu deveria acender uma vela de 7 dias com aroma de maçã e limpar a casa com a Água Espiritual 7 Potências. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SvtLl_nZ4_I/AAAAAAAAAtA/z9lZTeSe13U/s1600-h/Honeymoon+Bandera+Oct09+068.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 240px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SvtLl_nZ4_I/AAAAAAAAAtA/z9lZTeSe13U/s320/Honeymoon+Bandera+Oct09+068.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5402995294064993266" /&gt;&lt;/a&gt;Logo após a consulta, minha casa estava repleta de velas e devidamente higienizada com a água bentificada. Não me dei ao trabalho de enfiar papeizinhos na cera e acabei fritando uma boa omelete com os ovos de galinha de capoeira. Mas até meu marido W., que é extremamente cético a ponto de rir de tudo o que eu estava fazendo, passou a usar um escapulário que minha tia havia lhe presenteado. Nestes mesmos dias havíamos ganhado de presente de casamento uma imagem de São José. Segundo o costume local, caso você queira vender sua casa, algo que estamos tentando há quase um mês, deve-se enterrar o santo de cabeça para baixo no seu jardim. Quando o milagre for atendido, o santinho deve ocupar lugar de destaque na nova residência. O enterro (tortura?) do São José teve, assim, duplo significado: funções imobiliárias e protetoras de possíveis futuros despachos. Em tempo: por que tanta fissura com coisas enterradas por aqui?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Expliquei ao meu pai todos os pormenores da história e perguntei o que ele teria feito no meu lugar. Do alto da sua sabedoria e praticidade, o homem não hesitou: "sentava no lugar onde acharam a macumba e cagava em cima." Acho que realmente uma boa cagada depois de um almoço regado a brócolis e repolho daria conta: reverter mandinga com catinga. Mas eu não conseguiria ir por um caminho tão racional. Se no reveillon na praia peço luz e proteção com velas acesas e flores ao mar, por que não acrescentar um pouco de firula mística a um episódio enraigado numa crença popular? Depois de tanta vela acesa creio que não sobra mais nem pó das intenções maléficas dirigidas ao meu lar. Mas não custa nada passar um sal grosso no corpo e fazer umas orações vez por outra. No fim das contas, bem ao meu estilo Poliana de ser, até agradeço à mandingueira de plantão por não apenas ajudar a reacender a minha fé, como também a me fazer vivenciar a deliciosa experiência cultural do submundo espiritual da fronteira.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3979598438513650907-2485835100757668828?l=fronteirices.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fronteirices.blogspot.com/feeds/2485835100757668828/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/11/das-coisas-enterradas-no-jardim.html#comment-form' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/2485835100757668828'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/2485835100757668828'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/11/das-coisas-enterradas-no-jardim.html' title='Das coisas enterradas no jardim'/><author><name>Desbra Vando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02847300063164608569</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SvtLJRyxodI/AAAAAAAAAsw/uiwb7fNqgeU/s72-c/Honeymoon+Bandera+Oct09+066.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3979598438513650907.post-4796516683672957791</id><published>2009-11-06T10:33:00.000-08:00</published><updated>2009-11-06T15:08:57.666-08:00</updated><title type='text'>Política de chapinha</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SvSpExBJTkI/AAAAAAAAAsI/_Y7HX3wuHJo/s1600-h/chi-gf1051.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 320px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SvSpExBJTkI/AAAAAAAAAsI/_Y7HX3wuHJo/s320/chi-gf1051.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5401127752466779714" /&gt;&lt;/a&gt; Certas realidades são tão bizarras que parecem causos saídos de crenças populares. Alguns tão fantásticos que nem novelas de Gloria Perez conseguiriam tamanha inventividade. Aqui nos Estados Unidos, o Texas certamente é um celeiro de realidades fantásticas. A última delas é de um dos candidatos a governador pelo partido democrata. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Farouk_Shami"&gt;Farouk Shami&lt;/a&gt; é palestino naturalizado americano que imigrou para os Estados Unidos na década de 1960. Personificação do sonho americano, chegou neste país com apenas US$75 e fez uma fortuna bilionária no ramo de beleza. Sua grande invenção foi a primeira coloração para cabelos sem amônia (ah, sim, nós gostamos disto). Suas três marcas de produtos para cabelos e pele, BioSilk, Sunglitz e CHI, são exportadas para 50 países. Sua &lt;a href="http://www.faroukforgovernor.com/"&gt;plataforma política&lt;/a&gt; é trazer "milhares de empregos para o Texas". Desta forma, chegou a fechar uma fábrica na China e está abrindo outra em Houston. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tive a oportunidade de vê-lo pessoalmente ontem à noite durante um evento político. Na verdade eu havia ido ao evento da candidata Sylvia Palumbo a tesoureira do condado de Webb, que tem Laredo como sede. Confesso que não fui por vontade própria, mas como esposa-acompanhante de W., que apóia sua candidatura. Ao final do evento vi dezenas de mulheres do lado de fora carregando bolsas com produtos de beleza. Uma delas soltou para mim: "vai lá pegar uma pra você também." Eu, com minha fraqueza por shampoos, não resisti. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Descobri, assim, que &lt;em&gt;Mr.&lt;/em&gt; Shami estava na sala adjacente, num ambiente que contrastava berrantemente do solene e tradicional evento de &lt;em&gt;Mrs.&lt;/em&gt; Palumbo. Ali ao lado, nada de luz branca incadescente, almôndegas nem palitos de aipo e cenoura em estilo &lt;em&gt;self-service&lt;/em&gt;. A festa de Farouk estava iluminada com jatos de luz estroboscópica; a música era de boate, inclusive tocava uma canção brasileira animadíssima que eu nunca havia ouvido antes; os aperitivos incluíam mexilhões gratinados servidos individualmente em pratinhos por vários garçons; e um locutor anunciava sem parar: "Aguardem, aguardem! Daqui a pouco sortearemos as chapinhas CHI, alta tecnologia para seus cabelos!" No centro da sala lotada, 90% por mulheres, estava o senhor Farouk Shami, pequenino, pele esticada, abraçado a várias louras oxigenadas pelo menos dois palmos mais altas que ele, exibindo orgulhosas seus cabelos lisíssimos. Ele sorria ainda mais orgulhoso que elas, tocando e cheirando seus cabelos num momento &lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Hugh_Hefner"&gt;Hug Hefner&lt;/a&gt; de ser, enquanto os flashes não paravam de brilhar. Apesar de achar tudo aquilo deliciosamente bizarro, entrei na fila para pegar meu kit CHI com shampoo, condicionador, spray de brilho e um panfleto de "Farouk Shami para Governador do Texas 2010". Abracei meu ondulado e deixei a chapinha pra outro dia. Saí dali pensando: isto sim é que é comício! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SvSqWniGsvI/AAAAAAAAAsY/ysm2DdLspEU/s1600-h/farouk+antes.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 200px; height: 316px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SvSqWniGsvI/AAAAAAAAAsY/ysm2DdLspEU/s320/farouk+antes.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5401129158669939442" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SvSqf146gPI/AAAAAAAAAsg/XZ6G0zp8fTU/s1600-h/farouk+depois.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 265px; height: 320px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SvSqf146gPI/AAAAAAAAAsg/XZ6G0zp8fTU/s320/farouk+depois.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5401129317142528242" /&gt;&lt;/a&gt; Política, shampoo e chapinha: genial! Este homem realmente é um bravo: não apenas é nascido na Palestina, como também tem nome árabe (pelo menos Barack Housseim Obama já abriu o caminho) e quer concorrer a governador pelo partido Democrata em um dos estados mais conservadores dos Estados Unidos, distribuindo ao Texas cabelos mais belos e lisos. Nem &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Odorico_Paragua%C3%A7u"&gt;Odorico Paraguaçú&lt;/a&gt; seria tão criativo. Como as fotos mostram, para sua campanha ele deu uma turbinada no visual. Nada de bolsinha sob os olhos: bolsinhas agora, só com shampoo dentro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quem disse que o Brasil é o país da piada pronta? Vem para o Texas você também, vem!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3979598438513650907-4796516683672957791?l=fronteirices.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fronteirices.blogspot.com/feeds/4796516683672957791/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/11/politica-de-chapinha.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/4796516683672957791'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/4796516683672957791'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/11/politica-de-chapinha.html' title='Política de chapinha'/><author><name>Desbra Vando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02847300063164608569</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SvSpExBJTkI/AAAAAAAAAsI/_Y7HX3wuHJo/s72-c/chi-gf1051.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3979598438513650907.post-4250714276528058066</id><published>2009-10-26T10:58:00.000-07:00</published><updated>2009-11-06T10:28:58.688-08:00</updated><title type='text'>"Yes, I do"</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SucV4uH1lII/AAAAAAAAArg/N-pgr3N7qMU/s1600-h/118600029_hM6W484x_IMG_9793.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 320px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SucV4uH1lII/AAAAAAAAArg/N-pgr3N7qMU/s400/118600029_hM6W484x_IMG_9793.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5397306742624588930" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Dizem que quando você passa por uma situação de morte iminente sua mente produz um curta-metragem que resume sua vida em segundos. No dia do meu casamento, algo semelhante ocorreu comigo, porém com uma diferença em conteúdo: vi a minha vida amorosa passar na minha frente em segundos. Segundos que iam e voltavam ao longo de todo o dia 16 de outubro de 2009. Não é à toa: sair da solteirice e tornar-se Sra. Seu Marido é também uma espécie de morte. Mas nada de luto e sentimentos negativos: falo aqui da morte como renovação, conforme é interpretada pelos mexicanos dos dois lados desta fronteira onde temporariamente habito. Finda-se uma fase e começa-se outra. E a minha nova fase, com assinatura registrada em cartório, testemunhas e alianças, foi sacramentada num final de tarde quente, úmido e lindo do outono texano, sob uma chuva de milhares de borboletas que enfeitaram o Lago Casablanca como confeti da natureza enviado especialmente para brindar os noivos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O formato final do casamento surgiu apenas três semanas antes da data oficial. W., que no passado se casou com todas as pompas, queria fazer do seu segundo casamento uma cerimônia extremamente simples. Como casamento é também negligenciar certas vontades, acabei cedendo: em comum acordo, optamos por um formato tradicional de casamento em cartório apenas com a presença de duas testemunhas. O modelo mais simples e o mais absolutamente nada a ver comigo. Nunca sonhei com festão de casamento, nem com igreja enfeitada, nem mesmo com casamento em igreja. Mas também jamais pensei em fazer algo tão burocrático. À medida em que a data se aproximava, eu já pressentia um arrependimento que duraria pelo resto da vida. Além da minha própria vozinha interior, eu também escutava de amigas casadas (algumas pela segunda vez) e amigas divorciadas que deveríamos fazer alguma celebração. Existem momentos que definitivamente devem ser celebrados, empanados em purpurina, sorrisos de amigos e bênçãos da família, e casamento é certamente um deles. Casar não é igual ir a padaria comprar pão. Você está comprando uma viagem alucinante, sem roteiro detalhado, apenas uma vaga idéia baseada nas experiências alheias e no seus instintos mais viscerais. Foi em setembro, quando eu encontrei meu vestido de noiva perambulando pelo shopping Mall del Norte, que a entidade burocrática que havia encarnado em mim começou a ser exorcizada. E num único telefonema que dei para a juíza confirmando a data da cerimônia, todos os detalhes do que seria a minha boda-tudo-a-ver-comigo surgiram como se eu já os tivesse ensaiado ao longo dos anos. Mal acreditei quando W. não apenas concordou com o formato final, como também quando seus pequenos olhinhos verdes brilharam mais fortes quando mencionei os pequenos detalhes que tinha em mente.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Algumas fortes emoções acompanharam os últimos momentos da preparação da boda. Pavor e pânico número um: dois dias antes do casório, o zíper do vestido não fechava nem a pau! Tentei acreditar que era o fecho que estava duro, mas tive que encarar a realidade: de todas as noiva que conheci, eu fui a única que engordou. Corri para a loja desesperada e ufa, um último número num tamanho imediatamente maior ainda estava no cabide. O ajuste ficou perfeito e a saga da busca pelo tão adorado vestido finalmente acabava ali. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pavor e pânico número dois: a cinco dias do casório a aliança de W. ainda estava na Irlanda. W., que tem ascendência irlandesa, havia escolhido um modelo celta. Eu comprei a jóia pela Internet um mês antes do casamento e jamais poderia prever tamanha demora na entrega. Acompanhamos ansiosos o percurso da aliança pelo link do site dos correios. Um dia antes da cerimônia a aliança finalmente chegou a Laredo. Entrei em contato com os correios, que para aumentar o suspense explicou que a aliança seria entregue até as 15h do dia do casamento --sendo que a cerimônia estava marcada para as 17h! --e que antes desta tentativa de entrega não poderíamos buscar a encomenda pessoalmente. Eu já previa uma daquelas alianças de doce de criança sendo usada como substituta. Na manhã do grande dia, W. contou que se casava naquela tarde e conseguiu convencer os correios a entregar o pacote antes do horário de entrega oficial. Em Laredo, tudo é possível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O relato do dia do meu casamento com W. começa com o detalhe pensado após todos os outros detalhes: o dia de noiva. Fiz questão de que fosse digno da minha purpurinice. Apesar do dinheiro contado em minhas parcas economias, não hesitei em ir no melhor salão e &lt;em&gt;day spa&lt;/em&gt; da cidade. Comecei com uma sauna para desintoxicar meu corpo de qualquer medo e insegurança (a noiva que disser que não sentiu uma pontada destes sentimentos no dia do seu casamento está mentindo). Dali, segui para uma salinha escura de repouso que tinha na parede uma grande foto iluminada mostrando uma caudalosa fonte, como que para levar sua mente embora naquela espuma branca. Me ofereceram água ou vinho: não hesitei em escolher o chardonnay. Com o estômago vazio, o vinho começou a surtir uma deliciosa e relaxante embriaguez. Naquele momento, o filminho da vida amorosa começou a rodar: as brincadeiras de casinha na infância (curiosamente, eu e minhas amigas quase sempre dizíamos que o marido estava viajando); a primeira paixãozinha do colégio; o primeiro beijo aos 12 anos; os amores da adolescência; os amores da vida adulta; os homens que me endeusaram; os homens que não me valorizaram; os homens que viraram amigos; os homens cujos corações eu parti...todos, até culminar com a cena daquela manhã, em que eu e W. acordamos juntos e a primeira coisa que ouvi foi "feliz dia de casamento, meu amor". Naquela sala, o compartimento sentimental da minha mente estava a mil. Pensei na cerimônia que seria dali a poucas horas, lembrei dos familiares e amigos que não estariam presentes. Uma lágrima escorreu involuntariamente, mas nada disto, o momento é de alegrias, se eu pudesse fretava um avião e traria todos para cá, ou voaríamos até o Caribe e faríamos um luau por três dias e três noites sem parar, ou colocaria todos num barco no Rio São Francisco e comeríamos bode assado durante uma semana ou então... "Senhora, por favor me acompanhe para sua hidromassagem". Aquele frenesi de neurônios fez uma breve pausa durante os segundos entre a sala de repouso e a hidro. Mas foi apenas deitar naquela banheira para os próximos 40 minutos de uma intensa hidromassagem em leite de coco combinada com a fantástica massagem pelas mãos de uma massoterapeuta, para o burburinho de neurônios voltar. Eu boiava sobre a água naquele quarto à meia-luz com cheiro de fruta, cheiro de vela e música de meditação. Eu me purificava naquela água e nela me batizava, deixando para trás minha solteirice, todas as suas alegrias e dores, e entrava num casamento, com igualmente todas as suas dores e alegrias. Um pé no sonho e outro na realidade, cada um tem que encontrar sua forma de equilíbrio. Já refeita do meu momentâneo delírio catártico, parti para o último tratamento, mais uma hora de massagem sueca profundamente relaxante. Terminei meu combo-Cleópatra me sentindo uma pena de tão leve e tranquila. Tomei uma ducha forte e segui para a área do salão de beleza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma semana antes eu havia ido ao salão para deixar todo o pacote pago e escolher o meu penteado. Tinham até tirado uma fotocópia do modelo que gostei e deixado separado para o dia oficial. Claro que vida sem emoção não é nada: no dia oficial perderam a foto. A cabeleireira fez um penteado que até hoje fico na dúvida se gostei ou não. Era definitivamente um ninho de passáros. Tinha ao mesmo tempo uma anarquia e uma harmonia que me encantava e me repelia. No ano passado fui ao casamento da minha amiga Cecília e me arrumei juntamente com ela e sua mãe no mesmo salão. Achei lindo mãe e filha compartilhando aquele momento -- há algo de poderoso neste processo de embelezamento onde criadora e criatura interagem -- e desejei desde então que o mesmo ocorresse comigo. Desejo atendido: minha mãe, que há apenas dois dias havia retornado a Laredo especialmente para celebrar a data, chegou ao salão. Com o cabelo aprovado pela progenitora, era hora de seguir para a maquiagem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu temia que me deixassem com cara de &lt;em&gt;drag queen&lt;/em&gt;, a maquiagem oficial de Laredo, seguida do estilo "gueixa latina". As lareirenses adoram uns looks pavorosos seja dia ou noite, baixo sol ou chuva: argamassa de base e pó, blush em excesso, sombra escura e pesada, delineador da grossura de um dedo e cílios grudados por dezenas de camadas de máscara. Mas a minha maquiagem foi nota 10. Gostei tanto do serviço que desejei nunca mais lavar meu rosto. O buquê chegou da floricultura e eu me enamorei com a delicadeza das rosas brancas. Estava lindo, discreto e elegante. Eu já era um projeto quase pronto de noiva. Também havia encomendado uma orquídea natural para meu cabelo, mas não caiu bem. Por sorte, o salão vendia acessórios e achei um enfeite com pérolas que combinou perfeitamente com a ocasião. Coloquei o vestido e eis que diante do espelho vi uma noiva de verdade. Uma noiva bem eu, com um vestido que não era uma fantasia de noiva, mas um vestido eu com cara de noiva. Um vestido curtésimo, o que levou minha mãe a falar incessantemente, até minutos antes da cerimônia, que eu deveria usar uma meia fina, algo que certamente não fiz. Uma noiva rechonchuda comparada com meu peso normal,com braços e pernas grossas, mas gostando muito do conjunto que via. E eu não queria mais largar aquele buquê. Incorporei a noiva, encarnei a personagem e parti para a cerimônia escoltada por minha mãe, o padrasto de W. e sua esposa, que juntamente com as três sobrinhas de W. pegaram estrada e avião de Kansas e Maryland para celebrar o momento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SucWK-B7OXI/AAAAAAAAAro/i9woTmGxt3M/s1600-h/118600020_f7Bwl9NB_IMG_9749.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 205px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SucWK-B7OXI/AAAAAAAAAro/i9woTmGxt3M/s320/118600020_f7Bwl9NB_IMG_9749.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5397307056132405618" /&gt;&lt;/a&gt; Chegamos ao Lago Casablanca e uma nuvem de milhares de borboletas de várias cores nos recebeu, pequenos leques flutuantes abanando o calor daquele final de tarde. O tempo amanheceu nublado naquela sexta-feira, mas duas horas antes da cerimônia, abriu: o sol saiu completamente, dourado e morno, emoldurado por um céu azul de esparças nuvens. Uma monarca pousou no meu buquê. A natureza celebrava com delicadeza e graça. Uma brisa constante soprava nossos cabelos. Não quis me importar mais com laquê: daquela hora em diante deixei o vento soprar, o cabelo assanhar, o salto doer, o batom escorrer. O barco que serviria de altar estava decorado com flores brancas. O barco que simbolizava a grande jornada na qual estávamos embarcando e que nos traria sorte para passarmos a vida viajando como sempre sonhamos. A violinista tocava Bach. Passageiros e tripulação somavam 13 pessoas, número forte: minha mãe, os padrastos e sobrinhas de W., a juíza amiga de faculdade de W., o casal de testemunhas, a violinista e o amigo capitão do barco. Decidi de última hora que queria ser levada até W. por minha mãe. Ele me esperava no barco vestindo camiseta preta, blazer e calça marfim, combinando com meu vestido. Eu não conseguia parar de sorrir. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Navegamos até o meio do lago. No percurso, famílias e pescadores prestavam atenção no barco florido. Ancoramos e então, em meio às águas do Casablanca, a juíza leu os votos oficiais de casamento. Só ali foi que a ficha caiu completamente: era tudo verdade, eu estava me casando e aquilo ali não era encenação. Eu estava me casando, e &lt;em&gt;in English&lt;/em&gt;.  Eu estava me casando com W., meu amigo que conheci há nove anos e que em menos de dez meses de namoro, duas idas dele ao Brasil e duas vindas minhas ao Texas, virou meu amor, meu esposo, meu digníssimo marido. Prestei atenção no discurso breve da juíza e também gostei do que ouvi: que a vida a dois não será fácil e que será preciso ter muita força de vontade para superar as dificuldades. É bom ser avisada destas cláusulas contratuais emocionais. Eu e W. também lemos em voz alta um voto de casamento celta que escolhi em sua homenagem. O que mais me encantou neste voto foi que trata o homem e a mulher como iguais, nenhum dono do outro, mas ambos pessoas livres que oficializam por vontade própria que cuidarão um do outro. As cerimônias de casamento celtas eram realizadas por uma sacerdotiza, portanto foi uma bem-vinda coincidência (existem coincidências?) que tivemos uma juíza celebrando a nossa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SucWge-uxcI/AAAAAAAAArw/TA3789fRyz4/s1600-h/118600010_L6KFvwpo_IMG_9705.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 214px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SucWge-uxcI/AAAAAAAAArw/TA3789fRyz4/s320/118600010_L6KFvwpo_IMG_9705.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5397307425754629570" /&gt;&lt;/a&gt; Trocamos as alianças -- e pela primeira vez vi sua reluzente e dourada aliança celta fazendo par com meu diamante de noivado. "Yes, I do", ele disse. "Yes, I do", eu disse. O beijo. Por fim, incorporamos um ritual brasileiro de ano novo, porque assim como o ano novo o casamento é um começo: cada convidado recebeu uma rosa branca e fez um desejo ao seu Deus pedindo bênçãos aos noivos. Havia cristãos, judeus e mulçumanos reunidos.Em seguida, todos jogaram as rosas ao lago. Nosso lago de rosas. Treze rosas brancas alimentando as águas. Fiz um breve discurso de agradecimento aos que estavam presentes. A voz embargou e as lágrimas escorreram. Estouramos champanhe e comemos os bem-casados e alfajores que minha vizinha petrolinense que fez questão de enviá-los. Borbulhas e doces para brindar a nova vida, do jeito que eu gosto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dali partimos para jantar num tradicional hotel de Laredo, o La Posada, num esquema super informal de cada convidado pagando o seu jantar. Aproximadamente outros 10 convidados se juntaram a nós. Partimos o bolo encomendado especialmente para cerimônia. Juntamos todas as solteiras e nos dirigimos ao pátio. Tirei o salto alto e me deixei ainda mais à vontade. Começar a vida nova sem torturas! Subi uma escadinha e joguei para trás o buquê de rosas brancas que caíram nas mãos da minha instrutora de hidroginástica, que não apenas tem se mostrado uma amiga querida, como também tem uma longa história de amor com o Brasil. Não, certas coisas não podem ser apenas coincidências.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tantas bênçãos, tantos símbolos, tantos planos, tantos desejos de sermos o melhor que podemos ser. Tantas decisões tomadas em nome de se iniciar uma família, como a minha decisão de mudar de sobrenome. Jamais imaginei que faria isto. Não faço parte de nenhuma família tradicional ou conhecida, mas sempre tive orgulho do nome que fui registrada. Por que eu tenho que mudar e não meu marido? Mas mudei. Foi meu presente a W. e sei que ele gostou, pois não esperava isto de mim. A legislação brasileira não permite que eu omita meu sobrenome, portanto apenas acrescentarei ao final o sobrenome do meu marido. Dentro de casa sinto que algo mudou. Dentro de mim sinto que algo mudou. Me sinto mais segura. Agora esta também é a minha casa. Agora as decisões serão tomadas em conjunto. Agora é oficial e gosto desta sensação de ordem que a oficialização traz. Gostei de morrer solteira para renascer casada. E que venham as outras fases e ritos de passagem. A viagem continua.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3979598438513650907-4250714276528058066?l=fronteirices.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fronteirices.blogspot.com/feeds/4250714276528058066/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/10/yes-i-do.html#comment-form' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/4250714276528058066'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/4250714276528058066'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/10/yes-i-do.html' title='&quot;Yes, I do&quot;'/><author><name>Desbra Vando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02847300063164608569</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SucV4uH1lII/AAAAAAAAArg/N-pgr3N7qMU/s72-c/118600029_hM6W484x_IMG_9793.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3979598438513650907.post-3805623213671646955</id><published>2009-09-30T07:09:00.001-07:00</published><updated>2009-10-01T12:19:02.690-07:00</updated><title type='text'>Vestido de noiva</title><content type='html'>Por mais independente, bem resolvida e despojada que seja uma mulher; por mais descolada, mais pra frente e mais "muderna" que seja uma mulher; por mais mulherão, mais furacão, mais "tô nem aí" pras instituições que seja uma mulher, no fundo do seu coraçãozinho pulsante ela carrega uma criatura que só usa vestido cor-de-rosa e suspira com pestanas apaixonadas. Esta sósia ao avesso se chama mulherzinha. Uma mulherzinha que sonha com o príncipe encantado na hora de dormir, mesmo que sua plena e intensa vida amorosa a tenha feito compreender que assim como dentro de toda mulher existe uma mulherzinha, dentro de todo homem existe um sapo, muitas vezes um baita dum cururu grande, verde e bizarro. Esta mesma mulherão-mulherzinha que descobriu a intrínseca relação entre humanos e anfíbios (no caso feminino, a perereca é o elo perdido) sonha, desde os tempos de menininha, com aquele dia, o grande dia, o supostamente maior dia da sua existência: aquele em que ela olha nos olhos do seu príncipe-sapo e, explodindo de emoção, diz "sim, serei sua para o resto de nossas vidas." Mas antes de chegar nestes finalmentes, teve um outro detalhe que ela não deixou passar desapercebido: o vestido de noiva. Eis aqui um breve relato do meu momento mulherzinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi sábado passado e fazia um dia lindo, quente e úmido. Numa cidade onde não há nada culturalmente interessante para se fazer, o que se faz? Vai às compras. Saí de casa para uma breve sessão de tortura, sabendo que eu não poderia gastar: apenas para olhar, fazendo as vezes de consumidora inteligente que dificilmente sei ser. Perambulando pelas lojas do shopping, pelos infinitos balcões de maquiagem e prateleiras de sapatos, me dei conta que me casaria dali a menos de um mês. Já estava quase conformada com o formato burocrático do que seria a minha boda: uma visita ao cartório local, uma troca de votos de cinco minutos e que vivam felizes para sempre. A minha mulherzinha já estava morrendo sufocada de tédio com falta de gliter na veia. Parei para um café e a cafeína teve um efeito ressucitador: "não me assassine. Procure um vestido. Um vestido de noiva."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Flasback. Lá nos idos dos anos 80 eu, pirralha, olhava revistas de noivas e procurava pelo modelo ideal. Era uma época de mangas bufantes, horrendas, noivas à la merengue de limão. Achei um tomara-que-caia perdido entre as páginas e fiz ali minha escolha. Vi pela primeira vez que havia vestidos que não eram brancos, mas perolados. Gostei, mas a minha mulherzinha-tradição dizia que para casar, só se fosse de branco. Mesmo que fizessem troça com o fato de casar de branco. Cresci numa terra machista, onde virgindade ainda era trunfo, onde homens e mulheres iam aos casamentos e cochichavam maliciosamente que aquela noiva nunca deveria ter se casado de branco. Ainda: fui criada por uma mãe moderna que dizia que vestido de noiva era algo cafona, coisa de festa a fantasia. Cresci com amigas bem mulherzinhas, mas também com amigas modernas que abafaram suas mulherzinhas e abraçaram a máxima que vestido de noiva é brega. E finalmente: nunca entendi por que minha mãe comprava aquelas revistas, afinal ela não apenas achava vestido de noiva coisa cafona, como também já estava casada há tanto tempo. Minha mãe que casou no cartório de botas de cano alto, saia plissada xadrez, blusa de manga comprida e lenço de seda na cabeça. Quando pequena achava um horror, mas hoje acho o máximo. Mas foi preciso chegar o momento de eu comprar o meu vestido para me dar conta que, como ela não se casou dentro de um, sua mulherzinha certamente aparecia como noiva-fantasma e pedia oferendas em formas de revistas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comecei a entrar de loja em loja procurando um vestido branco. Um vestido branco, curto e moderno. Um vestido que eu pudesse usar depois, que não tivesse cara de festa a fantasia. Um vestido sóbrio porém sexy. Até pouco tempo atrás um editorial da &lt;em&gt;Marie Claire&lt;/em&gt; dizia que branco era o novo preto. Mas certamente esta moda não chegou aqui na fronteira, muito menos nesta entrada de outono repleto de cores escuras. Até achei um perdido numa arara nos fundos de uma loja, mas o tecido era ruim, o corte era ruim, tudo era ruim e eu mal conseguia respirar de tão apertado. Comecei a mudar de idéia e a achar que meu vestido de noiva seria vermelho. Por que não? Minha mulherzinha-libertina começava a dar pulos, golpeando a mulherzinha-tradição. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Flashback. Sou de uma cultura obsecada por casamento, por tradições rígidas para certos ritos de passagem e, consequentemente, pelos vestidos que fazem parte destas tradições.  Eu não tive festa de quinze anos. Nem baile de debutantes. Minha mãe achava cafona. Minhas amigas mais próximas achavam cafona. Eu também achava cafona, mas minha mulherzinha-tradição pestanejava apaixonadamente em segredo com aqueles vestidos de princesa. As aniversariantes e debutantes trocavam até três vezes de roupa na mesma festa. Nos meus quinze anos fui comer pizza trajando um conjuntinho de malha roxo colado no corpo. Nunca vou me esquecer daquele vestidinho. Não porque eu fosse louca por ele, mas porque no fundo ele foi o substituto do vestido branco que eu nunca tive. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Circulei o shopping inteiro. Havia uma última loja, uma enorme loja de departamento para entrar. Resolvi ir embora.  Porém, a alguns passos dali, o resto da cafeína que ainda circulava no sangue me mandou dar meia volta volver.  Um sexto sentido em ação. E eis que no lado esquerdo da escada rolante do segundo andar da Dillard's, eu o encontrei. Ele. O vestido. Tecido maravilhoso, corte impecável. Simples, elegante, sexy e jovial. De marca, BCBG Max Azria, a um preço excelente, "com 20% de desconto somente até amanhã se você preencher esta ficha cadastral." E ainda havia um modelo no meu número. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto o atendente foi buscá-lo, lembrei de um programa na TV que mostrava noivas comprando seus vestidos. Noivas felizes, nervosas e ansiosas com champanhe na mão escolhendo o vestido que usariam uma única vez nas suas vidas. Lembrei de todos os filmes e séries de televisão com cenas de noivas escolhendo seus vestidos. E senti uma vontade enorme de poder compartilhar aquele momento com as minhas amigas, com a minha irmã, com a minha mãe. Contudo, não deixei a melancolia me dominar. Lembrei também que praticamente durante toda a minha vida adulta, estive sozinha enquanto fiz minhas compras de roupas. O atendente chegou. Experimentei o vestido. Ele fechou o zíper nas costas. Ele era gay e fiquei feliz por isto. O caimento ficou perfeito -- verdade, um tantinho de nada apertado no peito, mas não visivelmente apertado. Ele era meu, eu sabia. O vestido de matalassê acetinado de cor perolada com flores aplicadas no busto e laço preto na cintura. Curto. Super curto. Nada de superstições com cores, nada de puritanismo, por favor. Minha mulherzinha-moderna estava embriagada de felicidade. Liguei para o noivo: "&lt;em&gt;honey&lt;/em&gt;, achei." "Hum, que bom. Quanto?" "US$ X". "OK. Pode vir aqui em casa buscar o cartão". Minha mulherzinha-tradição quis que o noivo pagasse pelo mimo. E a mulher dona-de-casa que já compreende os hábitos de compra do seu futuro marido se surpreendeu com o fato de ele não ter hesitado nem por um momento sequer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pedi ao atendente para separar o vestido, enfatizando a cada três palavras que era o meu vestido de casamento. Meu-vestido-de-casamento-OK? O simpático atendente disse que eu não precisava me preocupar. Saí do shopping flutuando. No carro, a caminho de casa, ou melhor, a caminho de buscar o cartão de crédito, liguei o som a toda altura e cantei cada música com toda a força dos meus pulmões durante os 15 minutos de viagem. "Minha pequena Eva, Eeeeeeva, o nosso amor na última astronave, Eeeeva (...)", "E pra vocês eu deixo apenas o meu olhar 43, aquele assim (...)". Eu estava histérica e mesmo que aquelas letras não fizessem qualquer sentido, aquela foi a trilha sonora da minha radiante felicidade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No fundo, eu sabia que não era apenas o vestido. Era ele &lt;em&gt;também&lt;/em&gt;, mas não ele &lt;em&gt;somente&lt;/em&gt;. Era o rito de passagem. A evolução rumo a esta etapa que eu nunca achei de fato que fosse o maior dia na vida de uma mulher, e até duvidei se fosse acontecer um dia comigo. Havia tanta coisa para se fazer nesta vida; casamento era apenas uma consequência, um acaso ou mais uma possibilidade. Continuo achando. Mas minha mulherzinha anda bem sorridente estes dias. Ainda: a partir do vestido, decidi mudar radicalmente o formato de casamento em cartório. Não à burocracia, sim ao gliter! Mas esta história eu deixarei para depois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Momentos mais tarde, já chegando em casa com o vestido em mãos, pedi para W fechar os olhos enquanto eu escondia o mimo no closet. Minha mulherzinha-mulherzinha se deixou levar por superstição: nada do noivo ver o vestido até o dia do casamento. Eu estava feliz. W estava feliz. Ele sabe que tem certas coisas que não se deve nunca negar a uma mulher. Meu sábio príncipe-sapo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3979598438513650907-3805623213671646955?l=fronteirices.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fronteirices.blogspot.com/feeds/3805623213671646955/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/09/vestido-de-noiva.html#comment-form' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/3805623213671646955'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/3805623213671646955'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/09/vestido-de-noiva.html' title='Vestido de noiva'/><author><name>Desbra Vando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02847300063164608569</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3979598438513650907.post-5850306200035189019</id><published>2009-09-19T17:46:00.000-07:00</published><updated>2009-09-19T20:55:46.365-07:00</updated><title type='text'>Zunhe-me</title><content type='html'>Ela tinha as maiores unhas que qualquer mulher dona de casa jamais ousou ter na vida. Unhas gordas e longas. Garras superlativas. Esmalte cor-de-abóbora com cristais na ponta, nenhuma lasca, nenhuma cutícula por fazer, nenhuma sujeira por baixo. Apenas o abóbora reluzindo naquele final de tarde, numa cidade que cheirava a pó quando a chuva chegava. E chovia. Era baixinha. Era larga. Tinha cabelos negros grossos e mal-cuidados. O zelo estava depositado naquelas unhas, naqueles cristais, naquelas pontas quadradas duras como cimento. Quantas manicures vietnamitas por semana? A chuva. Um homem sai do carro. Caminha rápido para não se molhar em direção à mulher de unhas fenomenais. Ele é magro. Ele é franzino. Ela ocupa duas vezes o espaço do seu corpo. Ela sorri com seus olhos pequenos borrados sobrecarregados de sombra, lápis, delineador e rímel. Com o braço esquerdo ele enlaça sua cintura. Ela repousa as intermináveis unhas sobre o seu quadril. Para ele o mundo pode acabar ali. Seu mundo por uma zunhada cor-de-abóbora.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3979598438513650907-5850306200035189019?l=fronteirices.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fronteirices.blogspot.com/feeds/5850306200035189019/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/09/zunhe-me.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/5850306200035189019'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/5850306200035189019'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/09/zunhe-me.html' title='Zunhe-me'/><author><name>Desbra Vando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02847300063164608569</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3979598438513650907.post-3530575088217527887</id><published>2009-09-16T11:23:00.000-07:00</published><updated>2009-09-18T17:02:22.575-07:00</updated><title type='text'>Independência, vencedores e vencidos</title><content type='html'>Em 16 de setembro o México comemorou seu 199o. aniversário de independência do domínio espanhol. É interessante observar como os mexicanos, pelo menos neste aspecto, são bem mais patrióticos que nós brasileiros. Quando eu era criança lá nas brenhas do sertão, eu marchava com a farda de gala do colégio pelas ruas da cidade, seguindo a marchinha da escola e a banda do batalhão militar. Depois disto, 07 de setembro tornou-se apenas mais um feriado para acordar tarde e descansar. Já no México, as &lt;em&gt;fiestas pátrias&lt;/em&gt; são coisa séria. Os mexicanos enfeitam as ruas de vermelho, verde e branco, as cores do país, fazem comidas típicas para esta celebração e reunem-se para festas em casas de familiares e amigos. É um patriotismo que vai além dos desfiles militares que estamos acostumados no Brasil. Há um sentimento civil de patriotismo acima de tudo. Tive a chance de ver isto de perto durante uma viagem à Cidade do México há cerca de quatro anos. Aquela noite no distrito boêmio de Coyoacán, pertinho da casa de Frida Khalo e Diego Rivera, foi uma das mais inesquecíveis que já vivi. Não teve nenhum grande romance, nenhuma grande aventura hollywoodiana. Apenas uma brasileira de coração aberto comendo cactus com tubarão na varanda de um restaurante de culinária &lt;em&gt;fusión &lt;/em&gt;moderninha, brindando com um cara que eu havia conhecido durante o vôo Rio-Cidade do México e que virou meu companheiro de viagem durante aquela semana. Fogos de artifício, barraquinhas de comidas típicas e super exóticas por todos os lados, dança, pimenta e leveza no ar eram o pano de fundo perfeito. Também observei semelhante comemoração no Chile há dois anos, por coincidência também em setembro, indo a suas &lt;em&gt;fondas &lt;/em&gt;regadas a churrasco, empanadas, cerveja e vinhos, tanto em grandes espaços urbanos quanto nas casas de amigos. Deliciosa experiência, mas que me perdoem os chilenos patriotas: eles não chegam perto do tempero que o México tem. Deve ser o &lt;em&gt;chilli &lt;/em&gt;azteca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Laredo, Texas, tentou colocar tempero na sua festinha, mas a coisa ainda assim ficou meio morna, faltando faísca. De toda forma, foi prazeiroso ver aquela gente toda reunida no mormaço noturno na Plaza San Agustín, no centro histórico da cidade, celebrando sua herança histórica e cultural.  A comemoração ocorreu um dia antes da celebração oficial. O motivo é simples: com Nuevo Laredo, México, a apenas um cruzar de rio, uma festa no dia 16 de setembro ficaria praticamente vazia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A noite teve direito a danças típicas, geralmente belas moças sendo cortejadas por rapazes, tudo num estilo meio inocente e campestre; desfile de "rainhas" dos estados mexicanos (como eles adoram isto! Tem rainha pra tudo, igualzinho ao Brasil. Olha que eu já fui rainha do milho no século passado!);cantores com nomes como Danilo Daniel; grupos de mariachis; banda do batalhão de Nuevo Laredo; barraquinhas de &lt;em&gt;tacos &lt;/em&gt;e &lt;em&gt;jamaicas&lt;/em&gt;, um suco à base de hibisco. E belas pequenas cenas, como a menininha flamulando a bandeira mexicana duas vezes maior do que ela. Algumas mulheres e crianças vestiam roupas típicas, como aquelas belas batas de bordados coloridos que eu uso constantemente para ficar em casa. Havia um vendedor de bandeiras com a metade do rosto tapado por uma delas. Membros da Igreja Cristã Misericórdia aproveitando a aglomeração para entregar panfletos de "El infierno: la decisión es tuya". Um organizador de eventos distribuindo os panfletos do show da cantora pop Paulina Rubio com suas pernocas à mostra. Um padre tomando Coca-Cola em frente ao coreto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em meio a tanta informação, na minha cabeça ecoava o comentário que minha mãe fez outro dia quando falávamos sobre os vencedores e os vencidos da guerra entre Estados Unidos e México em meados do século XIX. Sim, os EUA venceram militarmente, levando o México a se render e a entregar alguns dos seus territórios, incluíndo o Texas. Mas e o legado cultural deixado pelos "vencidos?" A influência mexicana é muito forte na culinária, nas artes, na cultura, no idioma. Se olharmos por este aspecto, quem de fato é o grande vencedor? Senti uma certa ironia com aquela bem-vinda celebração da história mexicana em solo americano. E, em coro com o cônsul-geral do México que ostentava a bandeira de seu país na sacada do Hotel La Posada, logo após cantarem o hino nacional, também gritei: "Viva México!"&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SrPFagkiz8I/AAAAAAAAArA/A26psXniaq4/s1600-h/Texas+ago+e+set+2009+014.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 240px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SrPFagkiz8I/AAAAAAAAArA/A26psXniaq4/s320/Texas+ago+e+set+2009+014.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5382863038848356290" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SrPFZ6xy_dI/AAAAAAAAAq4/qrAOLr6lhS8/s1600-h/Texas+ago+e+set+2009+019.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 240px; height: 320px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SrPFZ6xy_dI/AAAAAAAAAq4/qrAOLr6lhS8/s320/Texas+ago+e+set+2009+019.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5382863028703395282" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SrPFZR_j09I/AAAAAAAAAqw/HbmqPNKEN8U/s1600-h/Texas+ago+e+set+2009+026.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 240px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SrPFZR_j09I/AAAAAAAAAqw/HbmqPNKEN8U/s320/Texas+ago+e+set+2009+026.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5382863017755268050" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SrPFY_gisDI/AAAAAAAAAqo/ul096mmIJjg/s1600-h/Texas+ago+e+set+2009+021.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 240px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SrPFY_gisDI/AAAAAAAAAqo/ul096mmIJjg/s320/Texas+ago+e+set+2009+021.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5382863012793331762" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SrPFYIk0API/AAAAAAAAAqg/_zANDcYQK7A/s1600-h/Texas+ago+e+set+2009+006.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 240px; height: 320px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SrPFYIk0API/AAAAAAAAAqg/_zANDcYQK7A/s320/Texas+ago+e+set+2009+006.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5382862998047293682" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3979598438513650907-3530575088217527887?l=fronteirices.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fronteirices.blogspot.com/feeds/3530575088217527887/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/09/independencia-vencedores-e-vencidos.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/3530575088217527887'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/3530575088217527887'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/09/independencia-vencedores-e-vencidos.html' title='Independência, vencedores e vencidos'/><author><name>Desbra Vando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02847300063164608569</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SrPFagkiz8I/AAAAAAAAArA/A26psXniaq4/s72-c/Texas+ago+e+set+2009+014.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3979598438513650907.post-2850055952887285377</id><published>2009-09-14T18:46:00.000-07:00</published><updated>2009-09-16T08:48:41.490-07:00</updated><title type='text'>Éramos três na estrada</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/Sq76OZgcPwI/AAAAAAAAApw/8mG9iExYAfo/s1600-h/Texas+ago+e+set+2009+140.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 300px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/Sq76OZgcPwI/AAAAAAAAApw/8mG9iExYAfo/s400/Texas+ago+e+set+2009+140.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5381513730026389250" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Eram três pessoas na estrada, três pessoas felizes na estrada, um homem compenetrado que conduzia e duas mulheres que sorriam na estrada e falavam da estrada e da cor do mato, e do verde do mato, e daquele céu de tantas nuvens, e da forma que as nuvens tomavam na estrada, tanta metamorfose de nuvens na estrada, um pássaro que ela viu eu também vi, e virou um avião e virou um míssil, como assim mudamos de pássaro para míssil? mas podemos também, um dia somos livres, outro dia detonamos bombas suicidas, mas ali na estrada não havia suicídio, havia três pessoas, três pessoas felizes na estrada, um homem que pegava na mão da sua mulher e duas mulheres que sorriam sem parar e brincavam com a luz, com aquele banho de sol dourado no final da tarde, mulheres que sorriam ao se fotografar, que bela e inocente brincadeira narcisista para não perder aquela luz que vinha daquele buraco no céu, e do oeste a noite descia seu manto preto-carvão e lá no leste a luz explodia alaranjada, aquele céu que a apenas oito metros era um céu de dilúvio, vimos um pedaço de fim de mundo ali na estrada, não enxergávamos um palmo à nossa frente, e chovia grosso, e chovia muito, e chovia uma nuvem negra sobre nossas cabeças, mas estávamos na nossa arca, protegidos por gargalhadas e por um arco-íris que se formou lá atrás no norte, porque embarcávamos rumo ao sul, mas sul e norte são tão relativos e para que tanta bússola nesta vida se de repente a vida chega num só fôlego, porque o  fôlego foi nossa primeira voz, a minha, a dele, a dela e a sua, e é assim mesmo nesta vida, às vezes tudo chega num só fôlego, um fôlego que dura uma risada, uma risada que dura uma estrada e afe, eu prefiro viver assim, num fôlego interminável, no meio de uma estrada que chove, no meio de uma estrada que ilumina, do meio de uma gente que se metamorfoseia no melhor que consegue ser.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3979598438513650907-2850055952887285377?l=fronteirices.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fronteirices.blogspot.com/feeds/2850055952887285377/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/09/eramos-tres-na-estrada.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/2850055952887285377'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/2850055952887285377'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/09/eramos-tres-na-estrada.html' title='Éramos três na estrada'/><author><name>Desbra Vando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02847300063164608569</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/Sq76OZgcPwI/AAAAAAAAApw/8mG9iExYAfo/s72-c/Texas+ago+e+set+2009+140.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3979598438513650907.post-6207206590036824565</id><published>2009-09-08T11:58:00.000-07:00</published><updated>2009-09-14T19:28:11.101-07:00</updated><title type='text'>As ruas fictícias de Laredo</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/Sqci1SpzwwI/AAAAAAAAApg/FiqV1Frpblc/s1600-h/texsiena.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 234px; height: 320px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/Sqci1SpzwwI/AAAAAAAAApg/FiqV1Frpblc/s320/texsiena.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5379306578852954882" /&gt;&lt;/a&gt;  Meu pai conhecia Laredo muito antes da minha chegada a estas terras. Não que tenha colocado os pés aqui antes, mas leitor voraz das aventuras em quadrinhos de &lt;a href="http://www.texbr.com/texnormal.htm"&gt;Tex Willer&lt;/a&gt;, o herói fazendeiro americano que personifica as aventuras do velho oeste, já conhecia de forma romantizada os entornos desta região. Conforme o princípio da sincronicidade ("as coisas dão certo quando têm que dar"; ou, idem à lei de Murphy, "quando é pra dar merda espere uma diarréia"), às vésperas da minha mudança para esta cidade ele quis mostrar ao seu futuro genro o seu fascínio por este universo eternizado em gibis e filmes de bang-bang. &lt;em&gt;Pausa para um suspiro globalizado: meu pai baiano, na sua cidade pernambucana, mostrava ao seu genro americano um gibi italiano traduzido para o português sobre uma aventura que se passava na fronteira texano-mexicana&lt;/em&gt;. Ao acaso, retirou da estante um dos exemplares da sua vasta coleção e eis que na primeira página da reedição de "Missão Suicida," publicada pela primeira vez em 1979, estavam Laredo e Nuevo Laredo às margens do Rio Grande num mapa simplificado do sul do Texas. Como não sorrir com estes pequenos sinais (de que nada é por acaso, de que há um plano maior para nossas comuns vidas etc etc etc) que ornamentam minha por vezes cética mente? Lembro que naquele exato momento, mesmo sendo um pontinho preto num canto esquerdo de uma página de quadrinhos, Laredo não apenas parecia menos remota, como também ganhava uma certa grandiosidade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poucas semanas mais tarde já nas bandas do norte, numa noite boêmia regada a vinho, W me surpreende tocando no computador pelo menos cinco versões de uma linda canção, algumas nas vozes de ninguém menos que Johnny Cash e Joan Baez. Bela e triste, é a balada de um jovem cowboy em seu leito de morte após haver sido baleado no peito. A cera dos meus ouvidos derreteu imediatamente ao saber o título: &lt;em&gt;The streets of Laredo&lt;/em&gt;, ou "As Ruas de Laredo". Em pesquisas posteriores, descubro que ela tem origens no século XVIII e portanto várias versões, não sendo atribuída a nenhum autor específico. Num contexto mais pop também fez parte da trilha sonora do filme &lt;em&gt;O segredo de Brokeback Mountain&lt;/em&gt;. Perdoem minha ignorância, mas acreditava até então jamais haver escutado esta música. E Laredo, perdoe minha arrogância, mas também não fazia idéia do seu prestígio. No final deste post encontra-se a letra com uma tradução que acabei de improvisar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;object width="425" height="344"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/tSzfWLlvlAE&amp;hl=en&amp;fs=1&amp;"&gt;&lt;/param&gt;&lt;param name="allowFullScreen" value="true"&gt;&lt;/param&gt;&lt;param name="allowscriptaccess" value="always"&gt;&lt;/param&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/v/tSzfWLlvlAE&amp;hl=en&amp;fs=1&amp;" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="425" height="344"&gt;&lt;/embed&gt;&lt;/object&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais uma pesquisa e descubro que existe um filme de 1949 também entitulado &lt;a href="http://www.imdb.com/title/tt0041929/plotsummary"&gt;&lt;em&gt;The streets of Laredo&lt;/em&gt;. &lt;/a&gt;A estória se passa no Texas em 1878 e narra as aventuras dos amigos de infância Jim, Lorn, Wahoo e Rannie. Jim vira fora-da-lei, Lorn e Wahoo viram &lt;em&gt;Texas Rangers&lt;/em&gt; e Rannie precisa escolher entre o amor de Lorn e Jim. Para completar o meu total arreganhamento de mandíbulas, entre 1967 e 1969, a rede de TV americana NBC exibiu um seriado chamado &lt;em&gt;&lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Laredo_(TV_series)"&gt;Laredo&lt;/a&gt;&lt;/em&gt;. Misturando humor e ação, também tinha os &lt;em&gt;Texas Rangers&lt;/em&gt; como protagonistas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;object width="425" height="344"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/KuM4E2Jw4aU&amp;hl=en&amp;fs=1&amp;"&gt;&lt;/param&gt;&lt;param name="allowFullScreen" value="true"&gt;&lt;/param&gt;&lt;param name="allowscriptaccess" value="always"&gt;&lt;/param&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/v/KuM4E2Jw4aU&amp;hl=en&amp;fs=1&amp;" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="425" height="344"&gt;&lt;/embed&gt;&lt;/object&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então Laredo não é tão esquecida. Ou melhor: Laredo é de fato uma cidade lembrada, musa inspiradora -- ou pelo menos assim foi até o final da década de 1960. Existe um nicho que a reconhece, nem que seja através da sua forma fictícia e romantizada: seus cowboys, seus ranchos, seus cactus, seus cavalos. Tudo isto ainda vivo na realidade além-vídeo, tudo isto também já modernizado e transformado: cavalos brancos por todos lados em formas de grandes pickups 4x4; um cowboy paraplégico de chapéu, bota e cinturão na sua cadeira de rodas motorizada escolhendo cereal no corredor do supermercado. Eu ainda não vi, mas minha mãe disse que domingo pela manhã bem na frente da minha casa havia um cowboy montado num grande cavalo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Existe uma Laredo viva na mente de aficcionados por faroeste que habitam o sertão pernambucano ou remotas colinas de vilas italianas. Existe uma Laredo eternizada numa bela canção de conteúdo agonizante, em clipes de You Tube, nos bites e baites de uma Internet que tudo armazena e tudo expõe. Existe uma Laredo cuja fama atravessa gerações. Existe, neste ano de 2009, a minha tentativa de conhecer esta cidade, mas entendo que minha vaidade a aceita, quase sempre, apenas como pano de fundo para meu auto-conhecimento. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;The Streets of Laredo&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Versão Johnny Cash&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As I walked out on the streets of Laredo.&lt;br /&gt;(Enquanto eu caminhava pelas ruas de Laredo)&lt;br /&gt;As I walked out on Laredo one day,&lt;br /&gt;(Enquanto eu caminhava por Laredo um dia)&lt;br /&gt;I spied a poor cowboy wrapped in white linen,&lt;br /&gt;(Eu espiei um pobre cowboy envolto em linho branco)&lt;br /&gt;Wrapped in white linen as cold as the clay.&lt;br /&gt;(Envolto em linho branco tão frio quanto a argila)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"I can see by your outfit that you are a cowboy."&lt;br /&gt;(Eu posso ver pela sua vestimenta que você é um cowboy)&lt;br /&gt;These words he did say as I boldly walked by.&lt;br /&gt;(Estas foram as palavras que ele disse enquanto eu vigorosamente passei ao seu lado)&lt;br /&gt;"Come an' sit down beside me an' hear my sad story.&lt;br /&gt;(Venha e sente-se ao meu lado e escute minha triste história)&lt;br /&gt;"I'm shot in the breast an' I know I must die."&lt;br /&gt;(Fui baleado no peito e sei que devo morrer)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"It was once in the saddle, I used to go dashing.&lt;br /&gt;(Uma vez sobre a sela eu costumava seguir impetuoso)&lt;br /&gt;"Once in the saddle, I used to go gay.&lt;br /&gt;(Uma vez sobre a sela eu costumava me animar)&lt;br /&gt;"First to the card-house and then down to Rose's.&lt;br /&gt;(Primeiramente no jogo e depois na casa de Rose)&lt;br /&gt;"But I'm shot in the breast and I'm dying today."&lt;br /&gt;(Mas estou baleado no peito e estou morrendo hoje)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Get six jolly cowboys to carry my coffin.&lt;br /&gt;(Traga seis animados cowboys para carregarem meu caixão)&lt;br /&gt;"Six dance-hall maidens to bear up my pall.&lt;br /&gt;(Seis dançarinas de salão para colocarem minha mortalha)&lt;br /&gt;"Throw bunches of roses all over my coffin.&lt;br /&gt;(Joguem muitas rosas sobre meu caixão)&lt;br /&gt;"Roses to deaden the clods as they fall."&lt;br /&gt;(Rosas para amortecer a terra enquanto ela cai)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Then beat the drum slowly, play the Fife lowly.&lt;br /&gt;(Então batam o tambor lentamente, toquem o pífano bem baixo)&lt;br /&gt;"Play the dead march as you carry me along.&lt;br /&gt;(Toquem a marcha fúnebre enquanto vocês me carregam)&lt;br /&gt;"Take me to the green valley, lay the sod o'er me,&lt;br /&gt;(Levem-me para o vale verde e joguem a terra sobre mim)&lt;br /&gt;"I'm a young cowboy and I know I've done wrong." &lt;br /&gt;(Eu sou um jovem cowboy e sei que fiz coisas erradas)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Then go write a letter to my grey-haired mother,&lt;br /&gt;(Então escreva uma carta para minha mãe de cabelos grisalhos)&lt;br /&gt;"An' tell her the cowboy that she loved has gone.&lt;br /&gt;(E diga-lhe que o cowboy que ela amava partiu)&lt;br /&gt;"But please not one word of the man who had killed me.&lt;br /&gt;(Mas por favor nenhuma palavra sobre o homem que me matou)&lt;br /&gt;"Don't mention his name and his name will pass on."&lt;br /&gt;(Não mencionem o seu nome e seu nome sobreviverá)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;When thus he had spoken, the hot sun was setting.&lt;br /&gt;(Então quando ele terminou de falar, o sol estava se pondo)&lt;br /&gt;The streets of Laredo grew cold as the clay.&lt;br /&gt;(As ruas de Laredo ficaram frias como a argila)&lt;br /&gt;We took the young cowboy down to the green valley,&lt;br /&gt;(Levamos o jovem cowboy para o vale verde)&lt;br /&gt;And there stands his marker, we made, to this day.&lt;br /&gt;(E até hoje ainda está lá a sua lápide que nós fizemos)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;We beat the drum slowly and played the Fife lowly,&lt;br /&gt;(Nós batemos o tambor lentamente e tocamos o pífano bem baixo)&lt;br /&gt;Played the dead march as we carried him along.&lt;br /&gt;(E tocamos a marcha fúnebre enquanto o carregávamos)&lt;br /&gt;Down in the green valley, laid the sod o'er him.&lt;br /&gt;(Para o vale verde, onde jogamos terra sobre ele)&lt;br /&gt;He was a young cowboy and he said he'd done wrong.&lt;br /&gt;(Ele era um jovem cowboy e disse que havia feito coisas erradas)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3979598438513650907-6207206590036824565?l=fronteirices.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fronteirices.blogspot.com/feeds/6207206590036824565/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/09/as-ruas-ficticias-de-laredo.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/6207206590036824565'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/6207206590036824565'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/09/as-ruas-ficticias-de-laredo.html' title='As ruas fictícias de Laredo'/><author><name>Desbra Vando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02847300063164608569</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/Sqci1SpzwwI/AAAAAAAAApg/FiqV1Frpblc/s72-c/texsiena.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3979598438513650907.post-3284106574804579123</id><published>2009-09-04T11:58:00.000-07:00</published><updated>2009-09-04T14:52:21.304-07:00</updated><title type='text'>Caipirinha, milk shake, uma fada surrada e mais um ano que entra</title><content type='html'>Nunca fui de ficar reclusa no meu aniversário. Sempre gostei de festa, comemoração, bolo e gente por perto. Por mais que tenha passado a crer em mapa astrológico, nunca engoli esta história de inferno astral que precede o mês do nosso nascimento. Nos anos que achei que isto poderia estar ocorrendo, me dei conta que eu é quem tinha alimentado meus próprios demônios e criado alguns infernos (antes fossem inferninhos). Tenho amigos que viram ostra, amigos que choram ou que preferem sair para jantar com o mínimo possível de pessoas. Respeito. Mas 02 de setembro é meu dia e com licença, consegui mais um ano, mais uma bênção: a de estar viva e não simplesmente sobrevivendo. Eis aqui um relato de como entrei na idade de Cristo com um pau na mão dando uma surra numa fada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diferentemente de anos anteriores, este ano não fiz contagem regressiva de um mês de antecedência. Me dei conta que a data era dali a quatro dias e debati por 10 minutos se faria ou não uma festinha. Afinal, acabei de aportar nestas terras e estive com os novos amigos apenas duas ou três vezes. Mas foi exatamente isto que ativou meu botão de comemorar: e por que não brindar com quem me recebeu tão bem numa cidade que eu adoro poder falar mal? No fundo eu sabia que o brinde não era apenas em minha homenagem, mas à deles também. Era uma forma de agradecimento. Sem contar que desde os 16 anos de idade não celebro aniversário com minha mãe por perto. E seria meu primeiro aniversário com meu querido W. E eu queria fazer brigadeiro. E comer bolo. E tomar caipirinha. E me sentir especial sim. Porque eu gosto. E posso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, desde as 24 horas que antecederam a data, dei largada para a sessão de cuidados: cabelo pintado em salão seguido de corte, manicure, pedicure, sobrancelhas depiladas. Praticamente barba, cabelo e bigode. E, na tarde do dia 02, massagem sueca num spa pelas mãos de um homem forte chamado Felipe. Presente de W. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A primeira etapa foi festa de criança, na bagunça ao lado dos filhos dos meus recém-amigos. Como você explica para uma garotinha de nove anos que ela ainda não pode tomar cachaça? Faça um milk shake de morango e diga que é "caipirinha for kids". Pronto, naquela noite nasciam futuros viciados. Do lado de fora da casa, minha mãe grita: "traga um lenço!" Chego lá e pela 1a vez na vida tem uma &lt;em&gt;piñata &lt;/em&gt;para mim. Todinha para mim! &lt;em&gt;Piñatas &lt;/em&gt;são um clássico da tradição mexicana: potes de papier machê em formato de tudo o que você possa imaginar - flores, carros, super heróis, Bob Sponja, cavalinho -- com doces dentro. Uma venda é colocada nos olhos de uma criança que dá umas rodadinhas para ficar tonta e tentar acertar com um bastão o boneco pendurando numa árvore. Quando ele quebra, derrama rios de doces e brinquedinhos. É o mesmo conceito do quebra-pote brasileiro, um clássico da minha infância. Então é aqui que aparece o pau: um cabo de vassoura. E é aqui que aparece a fada: minha piñata era uma Sininho do tamanho de um bebê e com cara de monstro. Surrei a bichinha com gosto. A cabeça foi parar do outro lado da rua. Botei pra fora qualquer sinal de demônio que quisesse roubar meu bom momento astral.  &lt;br /&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SqGI52O1ujI/AAAAAAAAApI/rm9oVrjoGZw/s1600-h/Texas+agosto+2009+208.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 240px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SqGI52O1ujI/AAAAAAAAApI/rm9oVrjoGZw/s320/Texas+agosto+2009+208.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5377729957448759858" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abre parênteses: como é que de um ano para outro a vida pode tomar um caminho completamente distinto? Em 2008 eu comemorava meu aniversário numa champanheria carioca, cercada de amigos de longa data e de alguns amigos também recém-conhecidos, mas de perfil tão distinto dos amigos de Laredo. Eram publicitários, fotógrafos, atrizes, músicos, cineastas, designers. No Rio todo mundo é pop. Estouramos vários espumantes e ainda tive forças para emendar um cabrito com arroz de brócolis na Lapa às 2h da madrugada. Aqui, pessoas de profissão "normal", -- advogados, professora de 2o grau, instrutora de academia, jornalista -- muitos recém-saídos de reunião do Rotary Club. E eu servindo leite batido pra gurizada, dando um beijo no meu marido e abraçando minha mãe. Quero nem pensar no ano que vem. Que venha. Fecha parênteses.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A noite ainda teve direito a bolo encomendado combinando com a cor dos pratos, da toalha de mesa e dos guardanapos; brigadeiro coberto com chocolate granulado; pão de sardinha que virou minha "receita secreta" de sucesso; queijos variados, tomate cereja no azeite e hummus de caixa porque a gente também tem que ser prática de vez em quando. E eu de avental vermelho a noite inteira atrás do balcão preparando caipirinha para os convidados. Verdade, mal tive tempo de conversar com as pessoas. Servir foi o que fiz, mas com gosto, com vontade. Tome, prove um pouco da de limão que é clássica. Experimente agora a de morango. Morango com limão caiu no gosto dos laredenses. Um pouco do meu Brasil misturado com cachaça e açúcar. Um pouco de mim. Receber é bom, mas dar é tão prazeiroso quanto. E juro que esta frase não tem duplo sentido.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3979598438513650907-3284106574804579123?l=fronteirices.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fronteirices.blogspot.com/feeds/3284106574804579123/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/09/caipirinha-milk-shake-uma-fada-surrada.html#comment-form' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/3284106574804579123'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/3284106574804579123'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/09/caipirinha-milk-shake-uma-fada-surrada.html' title='Caipirinha, milk shake, uma fada surrada e mais um ano que entra'/><author><name>Desbra Vando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02847300063164608569</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SqGI52O1ujI/AAAAAAAAApI/rm9oVrjoGZw/s72-c/Texas+agosto+2009+208.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3979598438513650907.post-3832825803647178353</id><published>2009-08-30T12:35:00.000-07:00</published><updated>2009-08-30T14:32:45.803-07:00</updated><title type='text'>A chuva que não me molhou</title><content type='html'>Choveu nesta terra quente e eu não vi. A chuva correu de mim como eu agora corro das obrigações. Foi uma chuva torrencial de alguns minutos, eu soube. Eu estava fora da cidade e não ouvi, não senti, não me molhei. Uma chuva que me enganou: gordas nuvens dissimuladas, celulites de excesso d'água naquele céu de azul berrante que 24h antes não diziam nada que romperiam sobre o meu telhado. Trapaceira. A chuva que espero há dois meses para lavar minha cabeça, purificar meus sentidos, molhar as partes que querem se fazer áridas contra a minha vontade. Queria escutar o som de Laredo na chuva, inspirar o cheiro de Laredo na chuva, sentir o meu corpo em Laredo na chuva. Queria me batizar na chuva que carrega a água do já deplorável Rio Grande, pingos de contrabando centenário, gotas fortes de mexicanos em fuga, garoa de amores delimitados por uma fronteira de feridas abertas. Água doce, água salobra, que gosto tem esta água que cai do céu sem me avisar? Pergunte ao mato, pergunte ao vento, pergunte aos arbustos que esverdejaram quando entrei na cidade e o céu estava azul-fim-de-mundo, belo, sórdido e medonho, um azul sem piedade, e a terra cheirava finalmente a terra e o pó agora era finalmente lama. Pague agora, gota por gota: não te darei o gosto de derramar minhas lágrimas. Represarei minhas águas para o momento exato em que eu quiser exibir o quão caudalosa eu também posso ser. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;xxx&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PS: Não faz duas horas que escrevi estas linhas acima. Consegui pirraçar a natureza: chove um Rio Grande volumoso sobre a minha cabeça. Laredo está em baixo d'água. Preciso sair e mergulhar um pouco.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3979598438513650907-3832825803647178353?l=fronteirices.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fronteirices.blogspot.com/feeds/3832825803647178353/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/08/chuva-que-nao-me-molhou.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/3832825803647178353'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/3832825803647178353'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/08/chuva-que-nao-me-molhou.html' title='A chuva que não me molhou'/><author><name>Desbra Vando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02847300063164608569</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3979598438513650907.post-4536009153911106881</id><published>2009-08-26T12:47:00.000-07:00</published><updated>2009-08-30T12:32:33.863-07:00</updated><title type='text'>Descongelando</title><content type='html'>Esta semana fará dois meses que aportei no hemisfério norte. Não chega a ser um marco para comemoração (apesar de crer veemente que basta ter vontade para abrir um espumante), porém na quarta-feira, dirigindo sozinha por uma larga avenida por onde eu jamais havia dirigido, senti primeiramente a deliciosa sensação de estar começando a me familiarizar com os meus entornos. Logo em seguida, algo maior que me fez sorrir enquanto aguardava o sinal abrir: a sensação de estar começando a descongelar, a vencer uma insegurança e resistência que se apoderavam de mim. O mais interessante é que foi necessário a chegada da minha mãe em temporada de férias para me dar conta disto. E para ajustar meu termostato. Estas mães que nos fazem nascer e renascer tantas vezes ao longo de uma vida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já morei em pequenas, médias e grandes cidades. Já me internei sozinha em hospital queimando de febre proveniente de infecção renal (e raiva, no nível emocional); cozinhei banquetes para mim mesma; viajei sozinha por montanhas nevadas; me embebedei até vomitar num bar de tango sem conhecer uma alma &lt;em&gt;porteña&lt;/em&gt;; dei palestra em universidade americana para mais de 50 coronéis estrangeiros sobre "o papel da mulher na sociedade moderna"; rebolei o tchan umas quinhentas vezes; amei algumas; fui traída e chorei convulsivamente por meses; escalei um vulcão ativo; aprendi depois de um incêndio no meu apartamento que não levamos nada da vida a não ser memórias; cantei em banda de rock; tomei chá de rabo de cascavel; e pela terceira vez faço uma mudança para os Estados Unidos, lugar que já me acolheu por mais de seis anos no passado. Entre estas e outras, acumulei estoque mais do que suficiente para me virar sozinha, enfrentar a vida ou qualquer outro termo sinônimo. Ainda assim, confesso que travei assim que pus os pés em Laredo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Medo de abrir as gavetas da minha nova casa. Medo de revirar as caixas empilhadas na garagem. Medo de andar pela grama verde e sempre úmida do jardim. Medo de pegar o carro. Medo de abrir algumas persianas. Medo de conhecer pessoas. Medo de embarangar. Medo de mudar o trajeto de casa ao supermercado. Medo de virar inútil e medíocre. Um medo que chegava mais ou menos da hora do jantar, se escondia temporariamente durante uma viagem de final de semana e reaparecia durante o banho. De repente, todas as barreiras e fronteiras já desbravadas pareciam placebo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As razões eram óbvias e eu conseguia racionalizá-las. Cá estava eu começando algo completamente novo, um casamento de verdade, para valer, com direito a assinatura em cartório e o compromisso de formar família. Por mais liberal que seja a minha cabeça, havia toda uma instituição por trás da minha chegada a estas terras. Cá estava eu sem trabalho, com todo o tempo do mundo nas mãos -- o tempo que eu sempre quis, mas o que fazer com ele? Como aproveitá-lo para que não se perca em tardes vazias arrancando cutículas e enchendo a cabeça de gordas minhocas? Como otimizá-lo? Quais eram mesmo aqueles planos que eu tinha há anos e queria colocar em prática? Até muito pouco tempo atrás eu me jogava no burburinho carioca com vista para Copacabana, na correria da vida corporativa, nas festas repletas de pessoas interessantes, viajadas, globalizadas. Então caio neste lugar tão singular e tão árido de vida cosmopolita. Cá estava eu tendo que começar do zero, fazer amigos e me fazer ouvir. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;W tem sido super amigo e companheiro, me incentivando a ser sempre a mulher "destemida" e curiosa que ele conheceu. Se a vida conseguiu me dar um pouquinho de sabedoria, uma delas é que não podemos e não devemos nunca jogar nossas amarras e frustrações no outro. As paranóias estavam na minha cabeça e era necessário agir. Já tive alguns momentos de paralisia na vida, portanto atualmente é mais fácil diagnosticá-los e tomar medidas profiláticas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Primeira dose: numa quarta-feira qualquer no meio da tarde, abra uma garrafa de chardonnay e faça um brinde para lembrar-se que de tempos em tempos a vida pode ser vivida sem relógio e sem burocracias. É incrível a capacidade que temos de nos burocratizar mesmo quando em período sabático. Em seguida, mude os móveis de lugar. Mude novamente só para pirraçar seu próprio senso de organização. Compre para o banheiro de hospédes um sabonete líquido premium mesmo contra a vontade do seu cônjugue (e mesmo que o dinheiro seja dele). Também jogue fora aquele abajur de cetim cor-de-repolho hor-ro-roso que a ex dele deixou de lembrança. Catuque as caixas intocáveis e descubra lindos objetos de viagem que seu cônjugue nem se lembrava mais que existiam. Dê um jeito de, aos poucos, ir tirando da sala aqueles quadros que você jamais compraria, mas para não magoar seu querido, pregue-os num quarto que você quase nunca entra. E, finalmente, pegue o carro e comece a conduzir por ruas nunca antes navegadas. Perca-se. Deixem que buzinem atrás de você. Entendo: não existe receita de bolo para a vida, mas para mim funcionou. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E onde é que entra Dona B, a progenitora? Tirando o chardonnay, ela catalizou cada uma dessas ações. Queria arrumar a casa para tê-la aqui, recebê-la com um bom sabonete, comprar-lhe um hidratante de mãos para aliviar este ar tão ressacado. Em doses homeopáticas, fui também me reidratando de mim mesma, deixando escapar a essência que volta e meia quer escorrer pelo ralo. Até entrei em aula de violão pela primeira vez na vida. A casa que foi me dada de braços tão abertos foi ficando mais minha. As impressões digitais estão agora mais visíveis. Mas ainda há trabalho a ser feito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Observar minha mãe também tem sido teurapêutico. Em menos de uma semana já havia revirado todas as caixas, todos os &lt;em&gt;closets&lt;/em&gt;, aberto todas as portas, percorrido o jardim de cabo a rabo e colhido flores, fazendo delas belos arranjo para a sala (como eu não pude pensar nisto antes?). Entrou em aula de desenho, me deixou exausta caminhando no supermercado por três horas seguidas, abriu persianas que eu não ousava tocar, pediu para usarmos lâmpadas mais fortes nos quartos, questionou se o sol nasce mesmo no leste e se põe no oeste, mandou eu comprar meias novas para W, criticou a quantidade de tempero da minha comida, me fez ter mais simpatia pelas feiosas cadelinhas de pêlo áspero Sadie e Precious, as quais ela denominou carinhosamente de Arame e Araminho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estas mães que nos parem e que não nos deixam parar. Quando menos me dou conta, foram doses cavalares de curiosidade e ânimo. Um mergulho profundo nas minhas raízes mais embrionárias para não dizer o óbvio. Aguardando aquele sinal vermelho no cruzamento das avenidas McPherson com Lamar, abri um sorriso largo e aumentei o volume do rádio. Abaixei os vidros, me livrando do ar seco e gélido do ar-condicionado. Precisava de calor e de sauna. Meu termostato começava, finalmente, a voltar ao clima tropical.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3979598438513650907-4536009153911106881?l=fronteirices.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fronteirices.blogspot.com/feeds/4536009153911106881/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/08/descongelando.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/4536009153911106881'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/4536009153911106881'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/08/descongelando.html' title='Descongelando'/><author><name>Desbra Vando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02847300063164608569</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3979598438513650907.post-874717256721017430</id><published>2009-08-25T12:54:00.000-07:00</published><updated>2009-08-25T15:12:54.758-07:00</updated><title type='text'>Galeria 201</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SpRNV-Wz0MI/AAAAAAAAAo4/yOuU8YqTKro/s1600-h/galeria+201.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 300px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SpRNV-Wz0MI/AAAAAAAAAo4/yOuU8YqTKro/s400/galeria+201.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5374005295271104706" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De longe o lugar mais aconchegante de Laredo, além da minha cama, é a Galeria 201. Encravada no início da Avenida San Bernardo, no centro histórico da cidade, abriga exposições e eventos culturais. Quem vê a galeria de fora não imagina o pequeno tesouro que se encontra além daquelas portas. Como quase tudo nesta cidade, tem um toque amador: quadros de artistas profissionais misturam-se a trabalhos de alunos de aula de desenho, a caixas de papelão esquecidas nos cantos e a até uma cama portátil encostada num corredor. A impressão é de que o lugar está sempre esperando uma arrumação que nunca chega. Mas é linda, charmosa e convida a sonhar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A área de exposição das obras fica numa casa centenária. Pequena, talvez esta seja a primeira característica que lhe faz atraente. Casas pequenas geralmente têm alma grande. Casas grandes demais acabam se tornando impessoais e quase sempre desertos de ostentação. Grande parte do charme dessa casa provém de paredes que tiveram seu revestimento arrancado durante a renovação do lugar, deixando à mostra grossas colunas de pedras e tijolos que sustentam o prédio. Paredes desnudas, com entranhas tão expostas. Pedras de tom amarelado que emanam calor, como um amontoado de mulheres centenárias que souberam aproveitar bem a vida e hoje, banguelas, ainda cobrem-se de ouro e rendas, achando graça do tempo que lhes resta. O piso de tábuas de madeira corrida range ao menor caminhar. Uma voz rouca do tempo sob meus pés de novas eras. Sempre mudando de lugar, um recamier bordado de preto tem a medida das minhas ancas. Queria adormecer sobre sua manta já gasta e despertar nua numa tela de Rivera. Uma janela grande que nunca se abre traz iluminação natural através do vidro e veda qualquer sinal de vida racional. Ali dentro somos lúdicos, e que assim seja. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos fundos da galeria encontra-se um belíssimo pátio cercado de árvores, cactus, grandes vasos de cerâmica crua e obras de arte, como sereias fêmeas e machos penduradas nos galhos e esculturas de esqueletos observando a todos do telhado. Tem-se vontade de amanhecer ali, almoçar ali, jantar ali. Até mesmo morrer ali, rindo alto enquanto se come uma melancia no final da tarde. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;xxxxxx&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho ido à Galeria 201 nestas manhãs de agosto, acompanhando minha mãe que está de férias e não hesitou em se matricular na aula de desenho em carvão com modelo vivo. O grupo é pequeno: o simpático professor mexicano Juan, três alunas e a modelo Chris. Jovem e muito branca, sua pele descasca por excesso de sol sem proteção. Cheia de pudores, não se despe completamente: desenlaça a parte superior do biquíni mas cobre os seios com as mãos. De costas para as alunas, tenta manter-se imóvel para que elas lhe retratem suas curvas e sombras. No dia seguinte, me confidencia sorrindo que está com os músculos doloridos de tanto ficar na mesma posição. O ambiente me inspira a fazer qualquer coisa, inclusive trabalho sério: num canto da casa, ligo meu notebook e dou andamento a uma pesquisa de mercado para uma empresa brasileira. Nada como dar uma pausa nestas condições. Não bastasse uma casa com alma, existe também a vibração leve e sedutora de arte em andamento. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;xxxx&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SpRRvk6jNpI/AAAAAAAAApA/FJ7J0AQ8TzI/s1600-h/Imagem+019.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 240px; height: 320px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SpRRvk6jNpI/AAAAAAAAApA/FJ7J0AQ8TzI/s320/Imagem+019.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5374010133164799634" /&gt;&lt;/a&gt;  No momento a galeria abriga obras de arte da artista Kathy Sosa, texana de origem mexicana. Uma arte figurativa de cores fortes, repleta de elementos mexicanos retratando belas mulheres mestiças e indígenas. Não encontro originalidade nos quadros (ainda existe algo original em vigor nesta vida cercada de informação?), mas gosto do que vejo. Transmite festividade, luz, cor e faz bem às minhas retinas. Gostaria de ter US$ 3.000 disponíveis para arrematar o &lt;em&gt;Our Lady of Grace&lt;/em&gt;, uma Nossa Senhora vestida de índia mexicana com um fundo ornado por diversas Virgens de Guadalupe. Artistas também precisam de capitalismo para sobreviver e continuar inspirando brasileiras tentando se encontrar nestas vastas fronteiras.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3979598438513650907-874717256721017430?l=fronteirices.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fronteirices.blogspot.com/feeds/874717256721017430/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/08/galeria-201.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/874717256721017430'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/874717256721017430'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/08/galeria-201.html' title='Galeria 201'/><author><name>Desbra Vando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02847300063164608569</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SpRNV-Wz0MI/AAAAAAAAAo4/yOuU8YqTKro/s72-c/galeria+201.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3979598438513650907.post-3302272416490878561</id><published>2009-08-18T13:55:00.000-07:00</published><updated>2009-08-21T11:04:53.891-07:00</updated><title type='text'>Lombriguices</title><content type='html'>Verdade que temos muitas fomes, outro nome para ambição. Mas falemos hoje de fome orgânica mesmo. Tudo isto porque a matéria de capa do último domingo do jornal local, o &lt;em&gt;&lt;a href="http://www.lmtonline.com/"&gt;Laredo Morning Times&lt;/a&gt;&lt;/em&gt;, era sobre o fato do condado de Webb, o qual Laredo é a capital, ser o 5o no Texas com a maior taxa de obesidade. De certa forma, nada tão "anormal", considerando que no Brasil 20% dos homens e 1/3 das mulheres são obesos, segundo dados do &lt;a href="http://www.ibge.gov.br/ibgeteen/datas/saude/obesidade.html"&gt;IBGE&lt;/a&gt;. Mas a verdade é que o jornal comprova o que os olhos não mentem. É impossível não prestar atenção nos corpos mais que roliços desta região. E se eu não parar de devorar tacos, enchiladas, feijão refrito, costela de boi e manteiga de amendoim com mel, vou passar a fazer parte das estatísticas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei para você, mas para mim comer é prazer. Não é apenas saciar a fome e encher a barriga. Comer é permitir-se sentir a textura de cada alimento, experimentar a combinação de temperos, sentir o aroma que abre o paladar e faz salivar a boca. É a forma mais primitiva de masturbação. Não é à toa que comer é sinônimo pra fuque-fuque. São prazeres comparáveis e até compatíveis. Todo mundo já deve ter ouvido falar na tal pesquisa feita com mulheres americanas: "se você tivesse que escolher entre parar de fazer sexo e parar de comer chocolate, o que escolheria?." A mulherada escolheu o chocolate como o homem dos seus sonhos. Claro que isto nos leva a crer que as americanas precisam de mais terapia do que nós brasileiras, mas enfim, esta hipérbole exemplifica o fascínio de alguns de nós com comida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos Estados Unidos a presença de comida é algo quase opressor. Comer, comer, comer é anunciado por todos os lados. As placas de restaurantes e cadeias de &lt;em&gt;fast-food&lt;/em&gt; piscam incessantemente, 24h. Caminhar por um supermercado é uma experiência avassaladora, tamanha a quantidade e variedade de alimentos. Tudo em porções tamanho gigantes, com muito creme, muito molho, muito queijo, muito açúcar. Um copo de refresco em tamanho pequeno equivale a um tamanho grande na maioria dos estabelecimentos brasileiros. Em Laredo, a cozinha típica é tex-mex, uma mistura de comida texana com mexicana. Em outras palavras: muito feijão refrito (o nome já fala tudo), muita salsa, pimenta, mole (um molho para carnes que leva chocolate, amendoim e muito tempero) e muitas tortilhas para acompanhar os pratos. A expressão &lt;em&gt;tortilla belly&lt;/em&gt; (barriga de tortilha) é bastante comum por aqui. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre fui de bater um pratão de qualquer coisa. Nunca fui uma pessoa enjoada para comer, nem mesmo quando criança. Alface, tomate, macarrão, melado de tamarindo e picolé napolitano eram tudo a mesma coisa: comida. Já fui também o terror da vizinhança: quando eu almoçava na casa de minhas amigas de infância, as mães e pais se horrorizavam com o tamanho das minhas porções. Minha lombriga era faminta. Como já dizia o véi Janu, meu avô paterno baiano, "coma hoje porque amanhã pode não ter". Também sempre gostei de experimentar coisas exóticas: no México, pedi de aperitivo gusanos fritos, uma iguaria local: trata-se de um tipo de verme, o mesmo usado na tequila! E não é que depois de entupi-los com guacamole e pimenta brava não eram bem saborosos? Mas ainda não consigo encarar os pickles de pé de porco saboreados por aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aprendi a comer de forma saudável ao longo da vida. Morei em alojamento universitário com cozinha vegetariana, dividi apartamento com uma amiga carioca que adorava um mato (hoje ela inclusive germina seus grãos), me inspirei com amigos que sabem cozinhar delícias simples e saudáveis. Gosto de uma beringela, peixe fresco, pão integral, uma rúcula com molho de iorgurte. Mas confesso que de tempos e tempos eu enfio o pé na jaca, ou melhor, na gordura e no açúcar. E de com força. Que o diga minha amiga que me viu devorando um sanduíche de banha em Sevilha no ano passado. Então quando a fase &lt;em&gt;junk &lt;/em&gt;chega, a comida vira meu canto de sereia e muitas vezes leva tempo para eu ter a disposição de me amarrar para não cair nas suas tentações. A balança já chegou no ponto onde sei que é necessário frear. Este sempre foi o meu truque: sou um baita dum ioiô, mas dentro de um limite de não mais de 5kg acima do meu ideal. Pena que depois dos 30 anos os 5kg a mais cheguem de forma pra lá de acelerada. Saudades daquele metabolismo feroz dos velhos tempos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha mãe acaba de chegar para passar um mês de férias. Recém descobriu um diabetes e está cheia de restrições alimentares. É, mas tou achando que vou aproveitar sua chegada pra dar uma chafurdada numa geléia diet, um pudinzinho sem açúcar...Ah, estas sereiazinhas do século XXI.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3979598438513650907-3302272416490878561?l=fronteirices.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fronteirices.blogspot.com/feeds/3302272416490878561/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/08/lombriguices.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/3302272416490878561'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/3302272416490878561'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/08/lombriguices.html' title='Lombriguices'/><author><name>Desbra Vando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02847300063164608569</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3979598438513650907.post-5155357694303150609</id><published>2009-08-14T14:28:00.000-07:00</published><updated>2009-08-14T15:17:42.533-07:00</updated><title type='text'>No exílio, proiba-se comparar</title><content type='html'>Quando você parte em exílio auto-permitido e auto-proclamado, não se pode comparar o destino para onde se vai com o porto que ficou para trás. Proiba-se. Se você se permitir, arrisca-se a não enxergar as belezas dos arredores presentes e cair na pieguice de um ser com saudadite aguda. Entrará em &lt;em&gt;mode &lt;/em&gt;Gonçalves Dias, achando que as palmeiras daqui não são como as de lá. Não são, nunca serão e não devem ter a pretensão de ser. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando se sofre de saudadite, você entra em comparações baratas: "ah, aqui tenho que cobrir minha bunda com uma fralda de nadar; que saudades do meu biquininho tropicaliente". Esquece-se de que depois dos 30 anos e muitas colheres de sorvete mais tarde, é melhor mesmo ter um biquíni que lhe cubra as polpas. Não caia na tentação de dizer que lá você pode tomar cerveja no meio da rua, enquanto no lado de cá só em propriedade privada. Poliane-se: aqui as opções de cervejas são infinitas, ainda que não sejam tão estupidamente geladas. Lembre-se que os amigos de verdade são eternos e que qualquer amizade, ainda que passageira, deixa a lembrança de um encontro imortal. Nada morre enquanto as memórias ainda vivem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desprenda-se. Aprenda a fazer &lt;em&gt;cupcakes&lt;/em&gt; -- nunca se sabe se um dia você precisará alimentar um exército de famintos. Deixe o cabelo crescer se ele ficou curto durante tanto tempo. Volte à era &lt;em&gt;bush &lt;/em&gt;se se depilar a cada 20 dias ficou tão mais caro (hmmm, pensando bem, pule este opção e ache uma maneira de fazer dinheiro). Escute canções bregas cantadas em espanhol e aprenda rima a rima, letra a letra -- você pode ser a sensação do próximo karaokê quando voltar à civilização culta e antenada. Enfim, quando você se exilar, deixe encarnar nas suas tripas o espírito do lugar. Não exorcize-o: louve-o. Não se esqueça de onde veio, nem por que partiu, mas abrace o novo e recicle o velho. Mas não permita Deus que morra sem que volte, ao menos uma vez, para lá.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3979598438513650907-5155357694303150609?l=fronteirices.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fronteirices.blogspot.com/feeds/5155357694303150609/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/08/no-exilio-proiba-se-comparar.html#comment-form' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/5155357694303150609'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/5155357694303150609'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/08/no-exilio-proiba-se-comparar.html' title='No exílio, proiba-se comparar'/><author><name>Desbra Vando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02847300063164608569</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3979598438513650907.post-6944286529613926776</id><published>2009-08-10T12:25:00.000-07:00</published><updated>2009-08-10T15:01:18.135-07:00</updated><title type='text'>Os contrastes da estrada</title><content type='html'>&lt;iframe width="425" height="350" frameborder="0" scrolling="no" marginheight="0" marginwidth="0" src="http://maps.google.com.br/maps?f=d&amp;amp;source=s_d&amp;amp;saddr=laredo+texas&amp;amp;daddr=south+padre+texas&amp;amp;hl=pt-BR&amp;amp;mra=ls&amp;amp;sll=-14.179186,-50.449219&amp;amp;sspn=67.728895,112.324219&amp;amp;ie=UTF8&amp;amp;ll=26.81231,-98.33397&amp;amp;spn=1.49416,2.34054&amp;amp;output=embed"&gt;&lt;/iframe&gt;&lt;br /&gt;&lt;small&gt;&lt;a href="http://maps.google.com.br/maps?f=d&amp;amp;source=embed&amp;amp;saddr=laredo+texas&amp;amp;daddr=south+padre+texas&amp;amp;hl=pt-BR&amp;amp;mra=ls&amp;amp;sll=-14.179186,-50.449219&amp;amp;sspn=67.728895,112.324219&amp;amp;ie=UTF8&amp;amp;ll=26.81231,-98.33397&amp;amp;spn=1.49416,2.34054" style="color:#0000FF;text-align:left"&gt;Exibir mapa ampliado&lt;/a&gt;&lt;/small&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na estrada, onde toda a vida pulsa mais intensamente porque tudo é novo mesmo quando tudo já começa a parecer familiar, observo a fronteira EUA-México nas quatro horas de viagem para um final de semana na praia em South Padre, Golfo do México. Notam-se grandes contrastes(ou seria um balanço?): &lt;br /&gt;- verdes plantações de cebola; &lt;br /&gt;- secas pastagens com placas de ranchos na porteira, muitos com esculturas em ferro representando a típica cena do velho oeste (cowboys, cactus e cavalos); &lt;br /&gt;- perfuradeiras de petróleo martelando o solo na coleta do ouro negro;&lt;br /&gt;- casas velhas e descuidadas, com &lt;em&gt;junk &lt;/em&gt;(lixo) empilhado nos jardins; &lt;br /&gt;- mansões construídas na beira da &lt;em&gt;highway &lt;/em&gt; (por que alguém constrói uma casa, ainda mais um casarão, na beira de uma movimentada pista? seria um amante da estrada? talvez um exibicionista?); &lt;br /&gt;- cidadezinhas empoeiradas com seus belos prédios históricos caindo aos pedaços, entregues às almas do século retrasado; &lt;br /&gt;- novos bairros e suas incontáveis lojas de cadeias dos séculos XX e XXI tinindo seus letreiros que massificam todos os novos bairros de todas as cidades deste país, causando a estranha sensação de que por mais que se ande, nunca se consegue sair do lugar; &lt;br /&gt;- comida, muita comida: desde cadeias de &lt;em&gt;fast-food&lt;/em&gt; a birosquinhas de BBQ (&lt;em&gt;barbecue&lt;/em&gt;, que não é o churrasco brasileiro como muitos pensam, e sim carnes defumadas, como costela e linguiça, num molho marrom adocicado), coloridas barraquinhas de tacos e tortillas, vendedores de melancias, melões, pêssegos e mangas perfumadas e suculentas;&lt;br /&gt;- um homem com um copo enfiado no vazio do braço amputado pedindo esmola no cruzamento na subida de um viaduto;&lt;br /&gt;- uma igreja das Testemunhas de Jeová;&lt;br /&gt;- um estabelecimento de streap-tease chamado Xoticas (pronuncia-se "Exóticas");&lt;br /&gt;- um outdoor com uma campanha sobre cordialidade e cidadania;&lt;br /&gt;- uma placa nos arredores de uma cadeia alertando motoristas para não darem carona a ninguém, pois podem ser fugitivos.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Paramos para ir ao banheiro na bela e esquecida Rio Grande City, fundada em 1848 e que já foi uma das principais rotas de comércio entre os EUA e o México. Sua placa indica que há 11.923 habitantes. Não se arredonda nada por aqui e não faço idéia sobre quando foi a última atualização. Imagino uma cidade sem mortes nem nascimentos. Estável e permanente, sem curvas de declínio ou crescimento. A &lt;em&gt;highway &lt;/em&gt;atravessa o centro histórico. É impossível ficar alheia àqueles prédios semi-abandonados com placas e sinais ainda em caligrafia antiga do início do século XX. Belas casas que pararam no tempo para contar uma história de gerações, mas que as novas gerações simplesmente ignoram. Consigo ver as sombras de mulheres de anquinhas e sombrinhas passeando com seus sapatos de cetim e suas luvas de rendas, acompanhadas por seus esposos trajando ternos bem-passados e olhando para seus relógios de bolso. Eu não sei nada sobre aquele lugar, mas posso sentir o cheiro de colônia de uma época que não vivi. As velhas paredes sussurram passado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No meu primeiríssimo e novo Blackberry busco no Google mais informações sobre a cidade. Descubro que a ex-primeira dama Lady Bird Johnson ficou hospedada no hotel histórico para uma viagem com o propósito de conhecer melhor as flores selvagens da primavera. Gosto disto. É uma nobre razão para se viajar e emana contraste também: inocência e aristocracia. Do lado de fora do posto, um homem de meia-idade dorme de pernas cruzadas num banquinho à sombra, a aba dianteira do seu chapéu de cowboy a lhe cobrir seus olhos. Da estrada, três homens no banco da frente de uma caminhonete gritam gracinhas para mim. Confesso que me sinto lisonjeada. Quando se sai do Rio de Janeiro, a terra das ousadias, toda mulher acaba sentindo falta de um fiu-fiu. Entro no posto. Eu e W somos os únicos clientes. O banheiro está trancado e temos que pedir a chave ao atendente. Pergunto em inglês a razão disto, mas noto que ele não me entende bem. Mudo para espanhol e ele responde que é para evitar a delinquência, já que vários clientes depredam o banheiro. "Teve um que deixou merda no chão e eu que tive que limpar".  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paramos para almoçar na cidadezinha de Zapata, no restaurante Paraiso, cuja especialidade é &lt;em&gt;chicken fried steak&lt;/em&gt;, ou seja, bife frito da mesma maneira que se frita galinha por aqui, com uma grossa e crocante camada empanada sobre a carne. É domingo, 13h30 e o lugar está vazio. Isto não me parece muito bom. W diz que é porque aos domingos as famílias fazem churrascos nos seus quintais. Peço uma porção pequena e por US$ 8,00 como um bifão com molho &lt;em&gt;gravy&lt;/em&gt;, salada de alface e tomate, purê, 2 fatias de pão de forma, arroz e feijão refrito. A não ser que você seja uma cruza de cavalo com leão, jamais peça uma porção grande neste país. Depois de comer metade da minha refeição, meu estômago já não aguenta mais -- não apenas porque não há mais espaço, mas verdade seja dita, a comida do Paraiso é meio infernal. Aos poucos os clientes vão chegando. 90% são senhores e senhoras de cabecinha branca e chapéus de cowboy. Parecem já ter estado ali centenas de vezes nas últimas quatro décadas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltamos para a estrada. Observo o vôo dos falcões enquanto escutamos velhas revolucionárias canções irlandesas. Ao entrar em Laredo, enxergo as duas grandes bandeiras mexicana e americana flamulando no calor tórrido da tarde. Há uma sensação de conforto e alívio ao se chegar em casa, mas imediatamente já começo a planejar a próxima viagem. Contrastes pessoais. Tudo é tão yin yang nas fronteiras da minha alma.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3979598438513650907-6944286529613926776?l=fronteirices.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fronteirices.blogspot.com/feeds/6944286529613926776/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/08/os-contrastes-da-estrada.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/6944286529613926776'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/6944286529613926776'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/08/os-contrastes-da-estrada.html' title='Os contrastes da estrada'/><author><name>Desbra Vando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02847300063164608569</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3979598438513650907.post-2543334473850322959</id><published>2009-08-06T14:42:00.000-07:00</published><updated>2009-08-07T08:41:56.072-07:00</updated><title type='text'>"Piensa en mi, llora por mi..."</title><content type='html'>"Seu nome é Jenny e ela é morena, 1,65m, 50kg, longos cabelos negros, 24 anos de idade e tem como hobbies assistir televisão e ouvir música. Trabalha em uma &lt;em&gt;&lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Maquiladora"&gt;maquiladora &lt;/a&gt;&lt;/em&gt;e quer conhecer homens com idades entre 24 e 25 anos que compartilhem os mesmos interesses. Novamente, Jenny tem 24 anos e quer muito conhecer você, portanto ligue agora para conhecer Jenny e desfrutar deste novo encontro".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quarta-feira de uma bela lua cheia em Laredo. Nada de Facebook, My Space ou Match.com: na 100.5 FM, o correio sentimental não foi substituído pelas novas mídias. Pelo contrário, continua vivíssimo unindo solitários em busca do amor. A voz suave e sensual da DJ comunica em espanhol a lista dos anunciantes. Extensa lista de homens e mulheres românticos e apaixonantes, prontos para se apaixonarem. Jenny, a morena &lt;em&gt;petite &lt;/em&gt; mexicana, espera em casa pela ligação daquele que pode ser o grande amor da sua vida. Homens de todo o sul do Texas e norte do México se alvoraçam para ligar o número anunciado pela rádio e entrar em contato com a versão radiofônica de Jenny.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A DJ toca a próxima canção. O Grupo Mojado entra com o mega hit sensação brasileiro dos anos 90 que soa ainda mais hit sensação quando &lt;em&gt;hablado en español&lt;/em&gt;. É, o amor não tem idade nem fronteiras. A dor de corno também não. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="width:300px;"&gt;&lt;object width="300" height="110"&gt;&lt;param name="movie" value="http://media.imeem.com/m/0YMGgjjXQE/aus=false/"&gt;&lt;/param&gt;&lt;param name="wmode" value="transparent"&gt;&lt;/param&gt;&lt;embed src="http://media.imeem.com/m/0YMGgjjXQE/aus=false/" type="application/x-shockwave-flash" width="300" height="110" wmode="transparent"&gt;&lt;/embed&gt;&lt;/object&gt;&lt;div style="background-color:#E6E6E6;padding:1px;"&gt;&lt;div style="float:left;padding:4px 4px 0 0;"&gt;&lt;a href="http://www.imeem.com/"&gt;&lt;img src="http://www.imeem.com/embedsearch/E6E6E6/" border="0"  /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;form method="post" action="http://www.imeem.com/embedsearch/" style="margin:0;padding:0;"&gt;&lt;input type="text" name="EmbedSearchBox" /&gt;&lt;input type="submit" value="Search" style="font-size:12px;" /&gt;&lt;div style="padding-top:3px;"&gt;&lt;a href="http://www.imeem.com/ads/banneradclick.ashx?ep=0&amp;ek=0YMGgjjXQE" rel="nofollow"&gt;&lt;img src="http://www.imeem.com/ads/bannerad/152/10/" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://www.imeem.com/ads/banneradclick.ashx?ep=1&amp;ek=0YMGgjjXQE" rel="nofollow"&gt;&lt;img src="http://www.imeem.com/ads/bannerad/153/10/" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://www.imeem.com/ads/banneradclick.ashx?ep=2&amp;ek=0YMGgjjXQE" rel="nofollow"&gt;&lt;img src="http://www.imeem.com/ads/bannerad/154/10/" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://www.imeem.com/ads/banneradclick.ashx?ep=3&amp;ek=0YMGgjjXQE" rel="nofollow" &gt;&lt;img src="http://www.imeem.com/ads/bannerad/155/10/0YMGgjjXQE/" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;/form&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br/&gt;&lt;a href="http://www.imeem.com/artists/grupo_mojado/music/qjnAbt38/grupo-mojado-piensa-en-mi/"&gt;Piensa En Mi - Grupo Mojado&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3979598438513650907-2543334473850322959?l=fronteirices.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fronteirices.blogspot.com/feeds/2543334473850322959/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/08/piensa-en-mi-llora-por-mi.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/2543334473850322959'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/2543334473850322959'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/08/piensa-en-mi-llora-por-mi.html' title='&quot;Piensa en mi, llora por mi...&quot;'/><author><name>Desbra Vando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02847300063164608569</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3979598438513650907.post-1709443181253300918</id><published>2009-08-06T10:40:00.000-07:00</published><updated>2009-08-06T14:38:15.412-07:00</updated><title type='text'>Café, hookah, vinho e uma noite que flui</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SntIuBMuFXI/AAAAAAAAAoY/fj8_DN3F--0/s1600-h/Laredo+julho+2009+015.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 240px; height: 320px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SntIuBMuFXI/AAAAAAAAAoY/fj8_DN3F--0/s320/Laredo+julho+2009+015.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5366963336375047538" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Neste meu primeiro mês de aniversário em Laredo City, descobri um dos lugares mais agradáveis da cidade: Cuadro Cafe. Décor super aconchegante, com mesinhas e mobiliário lounge cheios de almofadas, canecas de café com uma plantinha de bambu sobre as mesas, garrafas de vinho espalhadas por todos os lados, posters artísticos, quadros, fotografias, máscaras africanas e um palquinho com caixas de som, microfone e bateria pronto para receber uma banda. Fui pela primeira vez na tarde desta última terça-feira. Levei meu laptop, pedi um &lt;em&gt;iced caramel mocha &lt;/em&gt;e passei a tarde inteira me deliciando naquele pedaço de cultura urbana tão nada a ver com a cidade. &lt;br /&gt;Ah, nada como as ilhas! O lugar pertence a três jovens e simpáticos sócios na casa dos vinte anos. São eles quem tomam conta do lugar, fazem os cafés e servem os clientes.  Fui praticamente a única cliente ali a tarde inteira. Confesso que esperava um público maior, até porque existe em Laredo uma universidade (Texas A&amp;M International University) e uma faculdade. Pelo visto, contudo, não existe uma cultura de &lt;em&gt;coffee shop&lt;/em&gt;. O que é uma pena. Alguns dos melhores momentos da minha vida foram regados a cafeína e vinho em cafés simpáticos nos meus anos universitários em Lawrence, Kansas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltei ao Cuadro ontem à noite, para minha primeira &lt;em&gt;girls' night out&lt;/em&gt;, ou seja, uma saída só com as meninas. Só as mulé! Já estava sentindo falta de estar num universo feminino. Além de agradabilíssimo, o local é BYOB, ou seja &lt;em&gt;Bring Your Own Beer&lt;/em&gt; -- você pode levar qualquer bebida, em qualquer quantidade, e paga apenas US$ 5 pela consumação. Esta taxa ainda inclui o serviço de abrir suas garrafas, taças e gelo. E não é só isto: em agosto, quem levar sua própria bebida ganha uma rodada de &lt;em&gt;hookah&lt;/em&gt;, aquele cachimbo à base d'água muito usado nos países árabes. Em outras palavras: perfeito. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui com Fabi e sua amiga Laurie, quem conheci ontem à noite. Ambas são advogadas e trabalham numa ONG que oferece serviços jurídicos para quem não tem condições de pagá-los. Fabi é local da cidade e a conheci através de W. Eles, por sua vez, se conheceram durante os trabalhos voluntários da campanha de Obama. Fabi acaba de voltar a Laredo após ter morado em Austin, Texas, por oito anos. Para mim, é bom vê-la se readaptando à sua cidade natal (lembrando que tudo é válido como fonte de inspiração). Ela reconhece as deficiências locais, mas parece estar feliz. Muito inteligente e extrovertida, tomei uma simpatia rápida por esta jovem de olhos grandes e lindo cabelão encaracolado. Laurie é californiana e mora aqui há dois anos. Muito simpática, parece uma estátua de marfim de tão branquinha e delicada. Quando perguntei o que ela achava da cidade, sua resposta foi hesitante: "bom, estou me adaptando". Ri e disse "isto significa que você está odiando." Gargalhadas compartilhadas a três.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SntJcN81MVI/AAAAAAAAAoo/tqhJ4JRFz_E/s1600-h/Laredo+julho+2009+013.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 240px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SntJcN81MVI/AAAAAAAAAoo/tqhJ4JRFz_E/s320/Laredo+julho+2009+013.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5366964130072047954" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;E assim a noite foi fluindo, entre vinhos, tragadas de &lt;em&gt;hookah &lt;/em&gt;com sabor de maçã e mel, velhas canções de James Taylor na voz e violão de dois filipinos que cantavam como anjos (que vozes, que vozes!), algumas confidências e muitas risadas. Tudo muito leve, como a doce embriaguez do meu vinho espanhol de La Rioja (propositalmente escolhido na minha ida ao supermercado: eu precisava de umas forças flamencas para levantar meu ânimo que estava meio enviezado nos últimos dias). Ao redor, mesas vazias. Apenas um grupo de filipinos amigos dos músicos, um outro grupo de três pessoas e dois casais que foram embora pouco depois de chegarmos. &lt;em&gt;No big deal&lt;/em&gt;. Às vezes não precisamos de nada mais além de um coração cheio, um peito aberto e boas gargalhadas para curar qualquer aproximação de tédio. E vivam as ressacas das quintas-feiras!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3979598438513650907-1709443181253300918?l=fronteirices.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fronteirices.blogspot.com/feeds/1709443181253300918/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/08/cafe-hookah-vinho-e-uma-noite-que-flui.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/1709443181253300918'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/1709443181253300918'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/08/cafe-hookah-vinho-e-uma-noite-que-flui.html' title='Café, hookah, vinho e uma noite que flui'/><author><name>Desbra Vando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02847300063164608569</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SntIuBMuFXI/AAAAAAAAAoY/fj8_DN3F--0/s72-c/Laredo+julho+2009+015.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3979598438513650907.post-6277980430485143350</id><published>2009-08-03T09:30:00.000-07:00</published><updated>2009-08-03T12:16:07.786-07:00</updated><title type='text'>Os pássaros</title><content type='html'>Existe um quintal verdejante em Laredo onde pássaros do tamanho de galinhas atacam diariamente, vorazmente, ferozmente, a bacia de ração de duas feias cadelinhas por quem meu coração começa a amolecer. Dos galhos da bela árvore que sombreia os fundos deste quintal, a gang espera a chegada da manhã, quando a comida de Sadie e sua ciumenta e enlouquecida filha Precious é reposta. Existe uma silenciosa conspiração em andamento sobre aquela fresca grama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O líder do bando é um corvo invocado de bico sempre aberto. Chega saltitante, peito para o alto, muito macho no seu papel de corvo líder. Seu olhar tem a adrenalina do proibido, o regogizo do sucesso clandestino. Mas também a &lt;a href="http://www.helderdarocha.com.br/literatura/poe/pessoa4.html"&gt;"medonha dor de um demônio que sonha", como diria Poe&lt;/a&gt;. Toma o primeiro pedaço de ração e, assim, dá sinal verde para o resto da horda fazer seu arrastão diário. Em poucos segundos, a grama é ocultada por outros destemidos corvos, gordas pombas acinzentadas e plutônicos pardais. As desgrenhadas cadelinhas, do tamanho dos seus algozes, refugiam-se nos fundos da casa, na sombra do muro. Pra que lutar, se não temos asas? Pra que latir se em breve nossos humanos nos alimentarão novamente com sacos de 10kg de comida? Comam, sirvam-se. Há abundância para todos na América. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma conspiração no fundo do quintal. A submissão à raça humana é apenas um disfarce bem planejado. As cadelinhas ensaiam seu latido de liberdade. É necessário haver algum tipo de justiça na fronteira. As asas precisam de força para voar. A revolução começa nas garagens e nos quintais frondosos. No prato de ração. Por um prato de ração. O corvo líder, já destemido com minha presença, gralha "fome, nunca mais."&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3979598438513650907-6277980430485143350?l=fronteirices.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fronteirices.blogspot.com/feeds/6277980430485143350/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/08/os-passaros.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/6277980430485143350'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/6277980430485143350'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/08/os-passaros.html' title='Os pássaros'/><author><name>Desbra Vando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02847300063164608569</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3979598438513650907.post-3567521626840370074</id><published>2009-07-30T14:16:00.000-07:00</published><updated>2009-07-31T11:06:10.590-07:00</updated><title type='text'>O homem da carrocinha</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SnIOflR4WjI/AAAAAAAAAoQ/AX2lxtO_8ho/s1600-h/Laredo+julho+2009+030.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 240px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SnIOflR4WjI/AAAAAAAAAoQ/AX2lxtO_8ho/s320/Laredo+julho+2009+030.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5364366041897523762" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;E não é que Laredo também tem o homem da carrocinha? Estava em casa no final da tarde quando ouvi ao longe um sonzinho vintage, parecido com aquelas musiquinhas tocadas em circos ou em parques de diversão de cidade de interior. Começou baixinho e à medida em que foi aumentando de intensidade, percebi que algo grande se aproximava. E eis que surge enorme, colorido e extremamente convidativo, um caminhão de doces. Na verdade, um caminhão de tudo o que é porcaria que adoraríamos poder nos entupir diariamente sem culpa, sem cáries, sem banha e sem colesterol: picolé, batata chips, picles, chocolates, caramelos, chicletes, raspadinhas. Tudo o que já foi um sonho e que hoje é praticamente ilegal nestes tempos politicamente corretos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Senti um sensação também doce e morna ao avistar aquele carro sendo conduzido pela minha nova rua. Fiquei paralisada por uns instantes, sem acreditar que existiam carrocinhas de doces, mesmo em versão motorizada, aqui nestas bandas texanas. Não apenas isto, mas o fato de &lt;em&gt;ainda &lt;/em&gt;existirem é o que me provocou mais espanto. Os pensamentos viajaram imediatamente à infância. Passavam pelo meu bairro pernambucano o sorveteiro, o homem do mungunzá e o homem do quebra-queixo. Cada um com seu jingle, ou seja, um assobio original que os diferenciava da concorrência. Eu era fregueza assídua, magra de ruim e com os dentes cariados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem da carrocinha era um senhor com cara de mexicano. Andou devagarinho rua abaixo, a musiquinha tocando &lt;em&gt;tininininim &lt;/em&gt;,mas nenhuma criança veio à porta. Eu torcia para que alguma aparecesse gritando suada e em êxtase atrás de um picolé. Se fosse nos meus tempos eu já teria aporrinhado a paciência da empregada para me emprestar umas moedas. Onde estavam as crianças? Será que alguém contou sobre o homem da carrocinha versão Brasil? Não, o daqui não vai arrancar seu fígado! Venham, comam os doces, não se amarguem! Mas nada. A clientela estava vazia. No ar, um que de inocência perdida. Ouvi a musiquinha trafegando pelo bairro por mais uns minutos até sumir no abafado da tarde. Nas minhas observações que me levam a crer que estou ficando velha, constato que ainda existem carrocinhas, mas não mais crianças como antigamente.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3979598438513650907-3567521626840370074?l=fronteirices.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fronteirices.blogspot.com/feeds/3567521626840370074/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/07/o-homem-da-carrocinha.html#comment-form' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/3567521626840370074'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/3567521626840370074'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/07/o-homem-da-carrocinha.html' title='O homem da carrocinha'/><author><name>Desbra Vando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02847300063164608569</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SnIOflR4WjI/AAAAAAAAAoQ/AX2lxtO_8ho/s72-c/Laredo+julho+2009+030.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3979598438513650907.post-4858512390159945586</id><published>2009-07-30T08:31:00.001-07:00</published><updated>2009-07-30T14:15:51.139-07:00</updated><title type='text'>Memory lane</title><content type='html'>Um dos termos mais belos da língua inglesa para mim é &lt;em&gt;memory lane&lt;/em&gt;, algo como "estrada da memória", usado geralmente para evocar o passado e suas lembranças saudosistas. Ontem fui conhecer a &lt;em&gt;memory lane&lt;/em&gt; de Laredo. Decidi tirar a tarde para passear pelo centro histórico da cidade e senti-la mais de perto, conhecê-la a partir das suas artérias mais cheias de saudades, gravitar ao redor do seu cordão umbilical. O bairro onde moro é muito agradável, porém relativamente novo, com casas relativamente novas, um típico subúrbio americano (subúrbio aqui é onde a classe média alta se refugia da vida geralmente caótica dos grandes centros. Laredo não tem o caos das metrópoles, mas as famílias parecem querer se afastar mesmo assim). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SnHTGBkbhfI/AAAAAAAAAng/mZvZ8IK1VDI/s1600-h/MNsquare.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 240px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SnHTGBkbhfI/AAAAAAAAAng/mZvZ8IK1VDI/s320/MNsquare.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5364300731628881394" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;O bairro histórico de San Agustin, mais precisamente a Plaza de San Agustin, é o marco inicial da cidade, fundada em 1755 como Villa de San Agustin de Laredo ainda durante a colonização espanhola no México. O pavimento de tijolinhos vermelhos permanece intocado por vários quarteirões. A plaza é uma pacata pracinha com cara típica de cidade de interior: um coreto no meio, jardins bem cuidados e uma igrejinha à sua frente. Ao redor também localizam-se diversos prédios históricos que perteceram aos primeiros moradores. Um deles é hoje o Museu da República do Rio Grande, que além de sede deste governo no século XIX, também foi a residência de um dos seus fundadores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1840, cerca de 20 anos após o México conquistar sua independência, três estados do norte --Taumalipas, Nuevo León e Coahuila -- segregaram-se por descontentamento com o governo centralista mexicano do ditador Santa Anna e criaram sua própria república federalista. Laredo, então, virou a capital da República do Rio Grande. Quando o exército centralista finalmente avançou sobre Laredo e derrotou os federalistas, Antônio Zapata (não confundir com Emiliano), líder da cavalaria da nova república, teve sua cabeça arrancada e exposta durante três dias para intimidar os oponentes. A República durou apenas 283 dias. De toda forma, Laredo orgulha-se de ter sido a única cidade texana a existir sob sete bandeiras: Espanha, França, México, República do Texas, Confederados, Estados Unidos e República do Rio Grande. Na plaza, todas estas bandeiras flamulam no exterior do museu e no hotel histórico La Posada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SnHWWXFJAKI/AAAAAAAAAno/qQi-lkRV51g/s1600-h/Laredo+julho+2009+085.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 240px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SnHWWXFJAKI/AAAAAAAAAno/qQi-lkRV51g/s320/Laredo+julho+2009+085.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5364304310816014498" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Caminhando pelas ruas de San Agustin, a poucos metros das pontes internacionais que ligam o país ao México, sentia um misto de curiosidade e revolta. Curiosidade por tentar ver os detalhes daquilo que já foi um dia e revolta por ver a realidade daquilo que é hoje.  A verdade é que, fora um pequeno trecho preservado localizado em volta da plaza, o restante do bairro é uma espécie de centrão popular onde os belos prédios históricos viraram depósito de bugingangas &lt;em&gt;made in China&lt;/em&gt; para venda no atacado ou no varejo. Salvo algumas perfumarias e lojas de roupas e uma ou outra loja com os vestidos de gosto duvidoso de &lt;em&gt;quinceañeras &lt;/em&gt;(debutantes de 15 anos, tradição ainda muito forte na cultura mexicana),quase todos os estabelecimentos vendem mares de lixarada cafona plástica e purpurinada. Quando a fome apertou, saí em busca de alguma lanchonete aconchegante com um pouco de alma, mas tudo o que encontrei foram filiais gordurosas de &lt;em&gt;fast-food&lt;/em&gt; de galinha frita. Aquela descaracterização dos tempos modernos em pleno solo sagrado da história me tirou a fome. Foi a mesma sensação que tive quando vi uma KFC e um Taco Bell em frente às pirâmides milenares do Egito. Sou 100% a favor da modernidade, mas 0% a favor do tipo de modernidade baseada no consumo desenfreado de porcarias. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parti então em direção à plaza, que havia conhecido em maio durante minha primeira visita à cidade. Ela permanecia exatamente igual, bonita e bem conservada. Várias pessoas descansavam nos banquinhos de pedra doados por famílias e instituições. A mesma plaza que, no passado, foi palco de celebrações de tribos indígenas após saquearem a cidade, recepções das tropas militares da coroa espanhola e, em 1855, uma batalha entre os grupos políticos rivais Las Botas e Los Guaraches. Me dirigi ao museu e percebi que eu era a única visitante. Perguntei ao simpático senhor da recepção quantas pessoas apareciam ali por dia. Ele disse, com cara de desolação, que às vezes nenhuma. Porém, falou com um certo orgulho que nem sempre foi assim, pois o museu já chegou a comportar 3.000 pessoas por mês nos tempos áureos do turismo. Ou seja, há não mais que cinco anos, quando a violência proveniente dos cartéis do narcotráfico do outro lado da fronteira não era tão pronunciada. As pessoas visitavam o museu em consequência de sua viagem ao México, mas o turismo foi fortemente afetado depois que sequestros, tiroteiros e até explosões de granadas passaram a ocorrer com frequência em Nuevo Laredo. Dizem que atualmente a violência diminuiu, mas a verdade é que as pessoas de Laredo sentem muito medo de cruzar a ponte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SnHhmHvZmHI/AAAAAAAAAnw/tccbiyI7cJM/s1600-h/Laredo+julho+2009+089.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 240px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SnHhmHvZmHI/AAAAAAAAAnw/tccbiyI7cJM/s320/Laredo+julho+2009+089.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5364316676204107890" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Minha visita ao pequeno museu foi bastante informativa. Eu me deliciei com aquele mergulho no passado. A casa, construída em 1830 e expandida em 1861, ainda tinha o piso, paredes e vigas originais. Havia vários objetos expostos, como uma bandeira original da República do Rio Grande, armas do século XIX e uma representação dos aposentos, como a sala de estar, o quarto e a cozinha. &lt;br /&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SnHiNm6etXI/AAAAAAAAAn4/f4sRy9lVXN8/s1600-h/Laredo+julho+2009+092.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 240px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SnHiNm6etXI/AAAAAAAAAn4/f4sRy9lVXN8/s320/Laredo+julho+2009+092.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5364317354586977650" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;O quarto era uma representação do período de 1840 a 1880. Ao olhar para aquela cama, pensava se todas as 12 crianças criadas naquela casa tinham sido geradas ali. Me encantei com as lingeries, as sombrinhas e o sapato de mulher. Absolutamente femininos e encantadores. &lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SnHi5Zkl6cI/AAAAAAAAAoA/C2xEbvbOgpw/s1600-h/Laredo+julho+2009+093.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 240px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SnHi5Zkl6cI/AAAAAAAAAoA/C2xEbvbOgpw/s320/Laredo+julho+2009+093.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5364318106919758274" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SnHjqnoQ7ZI/AAAAAAAAAoI/WCLyfs6kXjo/s1600-h/Laredo+julho+2009+096.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 240px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SnHjqnoQ7ZI/AAAAAAAAAoI/WCLyfs6kXjo/s320/Laredo+julho+2009+096.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5364318952506846610" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Na cozinha, havia uma amostra de objetos de ferro facilitadores dos trabalhos das donas de casa, como máquinas manuais lavar roupa, engenhocas de fazer linguiça e batedores de manteiga. Os tataravós dos eletrodomésticos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando terminei minha visita, uma equipe de um canal de TV de Nuevo Laredo se preparava para fazer uma matéria sobre o museu. Na lojinha, me dei de presente um livro de um autor local sobre sua viagem de canoa pelo Rio Grande, "&lt;a href="http://www.thetecatejournals.com/"&gt;The Tecate Journals&lt;/a&gt;". Para W, comprei um livreto sobre a história da organização dos advogados na cidade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saí e, guiada pela fome, finalmente encontrei uma lanchonete avulsa (não uma filial de restaurante gorduroso) bem simples a duas quadras dali. A atendente, uma senhora de cabelo ruivo endurecido por quilos de laquê e muita maquiagem nos olhos anotou o meu pedido de um taco pirata: carne de fajita, feijão refrito e queijo derretido enrolados numa tortilha de milho. Sustança para uma tarde cultural!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Satisfeita, sentei-me num banquinho em frente ao antigo Cine Plaza, já desativado porém ainda reluzindo o mesmo letreiro dos anos 40/50. Revezava entre ler meu livro recém-adquirido e observar os arredores e as pessoas. Estava feliz por ter tirado aquela tarde para ir à rua e quebrar minha rotina de ficar horas em casa no computador fazendo um projeto voluntário para uma empresa no Brasil. A rua é onde a vida pulsa, é onde o passado e o presente se consolidam, se entrelaçam e se confrontam. São bastantes especiais aqueles que ainda lutam para preservar a memória da cidade, pois como sabemos um povo sem memória é não apenas um povo sem futuro, mas é um povo de presente insosso também. Laredo me pareceu um lugar bem mais interessante após aquelas horas de imersão no seu legado histórico. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certamente ainda há muito a ser feito. Existem vários prédios interessantíssimos semi-abandonados, como um velho hotel onde o ditador mexicano Santa Anna ficou hospedado a caminho da batalha do Alamo em 1836, a mais famosa batalha da Revolução Texana. Hoje o hotel parece um cortiço caindo aos pedaços. Toda aquela área poderia ser reformada e revitalizada, com a instalação de cafés, restaurantes típicos, galerias de arte e cinemas, por exemplo. Certamente o turismo local só iria se beneficiar, tornando-se mais independente da cidade vizinha mexicana. Mas como tudo nesta vida se resume a dinheiro, é necessário que algum empresário ainda veja o potencial turístico de "downtown". &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto estava entretida com meu livro, um louco imundo e maltrapilho me pediu um dólar. Era alto, magro e gesticulava bastante. Respondi que não tinha dinheiro, mas ele gentilmente me ofereceu um pouco do seu suco de maçã de caixa. Falei que não queria, obrigada, mas ele insistiu. Respondi negativamente mais uma vez e fixei meus olhos no livro. O doido então partiu com sua caixa de suco na mão, risonho, falando suas doidices ao quatro ventos, mais um personagem a se perder nas ruas de &lt;em&gt;memory lane. &lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3979598438513650907-4858512390159945586?l=fronteirices.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fronteirices.blogspot.com/feeds/4858512390159945586/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/07/memory-lane.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/4858512390159945586'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/4858512390159945586'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/07/memory-lane.html' title='Memory lane'/><author><name>Desbra Vando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02847300063164608569</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SnHTGBkbhfI/AAAAAAAAAng/mZvZ8IK1VDI/s72-c/MNsquare.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3979598438513650907.post-5069687524586533632</id><published>2009-07-28T13:58:00.000-07:00</published><updated>2009-07-30T13:07:53.043-07:00</updated><title type='text'>Meda: fantasmas no motel</title><content type='html'>Antes de achar que estou sendo safadinha, vale lembrar que o sentido original de motel vem aqui dos Isteites: trata-se de um hotel de beira de estrada onde você estaciona seu carro e hospeda-se. O brasileiro, este ser safado (ainda bem) por natureza (ops, já entrei em contradição!), se apropriou do termo para nomear os diversos templos de prazeres espalhados pelo país. Portanto, aqui nas bandas do norte, motel é hotel e você não é obrigado a fazer fuque fuque se não quiser. Famílias inteiras hospedam-se nestes motéis para descansarem após um longo dia de viagem. No caso do Motel 6, em Sinton, Texas, fantasmas também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estávamos cansados da longa sexta-feira viajando 2h30m de Laredo a Sinton para a reunião do partido Democrata regada a várias horas de recepção com cerveja, barbecue e palestras políticas. Eu e W. queríamos dormir cedo, pois um dia na praia do Golfo do México nos aguardava na manhã seguinte. Estacionamos o carro nos fundos do motel. A noite era um breu total e não conseguíamos ver o que se localizava à frente do estacionamento. Tão sonolentos estávamos que nem fuque fuque ocorreu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;W. adormece rapidamente. Eu, após um breve ensaio de não mais de meia hora, acordo como se tivesse tomado três litros de Redbull. Começo a sentir um medo que me parece bastante irracional: medo de fantasmas. Olho para a cama vazia ao lado e acho que alguma imagem fantasmagórica aparecerá sorrindo maldosamente para mim. Verdade: de vez em quando sinto uns pavorzinhos assim. Deve ter sido a educação de terror em colégio católico. Mas ali, naquele lugar totalmente neutro, agarrada ao meu homão de 1,90m e 90Kg, este pavor não faz o menor sentido. Fecho então os olhos para evitar contato com os defuntos e falo para mim mesma que tudo aquilo é irracional. O relógio se arrasta madrugada adentro e nada do sono se apoderar de mim. Enquanto isto, durante a noite, W. pula da cama pelo menos quatro vezes de forma bastante violenta! Ele nunca foi de pular da cama. Parecia um ex-combatente do Vietnã tendo flashbacks de bombardeios. Imediatamente após cada convulsão sonâmbula, ele volta a dormir. Na verdade, me dou conta que ele nunca nem despertou. Num destes espasmos, se agarra à minha cintura e como uma criancinha, diz: "me abraça, me abraça, estou com tanto medo". Meda, pavor, pânico! Apesar de aterrorizada, preferi não acordá-lo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente, escuto vozes. No quarto ao lado, um casal discute violentamente. Quinhentos "fuck you" por minuto de cada parte. Meu coração quer pular fora do corpo. Que diabos está acontecendo naquele lugar? O medo começa a me paralisar. Sinto que serei testemunha de algum crime de tão porradaria que está sendo a briga. Começo, então, a rezar, suplicando para que uma legião de anjos entre no quarto e aparte aquela briga. As preces são atendidas: em menos de cinco minutos uma mulher bate à porta do casal e pede firmemente para que parem, não se machuquem e deixem todos dormir. A briga para e eu certamente tenho minha fé renovada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vejo o dia raiar. Não dormi quase nada, apenas alguns cochilos espaçados entre um pânico e outro. Minhas olheiras batem nos pés. W. acorda de bom humor dizendo que apagou e estava pronto para ir à praia. Conto para ele tudo o que ocorreu durante a noite. Ele não se lembra de absolutamente nada sobre seus violentos pulos e também não ouviu nada do tumulto do quarto ao lado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saíamos do motel pela porta dos fundos em direção ao carro. E ali, em plena luz do dia, a cerca de 15m do quarto, avistamos o cemitério histórico do condado de San Patricio repleto de lápides e de fantasmas que enfim descansavam para naquela noite tirar o sono dos próximos hóspedes do quarto 120.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3979598438513650907-5069687524586533632?l=fronteirices.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fronteirices.blogspot.com/feeds/5069687524586533632/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/07/meda-fantasmas-no-motel.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/5069687524586533632'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/5069687524586533632'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/07/meda-fantasmas-no-motel.html' title='Meda: fantasmas no motel'/><author><name>Desbra Vando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02847300063164608569</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3979598438513650907.post-2303689078884963268</id><published>2009-07-27T15:07:00.000-07:00</published><updated>2009-07-30T09:43:45.815-07:00</updated><title type='text'>Angariação de fundos do partido Democrata: minha breve introdução à política do sul do Texas</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SnHNmFODt1I/AAAAAAAAAnY/OoHut-4gWLU/s1600-h/Laredo+julho+2009+041.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 240px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SnHNmFODt1I/AAAAAAAAAnY/OoHut-4gWLU/s320/Laredo+julho+2009+041.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5364294685294835538" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SnHNFv2kKSI/AAAAAAAAAnQ/fVN_JyxEB1M/s1600-h/Laredo+julho+2009+043.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 240px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SnHNFv2kKSI/AAAAAAAAAnQ/fVN_JyxEB1M/s320/Laredo+julho+2009+043.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5364294129803340066" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Na sexta-feira, 24 de julho, partimos em direção a Sinton, uma cidadezinha do sul do Texas com pouco mais de 5.000 habitantes, para assitir a uma angariação de fundos ("fundraising") do partido Democrata. Lembrando que o Texas é um estado primariamente Republicano, governado por um Republicano, Rick Perry, há 11 anos. O sul do estado, porém, tem maioria Democrata. W, meu noivo, é um forte militante do partido Democrata, tendo sido um dos principais voluntários da campanha de Obama em 2009 em Laredo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembrei-me de como são comuns estes eventos de angariação de fundos aqui nos EUA. É uma cultura amplamente disseminada, assim como os abaixo-assinados. No evento em Sinton, pessoas físicas pagavam US$ 35 por cabeça e os condados (instâncias geo-políticas superiores à cidade, porém inferiores ao estado) podiam comprar mesas que variavam de US$ a 300 a US$ 1000.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi uma experiência muito rica ver a cara do partido Democrata aqui do sul do Texas, sobretudo no que diz respeito às pessoas comuns que estavam ali para se informar e apoiar o partido. Eram em sua maioria Hispânicos, como praticamente toda a população da região, mas também havia uma boa quantidade de não-Hispânicos. Neste caso, quase todos brancos (tenho consciência que estou erroneamente considerando a classificação local de que todos os Hispânicos são morenos). Não vi negros. Homens e mulheres pareciam estar presentes na mesma proporção, porém a faixa etária média era 50 anos. Havia raríssimas pessoas na casa dos 20 e 30 anos. Todos pareciam muito simples, vestindo roupas simples e comportando-se de maneira simples. Não vi afetações. Era o povo, a massa, o povão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A primeira parte do evento era uma "VIP party" numa lojinha de antiguidades na simpática Main Street da cidade. Na verdade qualquer pessoa podia entrar, mas nada como marketing para dar mais glamour às denominações. Entre comes e bebes, as pessoas faziam networking e conheciam alguns dos palestrantes e candidatos que estariam presentes no evento oficial daquela noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após uma hora na recepção, partimos para o evento oficial no centro de convenções, que atraiu entre 400 e 500 pessoas e foi considerado um sucesso. Como tudo neste país, começou com comida: um buffet de "barbecue", uma atrocidade deliciosa de colesterol e calorias. Havia algumas pessoas tão obesas na platéia que só conseguiam se locomover através de cadeiras de rodas. Os candidatos palestrantes do partido posicionavam-se nas filas para se apresentar aos seus futuros eleitores e entregar-lhes seus cartões de visita que incluiam informações de site, e-mail, Twitter e Facebook. Como sabemos, as mídias sociais foram de enorme importância na campanha de Obama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após o jantar, uma adolescente subiu ao palco para cantar o hino nacional, mas desafinou e engasgou nas notas mais altas. Foi aplaudida ainda assim. Em seguida, uma oração cristã de gratidão, finalizada com um vibrante e cheerlídico "God bless Texas" proferido por Rose Harrison, a Coordenadora Democrata do Condado de São Patrício, onde situa-se a cidade de Sinton. Rose, que na adolescência foi "cheerleader", era uma boa apresentadora e fez questão de usar trajes chamativos: um vestidinho azul cheio de grandes pedras na gola, botas de cowboy azuis e um chapéu de cowboy em um outro chamativo tom de azul. Ainda antes de chamar os palestrantes, ela e outros apresentadores fizeram longos agradecimentos a diversos militantes ali presentes, incluindo W. Nota-se que aprenderam muito bem a personalizar a comunicação para torná-la mais eficiente e motivar a auto-estima dos colaboradores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre os palestrantes, destacavam-se:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Palestrante principal: Henry Cisneros, Secretário de Moradia e Assuntos Urbanos do governo de Bill Clinton.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Candidatos ao senado federal pelo Texas Bill White e John Sharp, que ainda competirão nas primárias para ver quem será o candidato único do partido Democrata.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Candidato ao governo do Texas Tom Schieffer, que foi embaixador na Austrália e no Japão no governo de George W. Bush.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como um bom comunicador, Henry Cisneros sabia usar as palavras, as frases, as entonações e as histórias certas para tocar o coração e mentes dos seguidores do partido. Seu discurso tinha um objetivo de animar a massa ali presente para as eleições de maio próximo. Trouxe lágrimas aos olhos de alguns ouvintes ao contar a história do funeral de Franklin D. Roosevelt, na qual um homem muito emocionado viu o cortejo fúnebre passar e, ao ser perguntado se conhecia FDR, respondeu "não, mas ele me conhecia muito bem." O propósito era mostrar como o partido Democrata quer conhecer cada um dos seus eleitores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre os candidatos ao senado, Bill White, atual prefeito de Houston, certamente se mostrou mais bem articulado. Indicou no seu discurso que "política é algo pessoal sim, pois tem a ver com o seu emprego, sua moradia, sua saúde e se seus pais de 80 anos terão dinheiro para pagar as contas domésticas e os remédios no final do mês." Também exaltou sua altíssima taxa de aprovação como prefeito (89%), um projeto focado na instalação de grandes áreas de produção de energia eólica e como conseguiu absorver e dar assistência aos mais de 100.000 refugiados após os furacões Katrina e Rita. Já John Sharp mencionou que foi derrotado duas vezes por candidatos do partido Republicano, porém "com uma baixa margem". Também prometeu que, se eleito, focará em dar educação universitária gratuita a jovens que prestarem serviços comunitários, já que o custo da anuidade universitária ("tuition") é muito elevado no país. Neste ponto, observei várias pessoas balançando as cabeças em concordância e alguns aplausos. O candidato a governo do Texas falou por não mais que três minutos e basicamente só instigou os ouvintes a votarem democrata nas próximas eleições.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, esta foi minha breve porém instigante introdução à política local. Confesso que saí de lá me sentindo mais informada, diria até que talvez mais politizada. Soa ingênuo. E é. Não sou uma completa desinformada, mas a verdade é que também nunca fui de me aprofundar muito em política brasileira, que sempre me causou algum sono, mesmo sabendo que isto soa tão irresponsável. Porém desde que me mudei para Laredo me vejo devorando sites e notícias para me munir mais de informações e consolidar algumas opiniões a respeito das políticas e economias norte-americana e brasileira. Afinal, grande parte das conversas que presencio com os meus novos amigos (ou seja, amigos de W), é sobre política. Portanto, não dá para ficar de bibelô sorridente ou pincelar rapidamente os fatos quando grandes debates vem à tona. A motivação para o interesse político tem que vir de algum lugar, mesmo que seja do casamento.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3979598438513650907-2303689078884963268?l=fronteirices.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fronteirices.blogspot.com/feeds/2303689078884963268/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/07/angariacao-de-fundos-do-partido.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/2303689078884963268'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/2303689078884963268'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/07/angariacao-de-fundos-do-partido.html' title='Angariação de fundos do partido Democrata: minha breve introdução à política do sul do Texas'/><author><name>Desbra Vando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02847300063164608569</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_qlIeXu8oXig/SnHNmFODt1I/AAAAAAAAAnY/OoHut-4gWLU/s72-c/Laredo+julho+2009+041.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3979598438513650907.post-1083615412561217256</id><published>2009-07-26T16:03:00.000-07:00</published><updated>2009-07-26T16:44:22.443-07:00</updated><title type='text'>Domingo</title><content type='html'>Deus criou o mundo no domingo para no sábado descansarmos. A humanidade mudou a ordem e fez do domingo o dia do descanso. E, independentemente de passarmos a semana trabalhando insanamente ou de desacelerarmos em sábaticos dias, o domingo sempre amanhece com um véu de suave melancolia, uma preguiça entranhada nos lençóis, questionamentos em profusão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É preciso preparar alguns projetos. Tempero um peixe para W. Misturo banana, leite de côco, duas colheres de creme de leite, salsinha fresca. No escritório, W estuda sua lição de português. Há muitos idiomas a serem aprendidos quando se casa. A língua mãe de cada um é apenas um detalhe. Desbravam-se os olhares, os pequenos cuidados, o beijo prolongado, o sono, as gargalhadas, os silêncios. Há tantas sintaxes e proparoxítonas nestas conjugações. Do canto da sala, uma voz: "oi, rainha, estudo por você. " Meu coração se amorna e o peixe cheira bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dois pratos e quatro talheres sobre a mesa. Ele adora o mesmo peixe que eu acho um horror. Ambos requentamos o feijão da sexta-feira. Uma refeição servida é mais um projeto que se acaba. Vamos cuidar da casa: o chão está encardido, coloque os cachorros para fora, aqui está o rodo, recarregue a furadeira para pregarmos as novas luminárias. O vento sopra quente sobre as árvores do quintal e meus dedos ainda cheiram a cebola e alho. Existem algumas pequenas alegrias vindas das minúsculas sequências de diminutos atos que tornam os domingos tão grandiosos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3979598438513650907-1083615412561217256?l=fronteirices.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fronteirices.blogspot.com/feeds/1083615412561217256/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/07/domingo.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/1083615412561217256'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/1083615412561217256'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/07/domingo.html' title='Domingo'/><author><name>Desbra Vando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02847300063164608569</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3979598438513650907.post-5181347793105621088</id><published>2009-07-23T11:35:00.000-07:00</published><updated>2009-07-23T13:24:50.800-07:00</updated><title type='text'>Cidade bilíngue</title><content type='html'>"What would you like to drink, ma'am? Café? Agua? Refresco?" Laredo é uma cidade bilíngue. Inglês e espanhol mesclam-se na mesma frase em total harmonia e naturalidade. Você pergunta algo em inglês e o interlocutor decide o idioma da resposta. Em algumas situações, é mais necessário saber espanhol do que inglês. Esta semana trocamos o telhado de casa, destruido pela geada de meses atrás. Como praticamente todos os trabalhadores braçais destas bandas, os homens que fizeram o serviço eram mexicanos e não proferiam uma palavra sequer em inglês. Caso eu não soubesse espanhol, não haveria comunicação. Em alguns caso, por falarem rápido demais, eu realmente não conseguia entendê-los. Cheguei a pedir para um deles repetir a mesma frase seis vezes, mas como meu cérebro não captava nada, apenas lhe servi uma Diet Coke e ficou por aquilo mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A população da cidade é 94% de origem hispânica, quase totalmente descentente de mexicanos. Portanto, mesmo os nascidos nos EUA falam espanhol, pois foi o idioma falado em casa. Além disto, tem um sotaque distinto, com uma certa diferença nos "erres"e na entonação. Como casam-se com outros hispânicos, continuam a reproduzir o ambiente em que cresceram. Outro dia fomos visitar uma amiga do meu noivo que estava se recuperando de um aborto devido a uma gravidez tubária. Ela é descendente de mexicanos, mas foi criada em inglês e só aprendeu espanhol mais tarde. Seu marido é também descentende de mexicanos. Falam inglês com espanhol salpicado nas frases. Em poucos instantes chegou um outro casal de amigos com dois filhos pequenos. A mãe era mexicana, o pai era americano de origem hispânica. Com os filhos, falavam os dois idiomas na mesma frase. As crianças de 4 e 2 anos entendiam perfeitamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comecei hidroginástica esta semana. No primeiro dia, a professora, notadamente de origem hispânica, fez toda a aula em inglês. "Up, down, there we go ladies! One, two, three, put your knees up!" Já a instrutora de ontem falava assim: "Uno, dos, tres! Legs up! Three, four, five! Ahora con los brazos arriba de la cabeza. Very good, ladies!".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há um jornalzinho local chamado Rio Magazine. É basicamente um espaço para coluna social e publicidade. O editorial é em inglês, mas os anúncios são quase todos em espanhol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estatísticas: de acordo com o &lt;a href="http://www.census.gov/population/www/socdemo/hispanic/files/Internet_Hispanic_in_US_2006.pdf"&gt;Censo americano&lt;/a&gt;, em 2006 Hispânicos e Latinos constituiam 14,8% da população dos EUA, ou 44,3 milhões de pessoas. Os descendentes de mexicanos representam 64%, seguidos de 9% de porto-riquenhos. Na &lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Hispanic_and_Latino_Americans"&gt;Wikipedia&lt;/a&gt; você encontra um vasto artigo sobre como é feita esta classificação étnica tão cheia de detalhes. A projeção é de que em 2050, existam mais de 120 milhões de hispânicos no na terra do tio Sam. Atualmente, o ritmo do crescimento desta população (24,3%) é três vezes maior que o crescimento da população total do país (6,1%). O Texas é o segundo estado com a maior população hispânica (8,4 milhões), atrás da Califórnia (13 milhões). Em terceiro lugar está a Flórida (3.6 milhões). Os EUA são o segundo país com o maior número de falantes em espanhol, atrás apenas do México. Ainda de acordo com o Censo, metade indica falar inglês "muito bem".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Existe uma imensa controvérsia sobre o uso do espanhol nos Estados Unidos. Alguns grupos afirmam que será o idioma oficial do país em algumas décadas (e aborrecem-se por completo), outros afirmam que não há riscos para o idioma inglês. Não vou entrar agora nos detalhes defendidos pelas correntes de pensamentos sobre esta discussão , mas acredito que a cultura bilíngue seja extremamente rica e benéfica. Existe uma diferença na forma de se expressar em inglês e espanhol, e como é proveitoso poder selecionar a maneira mais conveniente. Laredo e o país certamente se tornam mais interessantes por conta desta flexibilidade. E acredito sim que quem discorde disto no fundo seja um grande preconceituoso. Como a história bem mostra, linguagem é poder. Querer parar um idioma é uma forma de dominar, colonizar. Que o digam os idiomas indígenas existentes no Brasil. Lá, no século XVIII, o Marquês de Pombal proibiu as línguas indígenas e decretou o português o idioma oficial. Isto fazia parte da sua visão de tirar o país do "atraso", ou seja, de extirpar qualquer forma de manifestação que não fosse a do dominador. Certa vez fui a uma manicure mexicana aqui em Laredo e ela me disse que trabalhava numa empresa com outros mexicanos. De acordo com ela, existia uma distinção social entre os que falavam o inglês mais correto e com menos sotaque. A corda sempre aperta mais para o lado do "colonizado." &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Como a língua é dinâmica, gostaria de voltar em 100 anos para saber como será o idioma de então. Um espanhol inglesado? Um inglês espanholado? Aqui existe um termo chamado "Spanglish", o equivalente do nosso portunhol. Talvez já seja o começo do amanhã.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3979598438513650907-5181347793105621088?l=fronteirices.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fronteirices.blogspot.com/feeds/5181347793105621088/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/07/cidade-bilingue.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/5181347793105621088'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/5181347793105621088'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/07/cidade-bilingue.html' title='Cidade bilíngue'/><author><name>Desbra Vando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02847300063164608569</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3979598438513650907.post-3142485727216994282</id><published>2009-07-21T15:36:00.000-07:00</published><updated>2009-08-14T15:24:58.474-07:00</updated><title type='text'>Dona Amélia, a diarista</title><content type='html'>Na primeira vez que conheci Dona Amélia*, numa manhã lareirense de maio, eu ainda tinha o status de namorada-visitante do novo lar. Ela me reconheceu pelas fotos que meu então namorado, atual noivo, havia colocado em diversos lugares da casa. Nem por isto, deixou de me olhar desconfiada. Eu que só havia visto diaristas mexicanas em filmes, estava ali em contato com um exímio exemplar. Com sua voz aguda e fala acelerada, não proferia uma palavra em inglês. Passou a tarde limpando a casa e trocamos apenas rápidos sorrisos típicos de quem quer apenas fazer um contato para mostrar educação. Até o momento em que recolheu minhas calcinhas da máquina de secar roupa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Mira, que chiquititas...son para momentos muy especiales, no?" Eu havia esquecido de guardá-las. Não queria passar pelo constrangimento de dar minhas calcinhas para ela naquele momento. Aprendi que estas coisas a gente só faz quando já se tem alguma intimidade -- ou quando pelo menos se reside no lugar, não quando se está de férias. Diante do seu comentário, apenas sorri um tanto constrangida, e olha que não sou de me constranger com estas coisas. Porém ela não se deu por vencida e ao receber apenas o meu sorriso como resposta, fez uma cara que misturava malícia com reprovação. "Que pequenitas, muy pequenitas. Veo que son para momentos muuuuuy especiales. Sí, momentos especiales con su señor." Então percebi que ou eu me deixava constranger ou contornava a situação. Afinal, era o momento decisivo de mostrar respeito, já que muito em breve eu seria a "señora de la casa." Olhando firmemente para seus olhos, respondi em espanhol: "não, senhora, estas são as calcinhas que uso diariamente. As calcinhas sem graça. As para momentos especiais são beeem menores do que estas." Surpresa com minha resposta de fala firme, ela arregalou seus olhos redondos atrás dos óculos e apenas deu um sorriso meio desdenhoso, mas satisfeita por não ter escondido sua alfinetada inicial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dois meses depois, Dona Amélia voltou à casa para mais um dia de faxina. Abriu a porta principal às 9h da manhã e levou um susto ao me ver. Eu a recebi com um acalorado sorriso e lhe contei a novidade do meu status oficial de noiva. Sua alegria foi imediata: "Que bueno! Ahora el señor de la casa "tiene una señora!". E a partir daí, Dona Amélia se mostrou uma verdadeira tagarela. Uma simpatia de mulher, mas uma tagarela sim. Durante todo o dia, tive que escutar o quanto era maravilhoso eu estar aqui, pois um homem sem uma mulher não vale nada. E que eu escolhi um homem muito bom, sem vícios. Ah, porque o outro rapazinho que aluga um quarto aqui tem muitos vícios. "Que vícios, Dona Amélia?". "Bueno, alcohol e un cigarrillo de marijuana". Pobre roomate Ted*. Ela deve ter entrado em seu quarto em alguma manhã de ressaca. Ainda ontem eu conversava sobre drogas com este cara gente boa, e até onde saquei, faz meses que ele não sabe o que é um baseado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante a manhã eu me dividi entre um trabalho no computador e o preparo do almoço. Ao me ver temperando a galinha, não hesitou: "mas que maravilha, você sabe cozinhar! Quero aprender, porque nem eu sei cozinhar assim, você vai ter que me ensinar! Ah, como é sortudo 'su señor', pois tem uma mulher que cozinha comida de verdade. Vai ficar gordinho, tenho certeza". E dava uma risada aguda de satisfação. Entre um risada e outra, Dona Amélia perguntou se eu queria ter filhos. Indiquei que sim, mas que gostaria de esperar um pouco. "Ah, claro, esperar a fase da lua de mel passar", ela soltou. Foi quando então me contou uma história que mal acreditei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dona Amélia ficou grávida um mês após casar aos 19 anos. Seu marido tinha 22. Até aí tudo bem. Mas disse que faltando uma semana para o bebê nascer, ela ainda não sabia por onde a criança ia sair. Ninguém falou para ela. Em suas palavras, disse que até a noite de núpcias nenhum homem havia "tirado suas calcinhas" e que nenhuma mulher da sua família ou amiga jamais lhe ensinou nada. "Mas e ele, sabia?", perguntei. "Claro, pues. Era hombre." Intrigada com aquela história, quis saber mais. De onde era ela? Em que ano foi aquilo? Guadalajara, México, 1964. Os anos 60 fervilhando e Dona Amélia mergulhada na ignorância -- palavra, inclusive, que ela mesma usou para descrever sua situação. Mais uma pergunta minha: "e para sua filha, você contou o que ela tinha que fazer?". Sua resposta foi enfática: "não. Ela estudou aqui neste país (EUA), então eu não precisava dizer nada."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu comecei a enrolar uns brigadeiros que daria como agradecimento a um amigo enfermeiro do meu noivo que me ajudou quando fiquei doente assim que cheguei à cidade. Dona Amélia ficou encantada com os docinhos e deu novamente muitos vivas à minha habilidades culinárias. Então soltou mais esta: "aqui as coisas são muito mais liberais. Ou melhor, libertinas". E começou a proferir sua visão de que os tempos passados eram melhores, pois as mulheres se davam respeito e não competiam para ver quem dormia com mais homens. Falei para minha filha que se quisesse namorar, podia. Mas só se o rapaz viesse pedi-la para mim em namoro. Homem que não fizesse isto, é porque só queria tirar vantagem." Às 17h sua filha veio buscá-la e ela terminou o serviço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É, Dona Amélia, outros tempos. Hoje a gente coabita antes de casar. Faz test-drive pra saber se funciona. Eu estou gostando muito. Mas soube através de minha mãe que há menos de um mês meu noivinho pediu para meu pai se podia casar comigo. É Dona Amélia, ainda bem que o tempo não varreu por completo algumas tradições.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*Nomes mudados para preservar a identidade dos personagens.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3979598438513650907-3142485727216994282?l=fronteirices.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fronteirices.blogspot.com/feeds/3142485727216994282/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/07/dona-amelia-diarista.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/3142485727216994282'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/3142485727216994282'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/07/dona-amelia-diarista.html' title='Dona Amélia, a diarista'/><author><name>Desbra Vando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02847300063164608569</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3979598438513650907.post-7218843541190106483</id><published>2009-07-21T14:31:00.000-07:00</published><updated>2009-07-21T15:19:07.518-07:00</updated><title type='text'>Sauna de Sata e o po do semi-arido</title><content type='html'>Chamo Laredo carinhosamente de Sauna de Sata (ta faltando acento, mas eh do Demo mesmo que estou falando). Cresci em area urbana do sertao nordestino, onde dava para se fritar ovo na calcada, mas nada como isto aqui, onde eh possivel cozinhar omeletes inteiras e praticamente eliminar o uso do fogao! A temperatura alta anual tem media de 37 C, enquanto que a temperatura baixa fica em 24 C. Jesus Christ the Lord, fucking 24 C! Ontem, por exemplo, os termometros marcavam 42 C. As 19h (isto mesmo, sete da noite!). Tenho certeza que o Tinhoso estava nas redondezas tomando umas margaritas tequiludas. A temperatura seca eh influenciada pelos desertos do norte do Mexico, enquanto que as correntes de ar umido chegam atraves do Golfo do Mexico. Ate agora, so vivi dias umidos e nao estou falando de pornografia. Amo o Mexico (lugar que ja em momentos passados mudou minha vida para sempre), mas quanto ao clima, ele botou pra quebrar em Laredo. Certamente deve fazer parte da vinganca mexicana sobre o primo rico do norte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, assim, fica impossivel viver sem ar-condicionado. Nao da para ser politicamente correta e economicamente sustentavel. A conta de energia eh astronomica. As casas parecem ser construidas para dependerem do uso constante de refrigeracao artificial e todo lar tem um ar-condicionado central que fica ligado o dia inteiro. Na minha casa, desligo o aparelho por nao mais que 40 minutos diariamente, quando abro portas e janelas para fazer circular o ar. O ar saturado de areia fina do semi-arido texano e mexicano, que lentamente vai tomando as frestas das persianas, os cantos das janelas, os esconderijos sob as cadeiras. "Pergunte ao po", diria Fante. Nao pergunto nada. Peco apenas que ele nao me cubra antes de eu ficar bem velha, mas ele barbariza com uma lufada entupidora de narinas: "ta bom pra voce?".&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3979598438513650907-7218843541190106483?l=fronteirices.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fronteirices.blogspot.com/feeds/7218843541190106483/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/07/sauna-de-sata-e-o-po-do-semi-arido.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/7218843541190106483'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/7218843541190106483'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/07/sauna-de-sata-e-o-po-do-semi-arido.html' title='Sauna de Sata e o po do semi-arido'/><author><name>Desbra Vando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02847300063164608569</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3979598438513650907.post-7344103447353882144</id><published>2009-07-20T10:21:00.000-07:00</published><updated>2009-07-21T14:25:18.968-07:00</updated><title type='text'>Resuminho basico sobre Laredo (e uma certa semelhanca com minha cidade natal)</title><content type='html'>Resuminho basico para contextualizar meus leitores sobre Laredo, Texas. Descobri que, pelo menos estatisticamente, nao eh tao fim de mundo assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segunda cidade que mais cresce nos EUA, atras apenas de Las Vegas, Laredo tem aproximadamente 218.000 habitantes e localiza-se na fronteira com o Mexico. Para os padroes americanos, eh uma cidade grande. Fundada em 1755, sob dominio espanhol, sua area metropolitana hoje inclui Nuevo Laredo, a irma mexicana do outro lado do Rio Grande. Juntas totalizam 734.000 habitantes. Sua principal fonte de renda eh o intenso intercambio com o Mexico, sendo considerado o maior porto em terra localizado nos Estados Unidos e a 4a cidade no ranking de volume de comercio, atras apenas de Nova Iorque, Los Angelos e Detroit.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais informacoes no &lt;a href="http://www.visitlaredo.com/page.asp?page=Laredo+Information"&gt;site da cidade&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho observado varias semelhancas com minha cidade natal Petrolina, Pernambuco. A comecar pelo clima semi-arido, a vegetacao seca e amarronzada, salpicada de algarobas e cactus, que esverdeja rapidamente com qualquer pingo de chuva. Em seguida, o fato de ser uma cidade fronteirica, com um enorme rio a atravessar seu coracao -- ainda que, infelizmente, nao de para tomar banho nas aguas do Rio Grande (escolha morrer de infeccao causada por poluicao ou por um tiro disparado pela patrulha da fronteira!). A vocacao para o comercio, o aeroporto internacional, a enorme quantidade de novos bairros e condominios surgindo por todos os lados, a limitacao de atividades artistico-culturais...mas nada que me faca sentir em casa (sim, apesar da alma de viajante e de ja ter saido de la ha mais de 15 anos, Petrolina eh minha raiz mais forte) . Por enquanto, sou mera observadora, alheia a tudo e a (praticamente) todos, em processo de absorver o caldo que todo lugar tem, com um certo cuidado para nao pre-julgar. Dificil tarefa, mas nunca eh tarde para aprender.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3979598438513650907-7344103447353882144?l=fronteirices.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fronteirices.blogspot.com/feeds/7344103447353882144/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/07/resuminho-basico-sobre-laredo-e-uma.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/7344103447353882144'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/7344103447353882144'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/07/resuminho-basico-sobre-laredo-e-uma.html' title='Resuminho basico sobre Laredo (e uma certa semelhanca com minha cidade natal)'/><author><name>Desbra Vando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02847300063164608569</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3979598438513650907.post-6802297159749026287</id><published>2009-07-20T09:32:00.000-07:00</published><updated>2009-07-20T09:48:41.470-07:00</updated><title type='text'>Prefacio</title><content type='html'>Ja faz duas semanas que cheguei ao novo territorio e tenho adiado meu primeiro post porque queria ser fiel a lingua portuguesa e escrever com todos os acentos, crases e cedilhas. Bom, fidelidade eh relativo, pois ainda ainda nao coloquei em pratica nada da nova revisao gramatical implementada no inicio do ano. Deu uma preguica danada de aprender. Mas enfim: estou em terras norte-americanas e meu atual PC nao escreve na lingua patria, nem quando eu tento mudar a configuracao do idioma. Comprei um teclado em portugues, mas a principio so esta servindo para eu trocar ideias com o servico de atendimento ao consumidor do produto. Nossa flor do lacio ta dando um trabalho da gota e ainda nao consegui capturar um acento circunflexozinho. Enquanto aguardo respostas do SAC, meus dedos cocam, a lista das observacoes crescem e eu nao resisto: comeco, assim, sem acentos, mas procurando acentuar cada fato, sem cedilha, mas nao esquecendo de ver o rabinho dos acontecimentos, este diario virtual de mais uma jornada que vai me levar nao sei ainda aonde, mas que ja esta sendo uma viagem. Apertem os cintos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3979598438513650907-6802297159749026287?l=fronteirices.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fronteirices.blogspot.com/feeds/6802297159749026287/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/07/prefacio.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/6802297159749026287'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/6802297159749026287'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/07/prefacio.html' title='Prefacio'/><author><name>Desbra Vando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02847300063164608569</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3979598438513650907.post-4722161576350757837</id><published>2009-07-09T10:24:00.000-07:00</published><updated>2009-07-21T14:30:05.945-07:00</updated><title type='text'>Desbravando</title><content type='html'>Desde pequena tenho uma fome alucinante por tudo o que eh estrangeiro. E nao estou falando so de homem nao! Entram aqui idiomas, culinaria e manifestacoes culturais em geral. Na minha cabeca, faz sentido pensar que eh porque eu fui gerada num estado e nasci na fronteira entre dois outros estados. Morar na minha cidade natal para o resto da vida nunca foi uma alternativa viavel. Loucura era nao sair. Cair no mundo era e ainda eh a unica forma de me sentir viva (ainda que seja tao facil me trancar em alguns universos particulares). O ideal romantico de colocar a mochila nas costas e se jogar ainda continua em alta, ainda que com o tempo a necessidade de maior conforto comece a falar mais alto (ja penso duas vezes antes de encarar uma barraca de camping!). Mas ao me jogar na estrada, sobretudo se estiver rodeada por um idioma diferente do meu e umas situacoes onde eu me sinta completamente perdida, ai sim eh que a vida pulsa. Eh o cano de escape pra quem geralmente tem a tendencia a querer controlar o incontrolavel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembro que ainda pequenininha gostava de olhar para o mapa mundi (naquela epoca ainda existiam a URRS e a Checoslovaquia, e o estado do Tocantins era apenas um grande e vasto Goias). Gostava de buscar nomes para os meus futuros filhos inspirados em paises e cidades: Mauricio, Italia, Grecia, Trinidade, Cairo. Algumas decadas depois conheci uma mulher chamada Italia e dei uma risadinha de satisfacao por dentro. Eu e minha irma tambem tinhamos um caderninho de colagens, onde pregavamos fotos de modelos recortadas de revistas de moda e faziamos de conta que era nosso album de viagens. Uma roupa para cada cidade e pais visitado. Eramos umas globe trotters de armario.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando algum amigo estrangeiro dos meus pais vinha nos visitar, eu ficava abestalhada tentando compreende-los. Eram aliens, sem duvida. Seres diferentes que carregavam um aura fascinante. Certamente porque traziam seu mundo consigo e despejavam-no sobre a mesa de jantar com aqueles sotaques engracados e charmosos, aquelas historias de alem-mar que me faziam viajar junto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Praticamente nao viajei durante a infancia. Minha familia nunca foi de planejar ferias e meus pais viveram anos bem apertados economicamente durante minha pirralhice. Minhas amigas faziam excursoes de onibus para o Paraguai -- imaginem so, 4 dias de viagem dentro de um busao, atravessando o Brasil -- e o Paraguai me parecia o paraiso exotico na Terra. Escutava suas historias de viagem e depois eu inventava um portunhol fuleiro para conversar sozinha pelos cantos da casa. E quando via suas fotos de viagens a Disney, eu queria morrer de pura inveja e vontade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos 11 anos entrei no curso de ingles, o ET English TOEFL. Certamente o melhor curso de ingles ja inventado. O metodo, ate onde sei, foi criado pelo dono do curso, Henry Sauerbrown, um americano de Illinois que se mudou para o sertao nordestino, casou-se por la e criou seus filhos ate falecer ha poucos anos. Henry, ou melhor, Henrique, como era chamado, foi um dos grandes incentivadores do meu desejo de correr o mundo, pois alem de ensinar sua lingua nativa, seu curso fomentava o desejo de conhecer de perto a cultura americana. Aos 16 anos meu ingles ja era otimo, faltava apenas aprimorar as girias e a velocidade natural do idioma. Consegui entao embarcar num intercambio para Iowa, onde estudei por um ano numa high school. Dois anos depois, consegui uma bolsa de estudos para retornar ao pais, cursar faculdade e trabalhar por um periodo, totalizando 5 anos de Kansas. Como quase todo brasileiro, tenho uma relacao de amor e odio com os Estados Unidos, um pais que foi tao generoso comigo, que me deu experiencias riquissimas de vida, mas que eu ainda tenho uma dificuldade enorme de digerir diversos aspectos da sua cultura e modo de viver. Mas enfim, sinto o mesmo em relacao ao Brasil. Sempre ha visceralidade quando se ama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foram nestas experiencias que meu mundo realmente se abriu. As fronteiras ficaram diminutas a cada nova nacionalidade que chegava a minha vida cotidiana. Conheci gente do mundo inteiro, namorei estrangeiros, aprendi espanhol, cheguei a estudar grego, numa noite ia para uma festa da galera do Casaquistao e no dia seguinte a um jantar promovido por meu vizinho do Catar. E, olhem so, cheguei ate a trabalhar por um verao na Disney (nunca subestimem um desejo pueril). Misturei buchada com fois gras e sushi e fiz disto meu farto cafe da manha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de ja inserida na vida profissional, consegui fazer outras viagens para o exterior, e cada uma delas funcionava como uma descarga eletrica de alta voltagem na minha auto-estima e na concretizacao de sonhos nutridos ao longo de uma vida. Ainda nao rodei o tanto quanto gostaria devido ao binomio tempo e grana. Mas nao consigo pensar em portos permanentes. Ja cheguei a cogitar que isto poderia ser um sinal de fuga, mas depois de anos de analise, me dei conta que so consigo mesmo eh fugir do tedio de nao me locomover. Certamente tudo isto pode mudar quando os filhos chegarem. Ate la, continuo acreditando que a estrada eh sabia e que eh necessario tentar sugar o maximo dela, mesmo quando tudo o que se faz eh parar numa esquina e observar a vida passar. Porque ela passa rapido demais, nao conseguimos segurar o tempo, tudo eh volatil e fragil, ate a memoria do que ja foi um dia.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3979598438513650907-4722161576350757837?l=fronteirices.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fronteirices.blogspot.com/feeds/4722161576350757837/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/07/desbravando.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/4722161576350757837'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3979598438513650907/posts/default/4722161576350757837'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fronteirices.blogspot.com/2009/07/desbravando.html' title='Desbravando'/><author><name>Desbra Vando</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02847300063164608569</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry></feed>
